Menu
Brasil

Por que o Brasil tem tantos golpes virtuais e roubos de celular?

Diante do alto número de boletins de estelionatos registrados, o uso da tecnologia também contribui para uma triagem efetiva

Redação Jornal de Brasília

22/07/2026 5h59

celular (1)

O Brasil passa por uma epidemia de golpes. Os casos superam a marca dos 2 milhões de registros por ano. Com modus operandi em que bandidos por vezes recorrem à inteligência artificial e burlam até ferramentas de biometria facial, os crimes desse tipo assustam pela sofisticação, e aumentam o medo de ter o celular roubado – o aparelho das vítimas é o principal meio utilizado pelos estelionatários.

As imagens de telefones levados por ladrões – em ações rápidas e, muitas vezes, violentas – se multiplicam. As ocorrências, mesmo em queda, seguem em patamar elevado: cerca de 900 mil casos de roubos e furtos de celular por ano, ou 100 por hora.

Propostas para enfrentar desafios como esse serão discutidas no terceiro encontro do Brasil Adiante, série de eventos promovida pelo Estadão nos meses que antecedem as eleições de outubro, para construir uma agenda integrada e executável de soluções para os primeiros 24 meses do próximo governo (leia mais abaixo).

“É um dos graves problemas da segurança pública no Brasil: uma explosão do crime cibernético. O criminoso percebe que vale muito mais a pena cometer golpes porque a chance de ser pego é pequena, e o investimento do Estado é muito baixo para isso”, afirma Rafael Alcadipani, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Conforme pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com o Instituto Datafolha, 15,8% dos brasileiros – ou cerca de 26,3 milhões de pessoas – relatam que foram “vítimas de um golpe e perder dinheiro pela internet ou celular”.

As polícias, por outro lado, têm dificuldade de se atualizar e se desprender da lógica de patrulha nas ruas. “É necessário mudar toda a competência de como se investiga os crimes, na medida em que precisa de uma outra habilidade de investigador”, acrescenta o pesquisador.

Para especialistas, é fundamental que o governo seja proativo na oferta de formações (com uso de softwares e IA de ponta) e articulação de trocas de experiências, com o objetivo de capacitar policiais na prevenção e investigação desses delitos, que têm estratégias renovadas rapidamente.

Diante do alto número de boletins de estelionatos registrados, o uso da tecnologia também contribui para uma triagem efetiva e na identificação de padrões adotados pelos bandidos.

Para facilitar a integração de dados, a União tem ainda papel importante na criação de protocolos e integração de esforços de diversos órgãos públicos, como as agências nacionais de Proteção de Dados (ANPD), de Telecomunicações (Anatel) e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), e no diálogo com entidades privadas, como a Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

Segundo Alcadipani, o próprio arcabouço legal para lidar com esse problema tem limitações. “Se a pessoa fizer um estelionato com você e usar conta em dez lugares, é preciso ter dez quebras de sigilo para saber onde chegou o dinheiro”, afirmou o professor. “Isso tem de ser mudado urgentemente.”

A falta de fronteiras dos crimes cibernéticos também dificulta o combate. Como é frequente o uso de empresas ou contas sediadas no exterior, justamente para despistar as autoridades, é necessário prever cooperações internacionais para localizar suspeitos e cumprir mandados.

Os lucros de parte dos golpes, segundo alertam investigadores, têm sido usados para diversificar ainda mais o rol de receitas das facções, como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho.

Telefones viram caixa de banco – e entram na mira

A facilidade de golpes virtuais, para especialistas, desenha uma tendência de progressiva migração dos crimes patrimoniais nas ruas – como roubos comuns e ataques a agências bancárias – para delitos online. A exceção está na subtração de celulares. A popularização do Pix e dos aplicativos bancários aumentou o apelo em relação a esses aparelhos, ao elevar os lucros dos bandidos e os prejuízos das vítimas.

“A pessoa tem a carteira dela no telefone. Isso resulta em um negócio interessante (para o crime): primeiro tem o valor do próprio aparelho e, depois, o que há dentro dele, principalmente os aplicativos de banco”, diz o especialista em segurança Jorge Lordello.

Entre as modalidades mais comuns, estão a abordagem por gangues de moto ou bicicleta, com ladrões disfarçados de entregadores. Em alguns casos, o interesse em obter o celular desbloqueado resulta em violência maior e parte dos casos termina em latrocínio.

Em São Paulo, investigações apontam até para redes de financiadores da cadeia dos roubos, a exemplo da “Mainha do Crime”, presa em 2025 suspeita de integrar a quadrilha ligada ao latrocínio de um ciclista perto do Parque do Povo, na zona oeste da cidade. Ela é acusada de fornecer armas, motos e falsas bags de motoboys aos ladrões.

Uma das estratégias para conter o avanço desses crimes é o Celular Seguro, que permite o bloqueio rápido de aparelhos roubados, modelo testado com êxito no Piauí e depois replicado em nível federal. Diante do elevado número de ocorrências, estratégias tecnológicas de larga escala são uma alternativa a análises caso a caso, como a criação de um banco nacional de celulares roubados.

Especialistas defendem ainda mais atenção à receptação dos aparelhos roubados. Um dos caminhos é rastrear e desbaratar as centrais que recebem celulares roubados. Os aparelhos são usados para golpes, transferências ilícitas e até remetidos para o exterior – parte dos países africanos, por exemplo, não usa o sistema Imei, que identifica individualmente cada telefone.

Em maio, foi sancionado o aumento de pena para o crime de receptação – artigo 180 do Código Penal – e a punição agora varia de 2 a 6 anos de reclusão, além de multa. Antes, a pena era de 1 a 4 anos.

Veja os detalhes e painéis do encontro

  • Data: 23 de julho⁣;
  • Local:⁣ Espaço JK Eventos⁣;
  • Endereço: Rua Professor Atílio Innocenti, 780 – Itaim Bibi;
  • Horário: Das 8h às 11h30;
  • Inscrições: Podem ser feitas gratuitamente por este link;
  • Onde assistir? Transmissão ao vivo nas plataformas do Estadão.

Painel 1Por que o Brasil não consegue reduzir a violência?

PainelistasJoana Monteiro, professora do FGV/Ebape e fundadora e diretora do Centro de Liderança para Redução da Violência, Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, e Rodrigo Pimentel, capitão veterano do Bope e escritor de Tropa de Elite. Mediação de Victor Vieira, editor de Metrópole do Estadão.

Painel 2O crime organizado está mais preparado que o Estado?

PainelistasCristina Pinotti, economista e sócia da Pinotti Schwartsmann Associados, Fábio Diniz, presidente do Instituto Nacional de Combate ao Cibercrime (INCC), e Lincoln Gakiya, promotor de Justiça do Estado de São Paulo. Mediação de Marcelo Godoy, repórter especial e colunista do Estadão.

Veja o cronograma do Brasil Adiante

  • 27 de maio: Encontro 1: Eixo I: Estabilidade Institucional e Fundamentos do Crescimento;
  • 11 de junho: Encontro 2: Eixo II: Capital Humano e Coesão Social (Educação e Saúde);
  • 23 de julho: Encontro 3: Eixo II: Capital Humano e Coesão Social (Segurança Pública e Crime Organizado);
  • 19 de agosto: Encontro 4: Eixo III: Produtividade, Infraestrutura e Sustentabilidade;
  • 27 de agosto: Encontro 5: Apresentação do documento consolidado, divulgação da agenda e fechamento do projeto;
  • Novembro: Entrega da agenda de soluções ao presidente eleito.

Estadão Conteúdo

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado