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Brasil

Quem são e como pensam as gerações de brasileiros em pautas que vão da agenda de costumes à economia

O levantamento mostra que esses grupos combinam visões progressistas e conservadoras a depender do tema

Redação Jornal de Brasília

21/04/2026 6h47

grupo de jovens

Foto: Freepik

A geração mais jovem do País é a mais aberta a discutir sexualidade, feminismo e direitos da população LGBT+. Ao mesmo tempo, defende em grande medida a prisão de mulheres que abortam e considera normal a “palmada pedagógica” em crianças desobedientes.

As conclusões são de um estudo da Genial/Quaest que analisou como as diferentes gerações de brasileiros se posicionam em pautas que vão da agenda de costumes à economia, temas que tendem a aparecer ao longo do debate eleitoral de 2026. Como no exemplo acima, o levantamento mostra que esses grupos combinam visões progressistas e conservadoras a depender do tema e traça diferenças entre eles de acordo com posições em assuntos permanentes na disputa política, como a aderência à polarização e o voto entre esquerda e direita.

O instituto, que tem como CEO o cientista político Felipe Nunes, deixa de lado classificações já conhecidas, como baby boomers e millennials, e usa uma nova divisão das gerações brasileiras, baseada na história recente do País e apresentada no livro Brasil no Espelho, do próprio Felipe Nunes. Nesse modelo, os brasileiros são organizados em quatro gerações: Bossa Nova (nascidos entre 1945 e 1964), Ordem e Progresso (de 1965 e 1984), Redemocratização (1985 a 1999) e Geração .com (2000 a 2009).

“Faz tempo que me incomodava a importação de uma classificação norte-americana pra se referir às gerações brasileiras. Não temos baby boomers, e o que passamos aqui é diferente do que definia a classificação deles. Era hora de entender as diferenças geracionais a partir da nossa realidade”, explica Nunes.

Geração .com é a mais progressista; Redemocratização, a mais conservadora

Como o posicionamento de cada grupo varia conforme o tema, a Quaest adotou um método estatístico que calcula o “score ideológico” de cada geração a partir de uma análise do conjunto de respostas dos entrevistados. Com isso, os brasileiros são posicionados ideologicamente com base no que pensam, e não em como se declaram.

Geração .com, dos nascidos entre os anos 2000 e 2009, é a mais progressista entre as quatro. Já a geração Redemocratização (1985 a 1999) se mostra a mais conservadora. As gerações Ordem e Progresso (1965 a 1984) e Bossa Nova (1945 a 1964) aparecem mais ao centro do que a Redemocratização, mas com inclinação ao conservadorismo.

“A geração .com não é de esquerda, como eram os jovens da década de 80; tampouco são de direita, como são os jovens de outros países. Temos uma geração de centro, preocupados em fugir da polarização, preocupados com o futuro e buscando soluções práticas para o futuro deles. São desolados com o papel do Estado, mas sabem que precisam de algum apoio para vencerem na vida”, explica Felipe Nunes.

Costumes, sexualidade e família

A Geração .com é a que mais tem visões progressistas na agenda de costumes. É o grupo que menos concorda com a proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo (37% apoiam essa ideia, ante 50% na geração da Redemocratização). Também é o mais favorável ao debate sobre sexualidade nas escolas (65%) e apresenta os menores porcentuais de concordância com afirmações de que o feminismo é exagero (44%) ou de que é ruim ver casais do mesmo sexo se beijando em público (51%). Nesse último caso, a geração Bossa Nova é a que mais se incomoda (63%).

Embora seja progressista nos costumes, a Geração .com mantém posições conservadoras em alguns temas. Apenas 21% são favoráveis à legalização do aborto, próximo à média do eleitorado geral (18%), enquanto 55% defendem que mulheres que abortam devem ser presas.

O tema do aborto une os mais jovens aos mais velhos, assim como a forma de disciplinar os filhos: a maioria do eleitorado de todas as gerações diz que é normal crianças desobedientes apanharem dos pais, a chamada “palmada pedagógica”. Entre os mais jovens, 83% concordam com essa ideia, o maior porcentual, enquanto a geração Bossa Nova registra o menor índice (76%).

Valores sociais e visão de sociedade

Há convergência entre as gerações em temas como saúde pública e valores familiares. A maioria concorda que a saúde universal de qualidade é responsabilidade do governo e também apoia a defesa de valores tradicionais e da família, especialmente a geração Ordem e Progresso.

As diferenças aparecem em pautas como cotas raciais e regulação das redes sociais. A Geração .com é a que mais apoia as cotas (64%), enquanto a geração da Redemocratização registra o menor porcentual (46%). Já a regulação das redes para combater fake news tem apoio majoritário em todas as gerações, com maior adesão entre os mais jovens.

Renda e proteção social têm apoio amplo

Há amplo apoio das diferentes gerações à manutenção do Bolsa Família, à taxação dos mais ricos e ao perdão de pequenas dívidas. A Geração .com, porém, se destaca como a mais favorável a essas medidas.

A principal divergência aparece na avaliação sobre a melhora de vida nos governos do PT. A percepção de que houve avanço é mais forte entre a geração Bossa Nova (48%) e menor entre a Redemocratização (34%).

Estrutura do Estado e modelo econômico

A saída do Brasil do Brics, que já foi defendida por nomes da política como o presidenciável Romeu Zema (Novo), tem pouco apoio em todas as gerações, especialmente entre a Geração .com. Já a privatização de empresas públicas divide os grupos e não encontra entendimento em nenhuma faixa etária.

Por outro lado, a ideia de acabar com os privilégios dos funcionários públicos reúne amplo apoio em todas as gerações, embora com porcentual ligeiramente menor entre os mais jovens.

Segurança Pública e Justiça Penal

Na área de segurança pública, que sempre figura entre as principais preocupações dos brasileiros nas pesquisas, a criação de um sistema único nacional tem respaldo de todas as gerações, com porcentuais de apoio acima de 79%. Também há maioria a favor de classificar organizações criminosas como terroristas, como propõe o presidente americano Donald Trump, com maior adesão entre a Geração .com.

Já a flexibilização do porte de armas para o cidadão comum, defendida durante o governo Jair Bolsonaro (PL), não desperta grande empolgação em nenhuma geração: os porcentuais de apoio ficam próximos de 20%. Os mais velhos, da geração Bossa Nova, são os que menos concordam com a proposta.

Como cada geração se posiciona e vota para presidente

Um dos achados do levantamento da Quaest é que os mais jovens, da Geração .com, são o grupo mais distante da polarização, com o maior porcentual de eleitores independentes (37%).

A geração com maior presença de eleitores à direita — somando bolsonaristas e não bolsonaristas — é a da Redemocratização. Já a geração Bossa Nova é a mais identificada com o lulismo (30%).

A avaliação do governo Lula, que tentará a reeleição este ano, varia entre as diferentes idades. A geração da Redemocratização é a que pior avalia o governo, enquanto a Bossa Nova é a que tem os índices mais positivos. Já a Geração .com lidera nas avaliações regulares.

A Quaest também aponta uma demanda relevante por ruptura no eleitorado mais novo: 48% da Geração .com defendem uma transformação radical no País, enquanto apenas 9% optam pelo status quo.

Na disputa presidencial, Lula lidera entre os mais jovens no primeiro turno e tem vantagem ainda maior entre os mais velhos, sobretudo na geração Bossa Nova. Já Flávio tem melhor desempenho na geração da Redemocratização, onde chega a liderar.

No segundo turno Flávio também só fica numericamente à frente entre eleitores da geração da Redemocratização.

O estudo da Quaest se baseia em duas pesquisas: uma realizada entre 6 e 9 de março deste ano e outra entre 2 e 5 de outubro de 2025. Em cada rodada, foram feitas 2.004 entrevistas com brasileiros de 16 anos ou mais. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento deste ano está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o número de identificação BR-09285/2026.

Estadão Conteúdo

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