Casas de apostas regularizadas que estão entre as maiores do País firmaram parceria, para atração de novos apostadores, com uma empresa do Espírito Santo apontada pela Polícia Federal como integrante da infraestrutura financeira do esquema que resultou na prisão do MC Ryan SP, suspeito de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
A Blackbox, cujos sócios também foram presos na Operação Narco Fluxo, se apresenta como “o maior hub de bets do Brasil”. Ela promete indicar em qual casa parceira o apostador consegue o maior cashback. A empresa também diz ter uma rede de influenciadores para fomentar apostas e, no primeiro ano do mercado regulado de apostas, já surgiu como a principal patrocinadora do futebol capixaba.
Procurada, a empresa afirmou, por meio de um dos advogados, que os contratos com bets são totalmente regulares e que o negócio firmado com MC Ryan SP não tem ligação com esquema criminoso (leia mais abaixo).
O site da Blackbox anuncia parcerias com 15 casas de apostas. Entre elas, Betano, Estrelabet, Superbet, Zero Um e Upbet, que são algumas das mais populares do País e patrocinam grandes times de futebol e competições esportivas.
Procurada, a Betano e a ZeroUm afirmaram que desfizeram a parceria. A Superbet não quis se manifestar. A reportagem não localizou representantes da Upbet (leia mais abaixo).
Apesar do encerramento dos vínculos, as marcas das casas de apostas continuam expostas em publicações da Blackbox nas redes sociais e em páginas da empresa.
O que a PF aponta sobre a Blackbox
Segundo a Polícia Federal, a Blackbox, registrada em nome de Thadeu José Chagas Silveira e Renan Costa da Mata, faz parte da rede criminosa que captava e circulava dinheiro ilícito para ser lavado e repassado para MC Ryan SP, o “beneficiário central” de um esquema criminoso que teria ainda outras empresas.
A investigação federal aponta que a firma capixaba foi responsável por “vultosos pagamentos dissimulados” ao funkeiro, apontado como destinatário de verbas obtidas com jogos ilegais e com o tráfico internacional de drogas praticado pelo PCC.
A Blackbox celebrou contratos formais com uma empresa de Ryan para ações publicitárias nas redes sociais, mas a PF aponta que os documentos eram simulações. Os pagamentos ao funkeiro foram feitos na conta pessoal do MC, antes da prestação dos serviços, e somaram pelo menos R$ 1,3 milhão, entre o fim de dezembro de 2024 e o início de janeiro de 2025.
“A transferência de cifras milionárias para conta pessoal de Ryan, atribuída à prestação de serviços publicitários no interregno de apenas dezessete dias, imprime contornos altamente suspeitos à operação e legitima, no mínimo, a existência de fortes indícios de simulação”, frisou o juiz federal Roberto Lemos dos Santos Filho, responsável pela operação.
A empresa alegou à polícia que os contratos eram lícitos e que o descumprimento parcial de uma das cláusulas pelo MC levou a Blackbox a cobrá-lo na Justiça. Os investigadores suspeitam da reclamação porque a firma processou uma outra empresa do funkeiro, diferente daquela com a qual o contrato foi assinado, e a ação de cobrança só foi apresentada em março deste ano.
A PF ainda investiga a relação da Blackbox com casas de apostas ilegais, com transporte de valores e com envio de dinheiro ao exterior por meio de criptoativos. Também apura se há outras pessoas por trás da operação da empresa capixaba, cujo CEO declara receber R$ 15 mil por mês e um faturamento mensal de R$ 2 milhões.
Os investigadores já reuniram informações que indicam uma suspeita de “manipulação de jogos de azar” por meio de um site alternativo no qual a Blackbox prometia tornar apostas na “maior fonte de renda” dos interessados. O anúncio descumpre regras de publicidade das bets ao prometer ganhos financeiros.
A investigação aponta a Blackbox como “criadora de robôs manipuladores de apostas”. O mecanismo permitiria a remessa de “vultosos valores ilícitos dissimulados de comissão” para MC Ryan.
Em um parecer, o Ministério Público Federal (MPF) disse que a empresa “atua em ambiente eletrônico de forma disfarçada, como intermediária e comercializadora de jogos de azar/apostas, atividade esta desenvolvida ilicitamente sob a falsa fachada de consultoria e educação financeira”.
A Operação Narco Fluxo
Ao todo, 39 pessoas foram alvos de mandados de prisão cumpridos em 15 de abril por suspeitas de participação em esquema que teria movimentado R$ 1,6 bilhão no período investigado, segundo a PF. Entre eles, Ryan, Thadeu e Renan, que foram soltos um mês depois. A operação teve um total de 77 alvos, entre pessoas físicas e jurídicas, como produtoras musicais, promotoras de rifas digitais e processadoras de pagamentos.
“A análise individualizada de cada uma das transações financeiras realizadas pelos investigados antes citados (…) apresenta um conjunto de elementos de prova indicativos da existência de uma estrutura organizada que teria combinado holdings, empresas de produção e interpostas pessoas para triangular receitas, créditos e aquisições patrimoniais, além de empregar fragmentação de transferências, uso de criptoativos e evasão de divisas”, diz trecho da decisão do juiz Roberto Lemos dos Santos Filho, que autorizou a operação.
A Narco Fluxo foi um desdobramento das operações Narco Bet e Narco Vela, que investigam um esquema de lavagem de dinheiro do tráfico de drogas com plataformas de apostas e criptoativos.
Advogado dos controladores da Blackbox, Márcio Azevedo Schneider afirmou que os contratos da empresa com bets regularizadas são totalmente lícitos e registrados.
Disse ainda que a empresa do Espírito Santo tinha um contrato com MC Ryan para divulgação, de cerca de R$ 1,3 milhão, e sem qualquer relação com atividades criminosas. Ele considera o valor “muito baixo” por ser muito inferior do desvio bilionário apontado pela PF.
A principal página da empresa no Instagram tem 54 mil seguidores. A dedicada aos influenciadores, 7 mil. Nas publicações, afirma trabalhar apenas com casas de apostas regularizadas e não diz o montante de influenciadores que reúne.
Nos conteúdos divulgados para atrair os influenciadores, a empresa diz que o mercado de jogo online “explodiu e virou a maior oportunidade” para quem tem pelo menos 5 mil seguidores, promete vantagens como viagens em casos de “metas batidas”, retornos financeiros “até quando o resultado não vira” e diz que é os associados “também ganham por indicações”.
‘Hub de bets’ patrocina times de futebol no ES
A Blackbox é uma empresa aberta em 2021 com endereço registrado na Serra, região metropolitana da Grande Vitória, e se apresenta como um agregador de casas de apostas parceiras.
O serviço principal consiste em concentrar as casas de apostas parceiras em um único aplicativo para que o apostador possa comparar as chances de ganhos e em qual ele teria mais reposição de perdas (cashback).
O homem apresentado como CEO é Thadeu Silveira, que também tem negócios nos ramos imobiliário e de venda de motos.
A firma suspeita de participar de uma engrenagem de lavagem dinheiro em esquema de MC Ryan SP se destacou no futebol capixaba como patrocinadora de alguns dos principais times do Espírito Santo e viabilizando a transmissão de partidas oficiais.
Em maio passado, a Blackbox foi anunciada como principal patrocinadora do Rio Branco Atlético Clube, tradicional clube do Espírito Santo. O contrato que podia chegar a R$ 4 milhões foi considerado um dos mais expressivos já assinados no futebol local.
O clube disputa a Série D do Campeonato Brasileiro deste ano. Apesar de ser do Sudeste, a equipe ganhou o direito de jogar a Copa Centro-Oeste e ficou com o vice-campeonato na disputa realizada no mês passado.
A Blackbox também patrocinou os outros três principais representantes do futebol do Espírito Santo: Vitória Futebol Clube, Desportiva Ferroviária e Serra Futebol Clube. O time da capital capixaba também disputa a Série D deste ano.
Em nota, o Rio Branco informou que não tinha conhecimento prévio dos fatos investigados pela Polícia Federal e que acompanha o caso com atenção e cautela. Disse também que fez uma análise interna sobre a Blackbox antes de assinar o contrato e que não havia qualquer informação pública ou elemento formal que desabonasse a empresa.
O Vitória Futebol Clube disse em nota que tem contrato de patrocínio com a empresa e que tomou a decisão de suspendê-lo após tomar conhecimento da investigação pela imprensa. O clube informou que a patrocinadora se estabeleceu no Estado “produzindo conteúdo sobre futebol capixaba em mídias sociais, firmando desde então contratos com vários clubes de futebol profissional”.
A Desportiva informou que o patrocínio foi firmado em 2025 e durou três meses. Destacou que a relação ocorreu “dentro de práticas usuais do mercado esportivo, sem qualquer participação da patrocinadora na gestão” do clube. Sobre a operação contra a antiga patrocinadora, disse que não tinha conhecimento até ser procurada pela reportagem.
O Serra informou que o patrocínio funcionou exclusivamente durante a disputa do Campeonato Capixaba Série B de 2025, em contrato com prazo determinado para o período da competição.
Sobre a operação contra os sócios da patrocinadora, disse que tomou conhecimento pela imprensa e que não possui qualquer envolvimento com os acontecimentos investigados.
Bets encerram parceria após operação
Em nota, a Betano informou que “encerrou sua parceria de conteúdo com a BlackBox imediatamente após tomar conhecimento das acusações envolvendo a empresa”. A empresa disse que tinha uma relação desde 2022, de “natureza exclusivamente comercial”.
A bet frisou ainda que “até então, não havia qualquer elemento que levantasse dúvidas sobre a idoneidade da empresa parceira e que não tinha nenhuma ingerência sobre a mesma”.
A Superbet não quis se manifestar.
A ZeroUm disse em nota que a parceria “não trouxe os resultados esperados e foi descontinuada”. Disse também que depois da notícia da prisão dos responsáveis pela Blackbox acionou sua equipe de compliance para checar contrato, notas fiscais e regularidade da relação. A empresa explicou que a parceria era uma forma de atrair clientes por meio de divulgações como as feitas com sites e influenciadores.
Como mostrou o Estadão, a ZeroUm é ligada à advogada e influenciadora Deolane Bezerra, que também está presa, por causa de outra operação, por suspeitas de ligação com o PCC. A empresa pertencia a Deolane, mas ela registrou a venda por R$ 30 milhões a um amigo de sua estrita confiança após ter pedidos de funcionamento negados pelo Ministério da Fazenda. Até hoje, a ZeroUm funciona graças a uma decisão judicial, sem a autorização administrativa liberada pelo governo.
A reportagem não localizou representantes da Upbet.
Estadão Conteúdo