FÁBIO PESCARINI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Pouco depois das 18h de 19 de maio de 1986, o sargento Sergio Mota da Silva, na época com 28 anos, gerenciava a decolagem de um voo da antiga companhia aérea Rio-Sul quando observou um ponto luminoso diferente dos avistados na sua rotina de controlador de voo no aeroporto de São José dos Campos (SP).
Como protocolo, questionou a torre de controle do aeroporto de Guarulhos, na grande São Paulo.
Começava ali uma série de diálogos entre controladores de voo de aeroportos e de tráfego aéreo, pilotos civis e militares e a Defesa Aérea nacional sobre o avistamento de ao menos 21 óvnis (objetos voadores não identificados) em quatro estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás e Minas Gerais.
Alguns com 100 metros de diâmetro, foram detectados por radares do Cindacta (Centro Integrado de Defesa Aérea e de Controle de Tráfego Aéreo).
Mota foi personagem principal do evento que há 40 anos foi chamado de a “Noite Oficial dos Óvnis” e é apontado sem precedentes até hoje por ufólogos, como mostrou a Folha.
A voz do controlador de voo é a mais marcante e nítida de uma série de gravações em fitas cassete sobre a cronologia daquela noite, em áudios disponibilizados no Arquivo Nacional.
“Eu vi uma luz no setor noroeste do aeródromo, alta. Conferi com as estrelas em volta e era bem mais forte”, respondeu ao ser questionado sobre o Controle de Tráfego aéreo no início da primeira gravação.Na sequência, procurou Brasília.
“Isso aqui está ficando engraçado. Vi a questão de dez minutos atrás uma luz no setor noroeste parecido com um farol de avião. Peguei o binóculo, olhei e olhei e não vi luzes de navegação. Chamei o controle de São Paulo e não tinha nada, mas o troço ficou um tempão parado na mesma posição. Não era posição usual de estrela ou planeta. Agora São Paulo me liga e pergunta se tem alguma luz a 20 milhas no setor eco e você não tem nada. Está ficando bom esse negócio”, disse.
Por muitas vezes ele se emociona com o que vê e ouve de outros controladores. “Está bonito pra caramba, é vermelho, amarelo”, afirmou ao ser informado de que estava vendo objetos voadores não identificados.
Quarenta anos depois, diz recordar de detalhes daquela noite. “Não tudo, perfeitamente, mas lembro das questões relativas ao avistamento de determinados objetos e dos caças sobre São José”, afirma.
O então sargento da aeronáutica, que hoje prefere não tornar público sua vida profissional, conversou com a reportagem na semana passada por meio de mensagens gravadas de WhatsApp.
Os caças citados por ele são parte de cinco aviões da Força Aérea Brasileira que decolaram naquela noite para tentar perseguir os óvnis que sobrevoaram a cidade do Vale do Paraíba.
O controlador de voo ainda tem fresco na memória os objetos voadores que conseguiu avistar na região de serra e os três óvnis com os quais afirma ter interagido através das luzes de balizamento da pista do aeroporto Professor Urbano Ernesto Stumpf.
“Lembro do horário que começou [pouco depois das 18h] e o que terminou [durante a madrugada seguinte]”, afirma.
Mota alternou momentos descontraídos e tensos naquela noite. Em determinado momento, um militar da Defesa Aérea pediu para ele falar nome, idade e contar um pouco sobre sua experiência na área.
Também teve de intermediar uma ligação do então coronel Ozires Silva, que voava para São José dos Campos em um avião Xingu, da Embraer, e a Aeronáutica, em Brasília.
Ozires, que voltava de uma reunião com o presidente José Sarney, pois no dia seguinte assumiria o comando da Petrobras, testemunhou e tentou perseguir objetos, após orientações de Mota.
Ele e o comandante Alcir Pereira da Silva fizeram o primeiro avistamento quando o avião deles, de prefixo PT-MBZ, já começava procedimentos para pouso, entre São Paulo e Mogi das Cruzes, e decidiram subir para perseguir, por conta própria, três objetos durante quase 30 minutos. Um deles foi definido como “uma grande estrela vermelha”.
Os diálogos envolvendo os dois e controladores de São José dos Campos, São Paulo e Brasília ocupa praticamente um dos áudios disponíveis ao público desde 2015.
O controlador Mota ouviu as gravações das oito fitas cassete disponíveis no Arquivo Nacional, quando fez a revisão do conteúdo a pedido de Rodrigo Moura Visoni, autor do livro “Noite Oficial dos OVNIs no Brasil”.
“Ele me pediu para tentar reconhecer minha própria voz naqueles áudios e entender o que era dito em alguns momentos devido à baixa qualidade do áudio”, afirma.
Mas não acessou mais os arquivos. “Não costumo ouvi-los não. Não por qualquer coisa, mas simplesmente porque a noite foi marcante demais para que esses áudios hoje em dia tenham algum outro significado que seja mais interessante que a própria noite em si”, afirma.
COMO ACESSAR OS DOCUMENTOS
Entre na página do Sian (Sistema de Informação do Arquivo Nacional)
É preciso cadastrar senha ou usar o cadastro gov.br
No campo “Fundo” digite BR DFANBSB ARX
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