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Brasil

“Nosso dogma é a liberdade”, diz pré-candidato do PSB ao governo de Minas

Jarbas Soares foi procurador-geral estadual em duas ocasiões e teve atuação nos acordos fechados após as tragédias de Mariana e Brumadinho; filiação ao PSB veio com as bênçãos do ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco

Olavo David

13/07/2026 9h53

Pré-candidato do PSB ao governo de Minas Gerais. Assessoria/Divulgação

Pré-candidato do PSB ao governo de Minas Gerais. Assessoria/Divulgação

O ex-procurador e agora pré-candidato ao governo de Minas Gerais pelo PSB é um típico mineiro. Fala manso, mesmo quando critica a gestão de Romeu Zema à frente do estado pelos últimos oito anos. “Deixou a ideologia falar mais alto”, aponta, ao criticar o acordo de renegociação de dívidas ao qual aderiu a máquina mineira, via Programa de Pleno Pagamento das Dívidas dos Estados (Propag). Jarbas Soares Jr. rejeita o rótulo de “político profissional” e diz que sua experiência à frente do Ministério Público de Minas Gerais o credencia à corrida eleitoral que se inicia ainda um tanto nebulosa, mas também não se alinha automaticamente à gestão nacional, do presidente Lula (PT), que há alguns anos busca um palanque forte nas terras das Gerais – uma unidade federada que costuma decidir o pleito presidencial. O recente anúncio da pré-candidatura, tendo como padrinho o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco, traz o ex-funcionário público, talhado pela atuação em tragédias como o rompimento das barragens de Mariana e Brumadinho, agora se aventura na seara eleitoral.

O ex-governador Romeu Zema passou oito anos em batalha aberta com o Supremo Tribunal Federal, e, nos últimos quatro, também com o Palácio do Planalto. Qual seria sua relação com a Corte, caso eleito? 

Bom, no Planalto, independente de quem ganhar, é o povo brasileiro que vai estar representado. A maioria que elegeu. Então, o ex-governador, independentemente de cores partidárias, ideologia, amizade, o que for, tem uma relação, visão dos interesses de Minas Gerais. O que houve nos últimos quatro anos é que o governador colocou o interesse eleitoral dele e a ideologia dele à frente dos interesses de Minas. E o que viria para Minas foi para os outros estados. [A dívida pública estadual] é um dos pontos. Mas não é nem o principal. 

Qual seria? 

O que seria destinado a Minas Gerais? Pode pegar os outros estados da federação, pode dar o incentivo para o Ceará e outros que foram lá, deve buscar as parcerias com a União e conseguiram. E o governador não fez essa resolução com o governo federal, nem ele, nem o governo. Deixou atrás as rodovias federais daqui. Poderiam estar hoje duplicadas, melhoradas. Enfim, problemas para desafiar os rios federais no estado, que causam enchentes todo ano. Então, é muita coisa que está aqui. 

A relação de Minas Gerais com a Vale mudou ao longo dessa década. Como planeja lidar com a mineradora, caso eleito?

No mês de fevereiro de 2021, eu consegui fechar o acordo, que não foi fechado a dois anos após a tragédia. E o acordo de Mariana começou quando eu fui ao [então] presidente do Supremo, Luiz Fux, para discutir como a gente resolveria o problema e ele chamou para articular com o CNJ. Começou e demorou um tempo grande, quase três anos. Mas nós conseguimos concluir esse que é o maior acordo da história, um dos três maiores da humanidade. Então, o acordo está sempre em curso para a sua execução, mas ainda com muitas dificuldades para o governo fazer as entregas, tanto o federal quanto o estadual, para fazer as entregas. E a população está precisando tanto. Minha vida inteira eu conheço Minas, e eu conheço a Vale. Hoje a relação é muito melhor. E eu acho que a Vale já conscientizou não pelo amor, mas pela dor. A prevenção é muito mais importante. 

Minas também é palco de tragédias resultantes das fortes chuvas que afetam o estado. Neste momento, o mundo se atenta para a construção de novas estruturas para os próximos anos. Como fomentar esse debate no âmbito estadual?

O desafio das defesas civis é correr atrás, toda vez que tem uma tragédia, tem um projeto robusto de prevenção, de combater as causas desses desastres. Eu e o Ministério Público conseguimos enfrentar a questão das barragens de rejeito. Então, elas estão sendo caracterizadas agora. E também, sobretudo, as tragédias naturais, que não são tão naturais assim. Nós precisamos combater. Por exemplo, o problema do governo federal que vem a cuidar das bacias e o desassoreamento dos rios federais e também a limpeza, o saneamento básico desses rios federais. Isso é uma pauta importantíssima para Minas Gerais, que é a caixa d’água do país e que foi deixada de lado por falta de interlocução. No governo do presidente Bolsonaro, o governo Zema não ia lá e indicava qualquer coisa necessária para os interesses de Minas. E, no governo do presidente Lula, ele colocou a barreira ideológica e eleitoral, vamos assim dizer, e Minas que perdeu. Nosso estado hoje é um estado atrasado. 

O senador Rodrigo Pacheco foi visto pelo atual governo como um potencial aliado de peso em Minas Gerais. Você será neste ano o palanque que Lula precisa no estado?

Nós temos que lidar com o presidente Lula e com o vice-presidente [Geraldo Alckmin], que é o grande líder do nosso partido. Nós temos que construir uma aliança, um programa para Minas Gerais, restaurar essas relações institucionais e administrativas, apresentar para o presidente Lula, inclusive, a questão da renegociação da dívida, porque o Propag foi bom, mas está muito aquém das necessidades, porque ainda a União cobra juros de Minas Gerais. O programa de desassoreamento dos rios federais, o tratamento do esgoto, até a questão do patrimônio tombado pela União aqui no nosso estado. Nós temos que ter um conjunto de ações para resgatar a importância de Minas Gerais para o país. E isso se faz em torno de uma aliança. É isso que nós queremos, se por acaso o presidente da República e o vice-presidente queiram ter uma candidatura no estado competitiva. A mineira e o mineiro só vão entender esta aliança se for em cima de algo que venha recuperar o que nós perdemos. 

Minas tem uma importância histórica e simbólica na luta pela liberdade no país. Como isso influencia na sua decisão de se candidatar?

Eu só vou me coligar, me aliar nesse caminho com pessoas do campo democrático.

Tem a liberdade, que é o grande sentimento de Minas, como um dogma que nós não podemos abrir mão, nós não podemos flertar com ditadores, não podemos flertar com quem prega a não observância do Estado Democrático de Direito e o regime de liberdade, de pensar, expressar, agir, reunir. Nós criamos no Brasil que as pessoas não tenham medo de se reunir em torno de uma causa. E é o que nós estamos vivendo hoje, infelizmente também, que as pessoas estão com medo de serem presas. Então, nosso primeiro compromisso de Minas é também a liberdade. Então, o compromisso maior de Minas Gerais é o nosso compromisso.

Depois de tantos desafios no MP, agora você parte para um desafio ainda maior. Como está sua cabeça e como sua família reagiu?

Olha, eu larguei o Ministério Público, fui filiar ao partido, durante dez anos eu recebi chamados de partidos para me filiar, cheguei para a política nas mãos do presidente [estadual] do partido, Otacílio Costa, e do senador Rodrigo Pacheco, e tem duas coisas que estou vivendo: um desses desafios, que é o que me move, é a advocacia, que estou gostando muito, e o outro é essa possibilidade de disputar o governo e, eventualmente, ser o governador do estado. Eu acho que eu tenho que continuar com a minha profissão de advogado. Política não pode ser profissão, porque, quando você torna política profissão, é o primeiro passo para você se envolver em coisas que não deveria. Na minha família sempre me apoiaram, minha mãe e meus irmãos, e aqui na minha casa mesmo. Da minha mulher não há muita animação, mas os filhos estão conscientes, eles já estão acostumados com isso. Fiquei no Ministério Público 36 anos e sempre dividindo a família com a instituição. 

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