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Brasil

Professor analisa nova doença transmitida pelo mosquito da dengue

Arquivo Geral

08/12/2010 14h22

O professor Pedro Tauil, do Núcleo de Medicina Tropical da Universidade de Brasília, estuda uma nova doença vinda do Sudeste Asiático e que é transmitida pelo mesmo mosquito da dengue: a chikungunya. Ele integra equipe do Ministério da Saúde que investiga a entrada do vírus no Brasil. Exames em três pacientes confirmaram a infecção pelo vírus. Esta é a primeira vez que a presença da chikungunya é confirmada no país.

 

O primeiro caso confirmado, em 25 de agosto, foi de um surfista do Rio de Janeiro, de 41 anos, que esteve na Indonésia. O segundo caso, um homem de São Paulo, com 55 anos, que também esteve na Indonésia, foi diagnosticado em 29 de setembro. O terceiro caso, confirmado dia 3 de dezembro, é de uma mulher. Ela tem 25 anos, mora em São Paulo e viajou para a Índia. Eles entraram no Brasil infectados pelo vírus. A doença é transmitida também pelo Aedes albopictus, o mosquito transmissor da febre amarela. Leia mais aqui.

 

Em entrevista exclusiva à UnB Agência, o professor explica as característica da doença e relata que o vírus tem assustado os governos da França, Espanha e Itália. “Eles estão muito preocupados, porque têm em seus territórios o mosquito Aedes albopictus, que também transmite a doença.

 

O Aedes aegypti é comum no Brasil. O fato de haver muitos mosquitos aumenta a possibilidade de transmissão da chikungunya?


Pedro Tauil: O vírus chikungunya pertence ao grupo dos alfavírus. É transmitido por mosquitos que transmitem o vírus da dengue e da febre amarela, o Aedes aegypti e o Aedes albopictus. O que assusta é que nós já tivemos alguns casos isolados aqui no Brasil. Foram turistas que foram para lá e voltaram infectados com a doença, há um mês atrás.

 

Os sintomas do chykungunya são os mesmos do dengue?


Tauil: São parecidos, confundem, mas não são os mesmos. Tem a febre de 39 graus, dores pelo corpo e, principalmente, as artralgias, dores articulares, que são prolongadas. Pode ter caso grave? Pode, mas são bem mais raros que nos casos de dengue.

 

É difícil para os médicos diferenciarem dengue de chikungunya?


Tauil: Não é tão difícil assim. A pessoa tem quadro clínico que os médicos brasileiros estão treinados para ver se é um caso de dengue. Febre, dores de cabeça, dores musculares, dores articulares, e aparecimento eventual de manchas avermelhadas. Vê-se algum caso parecido com esses, com algum desses sintomas, pede-se exame. Vem negativo. Os laboratórios de referência já estão capacitados, outros estão se capacitando. Então, se você pensa que é dengue, deu negativo, você procura chikungunya e acha chikungunya. A coleta em geral é até o terceiro ou quarto dia, quando têm mais vírus.

 

Como ocorre a transmissão?


Tauil: A doença não se manifesta imediatamente. Leva sete dias para se manifestar. Se a pessoa infectada for picada por um outro mosquito, esse mosquito se infecta e passa para outros, de 7 a 10 dias. Isso acontece para a dengue e a chikungunya. Para a febre amarela, esse período, chamado de transmissibilidade ou de viremia, é mais curto: 72 horas só. Então eu preciso de mais mosquitos para transmitir febre amarela e menos mosquitos para transmitir dengue e chikungunya.

 

E o tratamento?


Tauil: A pessoa precisa tomar analgésicos, muitas vezes até corticóides para aliviar essas dores, então é uma doença que não é tão fatal quanto dengue, mas ela promove um curso prolongado e reduz muito as atividades das pessoas.

 

A chikungunya é mais perigosa que a dengue?


Tauil: Não é mais nem menos perigosa. É tão perigosa quanto e as reações são semelhantes, mas todo mundo tem de saber, tem de ficar alerta. O Aedes está em quase cinco mil municípios. Agora, não é no momento para se criar pânico, primeiro porque é uma doença aparentemente mais benigna que dengue. Segundo, os casos ainda estão restritos ao Sudeste Asiático e à ilhas do Pacífico. Vai chegar aqui? Provavelmente, sim. Casos importados já chegaram e provavelmente vão chegar outros, enquanto ninguém tem pretensões de acabar com o Aedes aegytpi e o Aedes albopictus. E ninguém tem porque as condições de vida urbanas favorecem a proliferação do mosquito, principalmente. O mais importante para prevenir é evitar o mosquito. Isso é o mais importante.

 

Há registro de morte por chikungunya?


Tauil: Já há registro de morte lá no Pacífico, mas são poucos casos, não sei quantos, mas poucos casos. Bom, a França, a Espanha e a Itália estão muito preocupados, porque eles têm em seus territórios o Aedes albopictus. Então, eles podem ter casos autóctones como já ocorreu na Itália, ou seja, casos adquiridos no próprio território por causa da presença do mosquito. Na Itália já houve casos autóctones de chikungunya há uns três anos atrás aproximadamente.

 

Por que é tão difícil eliminar o Aedes aegypti no Brasil?


Tauil: Temos quase 90% da população do mosquito vivendo em áreas urbanas. Nessas áreas, 15% a 20% da população das grandes e médias cidades vivem em favelas, cortiços, isto é, vivem em condições precárias de habitação e de saneamento, particularmente abastecimento regular de água de coleta regular de lixo. Ora, essas condições são fundamentais para a proliferação do mosquito, como aconteceu no Sudeste Asiático, logo após a Segunda Guerra Mundial, e, agora, depois de uns 10, 15 anos, apareceram também nas Américas.

 

Um mesmo mosquito pode abrigar os dois vírus, dengue e chikungunya ou febre amarela e chikungunya?


Eu não tenho essa informação. Provavelmente não.

 

O Brasil já está preparado para fazer o diagnóstico de chikungunya?


Tauil: O Brasil já está preparado para fazer esse diagnóstico. Tem laboratórios de referência do Ministério da Saúde que são capazes de fazer, entre eles o Instituto Evandro Chagas, em Belém do Pará. Ele já consegue fazer os exames que comprovam a presença aqui. Ele confirmou esses três casos.

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