CATARINA SCORTECCI
FOLHAPRESS
A mãe do adolescente de 16 anos apontado como autor do ataque a tiros em um bar de Campo Mourão (PR) foi denunciada pelo Ministério Público nesta terça-feira (21) sob acusação de ter se omitido em relação aos artefatos guardados pelo filho no quarto. Agora cabe à Justiça decidir se aceita a denúncia, tornando a acusada ré.
Duas pessoas morreram no bar e outras três ficaram gravemente feridas.
Segundo a promotora de Justiça Renata Melo Boaventura, a mulher, de 33 anos, teria “se omitido no cumprimento do dever legal de cuidado, proteção e vigilância inerente ao poder familiar”.
“Ela tomou conhecimento de que o filho adolescente guardava e ocultava, dentro da residência, materiais de altíssimo potencial lesivo e, mesmo ciente do perigo, anuiu com a situação e deixou de adotar medidas para impedir a atividade ilícita ou comunicar os fatos às autoridades competentes”, afirmou Boaventura.
A reportagem entrou por volta das 16h em contato por mensagem com a defesa da mulher, mas não recebeu resposta até a publicação deste texto. Em seu interrogatório à Polícia Civil, ela negou ter conhecimento da existência dos objetos apreendidos.
O ataque em Campo Mourão ocorreu na noite de sexta-feira (17). O atirador chegou a pé ao local e começou a atirar contra os clientes. Ele fugiu na sequência. O adolescente se apresentou à polícia na segunda-feira (20) e, segundo a polícia, confessou o crime.
Durante as buscas, policiais militares encontraram e apreenderam na casa onde ele morava com a mãe dois cartuchos intactos de calibre 38, um carretel com aproximadamente 500 metros de cordel detonante, material explosivo de uso industrial, um feixe com seis antenas de bloqueador de sinal de radiofrequência (“jammer”), equipamento de alta potência capaz de interromper comunicações móveis e rastreamento de veículos, além de cinco gramas de maconha e ecstasy.
A mulher foi denunciada, na modalidade omissiva, sob acusação de posse irregular de munição de uso permitido, posse ilegal de artefato explosivo e desenvolvimento clandestino de atividade de telecomunicação.
Além das penas privativas de liberdade previstas na legislação, a Promotoria pediu uma indenização mínima de R$ 40 mil por danos morais coletivos.
Logo após a apreensão dos artefatos do adolescente, a mãe chegou a ser presa, mas foi liberada horas depois.
“Verifica-se que a autuada é tecnicamente primária, não possuindo condenações criminais transitadas em julgado, possui residência fixa e é responsável por quatro filhos menores de idade, dentre os quais uma criança de apenas oito meses, ainda em fase de amamentação, circunstâncias que recomendam especial cautela na adoção da medida extrema de segregação cautelar”, escreveu a juíza Luzia Terezinha Grasso Ferreira, em sua decisão a favor da liberdade da mulher.
A magistrada determinou medidas cautelares, como a proibição de se ausentar da comarca e o recolhimento domiciliar no período noturno e nos dias de folga.
Em entrevista à imprensa, a delegada Laís Mendonça Alves afirmou que o jovem disse que agiu por vingança e que o seu único alvo era Veridiana Gaya Menim Machado Sate, a mulher de 40 anos que foi atingida por tiros e segue internada em estado grave.
“Ele diz que foi uma vingança por fatos ocorridos em 2024. Ele alega que, naquele ano, Veridiana teria coordenado uma ação de tentativa de homicídio contra ele e que resultou em lesões corporais nele e na mãe dele. E posteriormente causou a morte do irmão dele”, afirmou a delegada.
“Ele teria guardado esta mágoa desde 2024 e alegou que não teve outra oportunidade, que agiu quando viu que ela estava no estabelecimento”, continuou a investigadora. A arma utilizada seria do irmão que morreu e, segundo a delegada, tinha histórico criminal.
Alves também afirmou que ainda apura se o suposto atentado contra a família dele no passado teria relação com o tráfico de drogas.
A reportagem não conseguiu contato com familiares de Veridiana. Na terça, a Santa Casa de Misericórdia de Campo Mourão, onde ela está internada, declarou em nota que não serão divulgadas informações sobre o estado de saúde “em respeito à manifestação expressa da família da paciente e em observância ao dever de sigilo profissional e à proteção da privacidade”.
Promotoria denuncia mãe de adolescente suspeito de ataque a tiros no Paraná
Promotora afirma que mulher teria se omitido do dever legal de cuidado, proteção e vigilância em relação ao filho
Foto: Divulgação/ PM-PR