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Brasil

Ministério da Saúde assina novo contrato de R$ 34 mi com empresa ligada a alvos da Carbono Oculto

Star Pharma recebeu R$ 34,4 milhões para fornecer insulina ao SUS apesar de menções em apuração sobre lavagem de dinheiro e crime organizado

Redação Jornal de Brasília

13/05/2026 13h03

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasi

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasi

MATEUS VARGAS, THAÍSA OLIVEIRA E JOSÉ MARQUES
FOLHAPRESS

O Ministério da Saúde assinou novo contrato para fornecimento de insulina ao SUS (Sistema Único de Saúde) com a Star Pharma, no valor de R$ 34,4 milhões.

A distribuidora de medicamentos foi mencionada na representação do Ministério Público de São Paulo que baseou a Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, como ligada “direta ou indiretamente” a Mohamad Hussein Mourad. Conhecido como Primo, ele é um dos principais alvos da apuração sobre a inserção do PCC (Primeiro Comando da Capital) na economia formal, está foragido e negociou delação.

O Ministério da Saúde afirmou que, segundo a Corregedoria da pasta, não há decisão administrativa ou judicial que justifique alterar o procedimento de compras com a Star Pharma.

A Star Pharma disse que atua de forma regular e que segue a legislação sanitária e de compras públicas. A empresa afirmou que não integra, financia ou tem vínculo societário com investigados e disse repudiar “qualquer tentativa de associar sua atuação” a organizações criminosas.

Única sócia da Star Pharma até novembro de 2025, Andrea Cristina Alves Borges recebeu procurações para representar ao menos cinco empresas de diferentes ramos -formuladora e distribuidora de combustível, uma investidora e lojas de conveniência- que pertenciam a parentes ou a supostos laranjas do Primo.

Andrea também assumiu a sociedade de um motel e de uma administradora que foram transferidas a ela por uma irmã de Mourad. Relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) citam a Star Pharma como beneficiária de recursos do fundo Mabruk II e do BK Bank, também investigados na Carbono Oculto.

A Star Pharma soma mais de R$ 220 milhões em contratos firmados com o Ministério da Saúde desde 2024, principalmente para entrega de insulinas, além de preservativos. O acordo mais recente foi assinado no dia 8 de maio e publicado nesta terça-feira (12) no Diário Oficial da União.

A Operação Carbono Oculto mira a infiltração do crime organizado no setor de combustíveis e no mercado financeiro. Primo é apontado como epicentro do esquema que se vale de “centenas de empresas constituídas sob a titularidade de terceiros” para ocultar e lavar dinheiro, ainda segundo a representação.

Até o momento, as ações policiais não tiveram como foco empresas com contratos do SUS.
Desde a saída de Andrea, em novembro de 2025, a Star Pharma tem como única sócia a farmacêutica Emanuela Medrades, que já atuava na empresa.

Medrades também depôs à CPI da Covid, em 2021, no caso envolvendo a venda da vacina indiana Covaxin ao governo de Jair Bolsonaro (PL) pela empresa Precisa Medicamentos, da qual era diretora.
O contrato mais recente da Star Pharma está ligado a um pregão vencido em 2024 pela empresa. Na disputa, Emanuela Medrades atuou pela empresa e por uma concorrente, a Medicpharma, que tinha como sócio à época um advogado dela.

A Medicpharma registrou o melhor preço, mas foi desclassificada por não apresentar documentos exigidos no pregão. A Star Pharma, então, venceu a disputa.

A atuação de Medrades pelas duas concorrentes foi verificada por meio do cruzamento de mensagens registradas pelas empresas no sistema eletrônico do pregão com conversas obtidas pela Folha de S.Paulo em uma ação judicial trabalhista envolvendo a Star Pharma.

No ano passado, a Star Pharma e a Medicpharma negaram irregularidades e disseram à reportagem que não houve conluio na licitação.

A Star Pharma ainda aparece em uma operação frustrada de entrega de R$ 87 milhões em imunoglobulina ao SUS, em 2023, que seria financiada pela Insight, empresa também investigada na Carbono Oculto, e fornecida por outra distribuidora, a Farma Medical. Roberto Leme, conhecido como Beto Louco, participou das negociações pela carga, como mostrou a reportagem.

Procurada por Whatsapp desde as 14h30 da terça (12), a defesa de Beto Louco não se manifestou. A defesa de Primo não foi localizada.

INSULINA SEM REGISTRO

A Star Pharma fornece ao SUS modelos de insulina que não têm registro da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e são comprados de laboratórios da China, Egito e México.

As insulinas sem registro dominam o tratamento oferecido pelo SUS. Os produtos são mais baratos, mas não passam pela análise de segurança, qualidade e eficácia da Anvisa. A principal fornecedora é a distribuidora GlobalX, que entrega produto fabricado na China. O ministério também assinou novo contrato com a empresa nesta terça, de R$ 129,2 milhões.

O Ministério da Saúde afirma que recorreu a compras sem registro por causa da falta de oferta do medicamento das empresas credenciadas no Brasil. Ainda diz que segue a legislação da Anvisa, que exige avaliação do produto por outra agência estrangeira, e que os contratos têm preço 30% menores.

“Paralelamente [às compras sem registro], três novos editais estão em andamento para compra de produtos registrados a partir da manifestação das empresas de regularização da produção nacional. O primeiro, já publicado, prevê a compra de 12 milhões de unidades de insulina”, afirma o ministério.

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