O produtor Luis Simão Carneiro, 63 anos, pensava em desistir de trabalhar com a pequena produção de leite em Ichu, Município de 6 mil habitantes na Bahia. O motivo era o baixo preço do leite pago pelo mercado. Ele conseguia vender por, no máximo,
R$ 0,20 o litro, valor insuficiente para cobrir as despesas da propriedade e manter sua renda. O produtor mudou de idéia quando entrou no Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA) – Modalidade Leite, do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS).
Após entrar no programa, Luis Carneiro começou a receber preço mais justo pela produção: R$ 0,65 por litro de leite. Com o aumento da renda, ele conseguiu, inclusive, comprar uma vaca com melhor padrão genético para a produção leiteira. Esses dois impactos positivos (aumento da renda e melhoria na produção) se repetem na vida de outros beneficiários, conforme demonstraram os resultados da atual Pesquisa de Avaliação do PAA Leite, encomendada pelas secretarias de Avaliação e Gestão da Informação (SAGI) e de Segurança Alimentar e Nutricional (SESAN), do Ministério do Desenvolvimento Social, realizada pela Datamétrica Consultoria.
O levantamento foi realizado em 2009, com 2 mil produtores de leite, nos nove Estados do Nordeste e no Norte de Minas Gerais, regiões atendidas pelo programa. Foram avaliadas as condições socioeconômicas dos beneficiários, o uso de tecnologias e cuidados sanitários na hora da ordenha, dentre outros aspectos.
Em comparação com a última pesquisa, realizada em 2005, esse novo levantamento mostrou que o PAA Leite tem mudado a realidade das famílias daquelas regiões, melhorando as condições de segurança alimentar e nutricional, emprego, renda e, consequentemente, ampliando as possibilidades de investimentos na produção leiteira e no consumo de bens duráveis.
O secretário nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do MDS, Crispim Moreira, destaca que a pesquisa confirmou a grande mudança que o PAA Leite promove na vida de mais de 700 mil famílias e de quase 30 mil pequenos agricultores familiares do Semiárido e Norte de Minas Geais. “São cinco anos de investimentos, construindo o programa em parceria com os Estados e a participação dos comitês gestores locais. O resultado é trabalho e renda para a agricultura familiar e melhoria da situação de segurança alimentar, com melhores condições nutricionais para as mães e crianças atendidas em 1.158 Municípios” destaca Moreira.
Resultados
No aspecto “Disponibilidade de veículos, eletrodomésticos e outros bens de consumo duráveis”, constatou-se que 23% dos produtores têm carro de passeio, enquanto apenas 18% declaravam ter, na pesquisa anterior. Também teve aumento o uso de moto, que passou de 43% para 50%. Destaca-se ainda que os produtores estão usando mais computadores – enquanto em 2005 eram 5%, em 2009 o percentual já chega a 9%.
Observou-se também uma ampliação dos investimentos em máquinas e instalações agropecuárias. A construção de galpão ou área coberta para abrigo dos animais aumentou de 48% para 54% nas propriedades. A pesquisa constatou ainda que os produtores estão mais preocupados com a vacinação dos animais. O índice de imunização contra outras doenças (exceto aftosa e raiva, que chegam já 100%) passou de 22% para 60%. O mesmo ocorre para o uso de vermífugos e carrapaticidas que aumentou de 83% para 90%.
Com isso, ocorreu melhoria na produtividade por vaca lactante, passando de 6,1 litros/dia para 7,1 litros/dia. Dentre outros aspectos, o aumento se deve ao uso de novas tecnologias para melhorar produtividade das vacas. A confirmação toma como base o questionamento, feito aos produtores, sobre o cruzamento de vacas com reprodutores de raça pura. Constatou-se que 24% dos produtores utilizam essa técnica atualmente, enquanto em 2005 apenas 14% o faziam. O mesmo ocorre com a inseminação artificial – cresceu de 3% para 7% o percentual de produtores que adotam essa técnica.
A pesquisa constatou ainda que a assistência técnica aos produtores passou de 38% para 49%. Outro dado importante é que o PAA Leite tem incentivado a participação em cursos e palestras (aumento de 31% para 36%) e em associações de produtores (36% para 43%). Em relação à avaliação geral, o programa recebeu nota
Programa
O PAA Leite, também conhecido como Leite Fome Zero, é uma das modalidades do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). O Programa atende os Estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe e Norte de Minas Gerais. Ele é direcionado aos agricultores familiares e também aos segmentos populacionais vulneráveis, que têm direito a receber o leite gratuitamente.
O Programa compra, prioritariamente, até 30 litros de leite por dia de pequenos produtores familiares a um valor determinado com base no preço de mercado e índices adotados pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Por semestre, o produtor pode receber até R$ 4 mil. O leite adquirido é beneficiado em laticínios contratados e entregue às famílias em situação de insegurança alimentar nos Municípios do Semiárido.
Criado em 2004, o programa atende hoje a cerca de 700 mil famílias que recebem diariamente um litro de leite de vaca ou cabra. Toda a produção necessária para atender essas famílias é fornecida por 29 mil agricultores familiares. O orçamento do PAA Leite por ano é de R$ 183 milhões.