Adrielly Souza
Folhapress
Se existem certos padrões de moda para casamentos, academias de ginástica e trabalho, por que não haveria para visitar alguém em uma penitenciária? A pergunta pode parecer inusitada, mas já existe um mercado dedicado a isso —e ele vem ganhando espaço nas redes sociais.
Nos últimos anos, a chamada “moda penitenciária” passou a ocupar um nicho próprio no comércio e na internet. São roupas pensadas para mulheres que frequentam unidades prisionais e precisam seguir uma série de restrições de cores, tecidos, modelos e acessórios. O que começou como uma necessidade prática acabou ganhando também uma dimensão estética.
Nesse universo, outro termo aparece com frequência: “cunhada”. A palavra é usada por mulheres que têm companheiros ou familiares presos e fazem parte da rotina de visitas ao sistema prisional.
Muitas delas passaram a compartilhar nas redes sociais o preparo para esses encontros, desde a organização do chamado “Jumbo” —conjunto de alimentos, produtos e itens autorizados para o detento— até a escolha da roupa usada no dia.
A rotina, que antes ficava restrita aos portões das unidades, virou conteúdo. E, para algumas dessas mulheres, também se transformou em trabalho.
É o caso de Vanessa Nogueira da Silva, 42, que percebeu a dificuldade de encontrar peças adequadas enquanto trabalhava como motorista de aplicativo e levava visitantes para penitenciárias. A experiência fez com que ela identificasse uma oportunidade de negócio.
“Eu percebi a necessidade pelo fato de as roupas serem específicas e mudarem muito de unidade para unidade”, conta. Segundo ela, mesmo dentro do sistema prisional paulista, existem diferenças nas regras aplicadas em cada unidade. “Sempre tem uma coisinha ou outra que não pode. Um bolso, alguma coisa que não é aceita”, exemplifica.
A solução foi criar uma loja especializada. Vanessa começou comprando poucas peças e vendendo de maneira informal. O negócio cresceu, e ela deixou o volante para se dedicar exclusivamente às roupas.
“Eu trabalhava de Uber, levava as meninas na penitenciária alguns dias. Aí eu comecei a ver que essas meninas vinham para cá e precisavam das roupas. Comecei a trazer uma coisinha, uma roupa, uma camiseta. Aí a coisa foi tomando proporção”, conta.
Hoje, a loja atende entre 250 e 300 visitantes por mês, segundo Vanessa, e comercializa cerca de 500 a 600 peças mensais, com envio para diferentes regiões do país. O que nasceu da observação de uma necessidade específica se tornou sua principal fonte de renda.
UMA ROUPA QUE PRECISA PASSAR PELO PORTÃO
A moda penitenciária tem uma particularidade que a diferencia de outros nichos: a roupa, além de ter apelo visual (ou seja, ser bonita), ela precisa de permissão para ser usada.
As regras variam conforme a unidade e podem determinar cores, modelos e detalhes que não são aceitos na entrada. Vanessa diz que uma das dúvidas mais frequentes entre as visitantes está justamente em saber se determinada peça poderá ou não ser utilizada.
“Não entra calça legging preta no estado de São Paulo. É uma regra bem clara, por isso o colorido”, explica. Também há restrições relacionadas ao comprimento das camisetas. “A maior parte das cadeias exige que as camisas sejam para baixo do bumbum”, conta. E dá a dica: “Faz o básico que funciona.”
Por isso, peças que poderiam parecer comuns em qualquer guarda-roupa passaram a ganhar versões específicas para esse público. Legging (colorido) e camiseta são os principais produtos.
No inverno, os moletons também ganham espaço, mas a dupla continua sendo o carro-chefe. A preocupação com as restrições não impede que as visitantes procurem vestir-se de maneira estilosa. Pelo contrário. A combinação de cores passou a fazer parte da identidade desse mercado.
“As cores fortes, combinando saem muito porque elas querem todas bonitas. As mãezinhas querem estar lindas, para o filho ver que elas estão fortes aqui fora”, afirma Vanessa. É daí que surgem os chamados “kits”, conjuntos de peças comprados especialmente para o dia da visita.
“Elas costumam comprar as roupas combinando porque elas costumam falar o ‘kit’. Elas querem estar em cima da risca”, conta. A lógica, segundo ela, vai além da vaidade. A roupa também pode funcionar como uma espécie de mensagem para quem está do outro lado do portão.
“É uma forma de dar um auxílio, dar uma força pra pessoa que tá lá dentro”, diz.
Outra empreendedora que encontrou nesse mercado uma possibilidade de independência financeira é Vitória Valter, 28, proprietária de uma loja voltada à chamada moda para “cunhadas”. Antes de entrar nesse segmento, ela trabalhava com a venda de cosméticos.
A ideia surgiu quando passou a frequentar as unidades para visitar o marido e percebeu que as roupas disponíveis não correspondiam ao que gostaria de usar.
“Eu comecei a visitar ele e também a ver que as roupas das mulheres não combinavam comigo. Eu não vou visitar assim”, conta. A loja, segundo Vitória, chega a faturar cerca de R$ 20 mil por mês. O negócio também passou a funcionar como uma espécie de consultoria informal para visitantes.
“As pessoas perguntam para mim: ‘Você sabe qual roupa entra em tal presídio?’. Aí eu falo: ‘Ah, entra esse, esse e esse’. Aí eu envio para elas conforme a unidade que elas visitam”, explica.
O comércio também atende mulheres que encontram dificuldade para achar tamanhos maiores. “Não é fácil achar uma camisa G6, uma calça G6. E ela tem que entrar para visitar o familiar dela. Hoje eu vendo plus size também na loja.”
A VISITA VIROU CONTEÚDO
Se as lojas resolveram uma dificuldade física, as redes sociais passaram a ocupar outro espaço: o de explicar como funciona toda a rotina.
Gabriela Gonçalves, 30, começou a produzir conteúdo há cerca de um ano e quatro meses, depois que o marido foi preso, no início de 2025. A própria dificuldade de encontrar informações fez com que ela criasse a página Cunhadas RC.
“Eu me vi entrando em um mundo completamente novo, cheio de regras e informações que eu não conhecia”, afirma.
Morando no interior de São Paulo, Gabriela tinha dificuldade para encontrar lojas com roupas adequadas e, principalmente, informações sobre as visitas. A partir daí, passou a registrar a própria experiência.
“Meu propósito sempre foi levar informação e facilitar a vida de outras famílias que, assim como eu, estavam vivendo aquele momento de dor, saudade e muitas dúvidas.”
O conteúdo começou com itens ligados à rotina das visitas, como kits femininos e masculinos, lingerie, acessórios, bolsas e carrinhos usados para transportar o “jumbo”, quando autorizados.
Com o tempo, Gabriela percebeu que as dúvidas se repetiam entre as seguidoras. A página também passou a falar sobre autoestima. Para Gabriela, mostrar roupas coloridas e combinações não significa ignorar a situação vivida pelas famílias, mas reconhecer que as mulheres continuam querendo se sentir bem.
“Não é porque estamos vivendo um momento difícil que deixamos de ser mulheres e de querer nos sentir bonitas.”
QUANDO A ROTINA VIRA FONTE DE RENDA
A popularização da chamada “Moda Penitenciária” nas redes sociais pode ter ajudado a ampliar a procura por esse tipo de produto. Ao mostrar a rotina de visitas, os preparativos e as peças usadas nesses momentos, criadoras de conteúdo passaram a colocar o tema em evidência.
Esse movimento pode ter contribuído para o aumento das buscas pelo termo no Google, que apresentou picos mais frequentes e atingiu seu maior nível de interesse em 2026. Influenciadoras que vivenciam a rotina das visitas recebem produtos e apresentam as peças aos seguidores.
Para Gabriela, a identificação vem justamente da possibilidade de mostrar uma realidade pouco conhecida.
“Quem nunca passou por isso não imagina a quantidade de regras, detalhes e sentimentos envolvidos em um dia de visita. Eu procuro mostrar tudo de uma maneira simples, sem romantizar a situação, mas também sem julgamentos.”
Ela também chama atenção para os cuidados necessários ao produzir esse tipo de conteúdo. Informações sobre unidades, visitantes e presos não podem ser expostas indiscriminadamente.
“Meu objetivo é informar e ajudar, e não expor ninguém”, afirma.