ANDRÉ FLEURY MORAES
FOLHAPRESS
A decisão que autorizou a operação da Polícia Federal deflagrada nesta quarta-feira (15) decretou a prisão dos proprietários de duas produtoras de funk e de um terceiro, que possui uma gravadora. Eles já apareciam em apurações anteriores por suspeita de ligação com o PCC (Primeiro Comando da Capital). A operação combate o que a corporação chama de complexo esquema de lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Os principais alvos da ação desta quarta foram os músicos MC Ryan e o MC Poze do Rodo, apontados como peças centrais do esquema que, segundo a PF, se especializou em lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Ao todo, diz a corporação, mais de R$ 1,63 bilhão foram movimentados.
O advogado de Poze diz que ainda não tomou conhecimento do mandado de prisão. Já a defesa de MC Ryan afirma que o músico é uma pessoa íntegra e que ainda não teve acesso aos autos da operação.
Ambos integravam o suposto esquema do qual também participavam empresários do mundo do funk, afirma a PF. Entre eles está Henrique Alexandre Barros Viana, o Rato, fundador da produtora Love Funk.
Ele já foi citado em investigações anteriores que apuravam um esquema de lavagem de dinheiro para o PCC num inquérito que apurou movimentações financeiras da Love Funk. O caso levou seis pessoas a serem denunciadas no ano passado.
Segundo as investigações, eles constituíram organização criminosa destinada à prática de delitos contra a ordem tributária, exploração de jogos de azar e lavagem de dinheiro, entre 25 de junho de 2019 e 12 de março de 2024. O caso tramita sob sigilo.
Desta vez, segundo a corporação, Viana teria participação na movimentação de recursos do grupo suspeito de lavagem de dinheiro sem origem comprovada.
A defesa dele declarou em nota que recebeu a operação com surpresa e que o empresário é nacionalmente respeitado na indústria musical. “A defesa reafirma a inocência do representado, que não praticou crime algum. Sempre esteve à disposição e informa que se manifestará nos autos tão logo tenha acesso integral à investigação, adotando as medidas cabíveis”, disse o escritório Aury Lopes Jr., que defende o produtor.
Viana já prestou depoimento também à Câmara de São Paulo no âmbito da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) dos Pancadões, que apura, entre outras frentes, o suposto financiamento de festas clandestinas pelo crime organizado.
Ele negou na ocasião que artistas contratados pela Love Funk tivessem relação com criminosos. “É sempre importante lembrar, que independente de a gente gostar ou não de funk, os jovens cantam o que vivem e dependem disso para ganhar dinheiro e ajudar suas famílias”, afirmou na ocasião. O próprio MC Ryan também depôs na comissão.
Outro alvo ligado ao setor de produção do funk é o empresário Rodrigo Inácio de Lima Oliveira, proprietário da GR6 Explode.
Segundo a Polícia Federal, a produtora de Oliveira realizou uma série de transferências financeiras a MC Ryan, apontado como líder do esquema.
A GR6, que nas redes sociais se autointitula a número 1 do funk no Brasil, já foi citada em operações anteriores em razão de um suposto elo com o financiamento do PCC no contexto de um suposto esquema envolvendo o Perse (Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos), um dos principais programas de renúncia fiscal criados nos últimos anos.
A empresa negou participação no caso e disse na época que “sempre pautou sua atuação pela lisura e correção”.
Em nota, os advogados José Luis Oliveira Lima e Bruno Dallari Oliveira Lima disseram os valores e transações financeiras mencionados “referem-se a relações comerciais lícitas e regulares, inerentes à atividade empresarial da companhia, todas devidamente formalizadas e respaldadas por contratos e documentação fiscal”.
“A GR6 e seu sócio reiteram que não houve a prática de qualquer ato ilícito e seguem à disposição das autoridades competentes, colaborando integralmente com a investigação e prestando os esclarecimentos necessários”, acrescentaram.
A produtora representa mais de 300 artistas, entre os quais os MCs IG, Oruam, Ryan e Kadu, que reúnem juntos mais de 20 milhões de seguidores nas redes sociais.
Há ainda um terceiro, Ellyton Rodrigues Feitosa, sócio de uma gravadora e cuja prisão também foi decretada. Ele teria movimentado recursos indevidos a partir de rifas digitais e casas de apostas.
A Folha não localizou a defesa dele até a publicação deste texto.
A Operação Narco Fluxo é um desdobramento da Operação Narco Bet e cumpre 39 mandados de prisão temporária e 45 mandados de busca e apreensão expedidos pela 5ª Vara Federal em Santos, em endereços nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Paraná, Goiás e no Distrito Federal.
Segundo a PF, profissionais do meio musical com milhares de seguidores nas redes sociais criaram um sistema sofisticado e complexo para movimentar recursos ilícitos.
Eles mesclavam as atividades artísticas de parte dos investigados com transferências de criptoativos, transporte de dinheiro em espécie, e operações bancárias de alto valor. Os envolvidos podem responder pelos crimes de associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.