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Rio atrasa, estatiza e replaneja legado urbano da Olimpíada de 2016

A cidade do Rio de Janeiro recebeu investimentos públicos e privados de cerca de R$ 40 bilhões para sediar os Jogos

Foto: Ricardo Moraes / Reuters

Ítalo Nogueira
Rio de Janeiro, RJ

Uma cratera cheia de água, contratos em reavaliação, estações mal conservadas com ônibus lotados de um lado e vagões de metrô vazios de outro. Uma mistura de falta de planejamento prévio, falhas na manutenção e agravamento da crise econômica fizeram com que o legado urbano da Rio-16 ainda permaneça sem aproveitamento total pelos cariocas quase cinco anos após a cidade sediar a Olimpíada.

Escolhida para ser um exemplo de melhorias urbanas proporcionadas pelo movimento olímpico, a cidade recebeu investimentos públicos e privados de cerca de R$ 40 bilhões para sediar os Jogos. Quase dois terços (64%) do total era voltado para melhorias na cidade sem relação direta com o evento.

Principal entrega feita a tempo do evento, os corredores de ônibus -os chamados BRTs- foram temporariamente estatizados pela Prefeitura do Rio de Janeiro em abril. O município fez uma intervenção na empresa que administrava o serviço e planeja realizar um investimento de R$ 133 milhões no sistema antes de realizar nova licitação.

O sistema de BRTs custou cerca de R$ 4 bilhões de recursos dos governos federal e municipal e tinha como objetivo reduzir o tempo de deslocamento em áreas da cidade não cobertas por linhas de metrô ou trem. Cinco anos depois, está com estações degradadas (sendo 46 fechadas), frota insuficiente e passageiros sofrendo com coletivos lotados.

Ao anunciar a intervenção, o prefeito Eduardo Paes (PSD), que também estava no cargo à época dos Jogos, anunciou uma mudança completa em todo o sistema de transporte da cidade, incluindo a bilhetagem dos ônibus. “A ideia é buscar a construção de um modelo sólido e imune a prefeitos irresponsáveis e incompetentes que possam vir no futuro para que não seja mais uma vez destruído o sistema do BRT”, afirmou Paes, que atribui as falhas na manutenção dos corredores de ônibus ao seu sucessor pós-Jogos e antecessor Marcelo Crivella (Republicanos-RJ).

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Paes afirmou que essa e outras adaptações no legado são naturais. “Nunca disse que era um trabalho pronto e perfeito. É uma evolução. Tem ajustes. Há uma curva de aprendizado.” Na Gávea (zona sul), uma cratera onde seria construída uma estação de metrô tem ainda destino indefinido. Sem recursos, o governo estadual chegou a cogitar aterrar o buraco e desistir de concluir a obra, orçada em R$ 1 bilhão.

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Atualmente, ela está inundada para evitar danos estruturais nos prédios do entorno. A Secretaria Estadual de Transporte vai realizar uma licitação para estabilização do terreno a fim de permitir a conclusão da obra no futuro. A estação seria uma das oito da linha 4 do metrô, que liga a Barra da Tijuca à zona sul da cidade. Obra mais cara dos Jogos (R$ 10 bilhões), o sistema registrou uma utilização menor do que a estimada antes das obras.

Para justificar o traçado, que passa pela área mais rica da cidade e alterou os planos originais do estado, o governo estadual, na gestão Sérgio Cabral (2007-2014), afirmou que a nova linha teria uma demanda de 300 mil passageiros por dia. Outubro de 2019 foi o mês com maior média, de 177 mil usuários por dia. Com a pandemia, esse número caiu para 70 mil em abril deste ano.

Para Clarisse Linke, diretora-executiva do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP, na sigla em inglês), o BRT e a linha 4 do metrô sofrem com problemas no modelo de financiamento do transporte público que não foram alterados na Olimpíada. “O que o BRT sofre é, em grande medida, o que todo o sistema de transporte vem sofrendo com a crise econômica e a redução no número de passageiros, mesmo antes da pandemia. Isso impacta na receita e, por consequência, na operação e na capacidade de manutenção da frota. É uma estrutura cara de se manter”, afirmou ela, que defende subsídio público para custear o sistema de transporte.

Linke diz também ter sido uma falha da gestão anterior de Paes ter concentrado diferentes serviços, como gerenciamento e operação da frota, bilhetagem, e administração de terminais, num mesmo contrato. A Secretaria Municipal de Transportes prepara uma nova licitação para separar a concessão desses serviços do BRT.

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A diretora do ITDP avalia que o metrô, por sua vez, é atingido pela falta de integração de tarifa com os ônibus, tornando a passagem cara para quem usa dois meios de transportes. Acordos que dependiam de investimentos privados e aliviaram os cofres municipais na preparação para o evento também estão sendo revistos pelo município.

A revitalização da zona portuária está praticamente parada há dois anos em razão da falta de retorno do investimento de R$ 5 bilhões feito com recursos do FGTS por um fundo imobiliário gerido pela Caixa Econômica Federal. Em razão da crise econômica desde 2014, o fundo não conseguiu vender os títulos que permitem a construção de prédios altos na região –pelo qual obteria o retorno do investimento.

Assim, o fundo da Caixa ficou sem dinheiro para repassar à prefeitura, que usava esses recursos para pagar a Concessionária Porto Novo para fazer a manutenção na área. As obras e o nível do serviço a serem prestados na região portuária estão em reavaliação, e as promessas devem ser reduzidas para conseguir destravar as melhorias. O resultado foi que a área, que deveria atrair novos moradores para o centro, segue desocupada. Em razão da pandemia e do fechamento de escritórios comerciais, a praça Mauá revitalizada e todo seu entorno renovado está praticamente às moscas.

Novos anúncios recentes de empreendimentos imobiliários foram feitos, tendo em vista a expectativa de melhora na economia para o ano que vem, após a vacinação. “É um espaço pronto para crescer. Tivemos lançamentos [de empreendimentos imobiliários]. A coisa começa a renascer. O Brasil precisa crescer”, disse Paes.

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Para Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, coordenador do Observatório das Metrópoles, a concentração dos Jogos na zona oeste pressionou o investimento público numa área em que a ocupação não deveria ser estimulada, prejudicando o centro da cidade. “É evidente que foi um desastre ter sediado a Olimpíada e a Copa, tanto em função da natureza desse tipo de evento, a relação complicada com as cidades, e como isso acaba pressionando as cidades, tanto do ponto de vista financeiro quanto com as escolhas urbanas. Quase sempre não coincide com as necessidades das cidades”, explica ele.

Paes afirma, porém, que os Jogos viabilizaram a aceleração da revitalização do porto, projeto há anos na gaveta do município. “Durante a Olimpíada pela primeira vez voltou-se a falar no centro e da região do porto”, disse o prefeito.
Promessa abandonada já antes dos Jogos, a despoluição da baía de Guanabara só atingirá os níveis anunciados perto de 2030. Essa é a previsão das obras planejadas após a privatização da Cedae para alcançar uma taxa de 80% de esgoto tratado lançado no local.

As informações são da Folhapress

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