O Nordeste brasileiro está diante de condições inéditas para alcançar a médio e longo prazo redução significativa das desigualdades sociais enfrentadas pela região com a falta histórica de alternativas de promoção. A avaliação foi feita pelo ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, nurse Roberto Mangabeira Unger, sales em visita a estados nordestinos para discutir um novo plano de desenvolvimento regional, a ser implementado em parceria com os governos estaduais.
Os fatores positivos apontados por Unger são a existência de experiências bem-sucedidas passíveis de serem reproduzidas, a renovação recente de forças políticas em muitos estados e a disponibilidade de recursos para grandes obras de infra-estrutura, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
“Há uma concatenação de circunstâncias, difícil de imaginar que vá se repetir num futuro próximo. Uma grande variedade de ações empreendedoras e culturais, uma renovação da cultura política com consenso dos governadores e obras infra-estruturais. Se intervir agora um projeto forte, o Nordeste pode dar uma grande salto”, afirmou Unger em entrevista à
Agência Brasil.
Nas exposições feitas a autoridades e lideranças da sociedade civil em Juazeiro e Salvador (BA), Unger defendeu que a definição prévia de um projeto de visão estratégica da região é necessária para que os subsídios e incentivos demandados não sejam desvirtuados por pressões políticas.
Um aspecto central do planejamento vislumbrado pelo ministro seria mudar o paradigma econômico da região, de forma que ela não cresça com base na atração de investimentos simplesmente por vantagens comparativas de custos. Para exemplificar melhor sua tese, Unger recorre a uma analogia com a China.
“O Nordeste pode ser a nossa China, no bom e no mau sentido. Será a nossa China no mau sentido se for apenas um manancial de trabalho barato. Mas será a China no bom sentido se for uma fábrica de engenho e inovação”, argumentou. “O Nordeste não deve tentar ser [o estado de] São Paulo tardio e encolhido. É um terreno para se fazer diferente”.
O objetivo da viagem de Unger é conhecer projetos exitosos na região – como a produção de frutas para exportação no Vale do São Francisco – e colher sugestões práticas dentro de cinco vertentes preconcebidas por ele. São elas: expansão da agricultura irrigada e de sequeiro; política industrial voltada à formação de redes de pequenas e médias empresas; associação do ensino médio a uma formação técnica flexível; evolução de programas de transferência de renda, com ações direcionadas para quem pode vencer a linha da pobreza por meio do trabalho; projetos industriais que contemplem vocações produtivas locais e condições de transformação social no entorno.
O governador da Bahia, Jaques Wagner, considerou positivas “as provocações”de Unger para que o Nordeste substitua estratégias de desenvolvimento que se mostraram ineficazes para a promoção de oportunidades e de justiça social. Ele também apontou um quadro político regional mais propício à discussão.
“Creio que a iniciativa do ministro encontrará ecos fortes. Temos uma nova geração de governadores, da qual eu sou o vovô, que chega com maturidade política, administrativa e democrática. A própria refundação da Sudene [a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste]também deverá abrigar as propostas do ministro. Temos grandes parcerias para agregar”, ressaltou Wagner.
Outro anfitrião de Unger, o prefeito de Juazeiro, Isaac Carvalho, disse esperar que o Nordeste passe a receber mais atenção nas políticas federais, especialmente no estímulo à agricultura regional . “Hoje, o problema não é só crédito insuficiente, mas ter uma política adequada para atender a demanda. Tem que ter plano permanente e não trabalhar em questões emergenciais”, afirmou Carvalho.
Representantes da Casa Civil, dos Ministérios da Agricultura, do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, da Integração Nacional e Educação, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) acompanham Unger no Nordeste. A comitiva passará ainda por Alagoas, Rio Grande do Norte e Pernambuco.
Será formado um grupo executivo que ficará responsável por definir uma relação de ações concretas possíveis de serem implementadas por meio da colaboração entre o governo federal e os estados, dentro do novo projeto de desenvolvimento regional.