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Relatório do voo da Voepass diz que copiloto reagiu contra sistema de segurança

Segundo a investigação, quando o sistema contra estol (ou “stall”, que é a perda de sustentação) empurrou automaticamente o manche para frente para recuperar a capacidade ascensional da aeronave, o copiloto aplicou força na direção oposta, puxando o comando para trás

Redação Jornal de Brasília

24/07/2026 8h01

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© Divulgação/Cenipa

BRUNO LUCCA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

O relatório final do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) sobre o acidente com o avião da Voepass concluiu que o copiloto, que conduzia os momentos finais do voo, aplicou comandos contrários ao sistema automático de proteção, contribuindo para agravar a perda de controle da aeronave, que caiu em Vinhedo (SP) em agosto de 2024.

Segundo a investigação, quando o sistema contra estol (ou “stall”, que é a perda de sustentação) empurrou automaticamente o manche para frente para recuperar a capacidade ascensional da aeronave, o copiloto aplicou força na direção oposta, puxando o comando para trás.

O conflito entre a atuação do tripulante e o sistema automático teria acionado o mecanismo de desacoplamento dos profundores, fazendo com que as superfícies de comando passassem a operar de forma independente e agravando de forma irreversível a perda de controle.

O relatório, divulgado nesta quinta-feira (23), conclui que o acidente foi resultado de uma combinação de fatores operacionais, técnicos e organizacionais. Além da atuação da tripulação nos instantes finais do voo, o Cenipa aponta falhas na gestão da manutenção da Voepass, omissão sobre a gravidade de danos sofridos pela aeronave meses antes da queda e deficiências na fiscalização da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil).

Outro momento considerado decisivo pela investigação ocorreu poucos segundos antes da perda de controle. Quatro segundos após a aeronave emitir um alerta indicando degradação de desempenho, os pilotos desligaram o sistema de degelo das asas.

Para o Cenipa, a tripulação interpretou equivocadamente o aviso como mais uma falha recorrente do equipamento e não como um alerta de que o avião acumulava gelo em nível crítico e perdia sustentação.

Segundo o relatório, essa percepção foi influenciada pelo histórico de panes do sistema de degelo em outras operações da companhia, o que levou os pilotos a associarem o aviso sonoro a um defeito conhecido, em vez de reconhecerem que a aeronave enfrentava uma condição de formação severa de gelo.

A investigação também revelou que o ATR-72, matrícula PS-VPB, havia batido a cauda no solo durante um pouso em Salvador, em março de 2024, cerca de cinco meses antes do acidente. Embora o episódio tenha sido tratado inicialmente como um incidente de menor gravidade, o Cenipa concluiu que os danos estruturais eram significativamente mais extensos do que os informados na época.

Reparos de alta complexidade foram realizados sem que o órgão investigador fosse comunicado sobre a real dimensão das avarias.

O documento ainda elenca críticas à atuação da Anac. Segundo o Cenipa, auditorias realizadas antes do acidente já haviam identificado não conformidades sistêmicas na Voepass, incluindo falhas em procedimentos de manutenção, uso inadequado de manuais e deficiências no gerenciamento da segurança operacional.

Mesmo diante desses sinais, o gerenciamento de risco da agência não foi capaz de transformar os alertas em decisões estratégicas que reduzissem os riscos das operações da companhia, diz o relatório.

O voo 2283 da Voepass decolou de Cascavel (PR) com destino a Guarulhos (SP) em 9 de agosto de 2024.

Durante o cruzeiro, a aeronave encontrou condições severas de formação de gelo, entrou em estol e caiu sobre um condomínio em Vinhedo. As 62 pessoas a bordo –58 passageiros e quatro tripulantes –morreram.

O Cenipa ressalta que a investigação tem caráter exclusivamente preventivo e busca identificar fatores contribuintes para evitar novos acidentes, sem atribuir responsabilidades civis ou criminais.

O que diz a Voepass

Em nota, a Voepass diz que a queda do voo 2283 foi o episódio mais difícil da sua história. “Desde o momento do acidente, a empresa esteve solidária às famílias das vítimas, compartilhando uma dor que permanece presente em sua memória.”

A companhia segue afirmando que, em mais de 30 anos de operações na aviação brasileira, jamais havia enfrentado uma situação como essa e sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação.

Segundo a empresa, a tripulação do voo 2283 era experiente, capacitada e devidamente certificada, acumulando mais de 5.000 horas de voo e com treinamentos técnicos e acompanhamentos de saúde rigorosamente atualizados, sem qualquer registro prévio ou fator que impedisse sua atuação.

“Desde o início das apurações, a Voepass atua de forma transparente junto ao Cenipa e às autoridades públicas e segue à disposição de todas as instituições e agentes envolvidos para colaborar com o que for necessário”, completa.

O que diz a Anac

Em nota à imprensa, a Anac afirmou que analisará as recomendações apresentadas pelo Cenipa e entregará, em até 120 dias, uma análise técnica sobre o que foi apresentado no que compete a ela.

“As investigações conduzidas pelo Cenipa têm caráter exclusivamente preventivo e não se destinam à atribuição de culpa ou responsabilização, mas à identificação de fatores que contribuíram para o acidente e de recomendações para aprimorar o sistema de segurança operacional da aviação civil”, diz, no comunicado.

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