RAQUEL LOPES
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
A Polícia Federal abriu um inquérito para investigar as circunstâncias que levaram à retenção de um carregamento de madeira suspeito de esconder cocaína, após laudos periciais concluírem até o momento que não havia vestígios da droga nem de qualquer outra substância ilícita na carga.
Em junho deste ano, a Receita Federal deflagrou a Operação Timber Shield (“Escudo de Madeira”, em tradução livre), que reteve oito caminhões transportando cerca de 260 toneladas de madeira sob a suspeita de ocultar cocaína. A ação foi realizada em cooperação com autoridades dos Estados Unidos e com a Aduana Nacional da Bolívia.
Na avaliação inicial da Receita, havia indícios de que o carregamento poderia esconder entre 20 e 50 toneladas de cocaína. Caso esse volume fosse confirmado, a operação representaria a maior apreensão de drogas da história do país.
Cinco laudos periciais concluíram, até o momento, que não há vestígios de cocaína nem de outras substâncias ilícitas na carga. Outros exames ainda aguardam conclusão.
A Polícia Federal investiga as circunstâncias que levaram à apreensão da carga de madeira. A principal linha de apuração busca esclarecer se houve, de fato, tráfico internacional de drogas, inclusive verificando a veracidade da informação de que a madeira estaria impregnada com cocaína.
Os investigadores também pretendem identificar a origem das informações que embasaram a divulgação da suposta carga de droga, quem as forneceu e com qual finalidade, diante da ausência, até o momento, de indícios materiais de cocaína nas amostras analisadas.
Além disso, o inquérito apura a eventual prática de comunicação falsa de crime, possíveis crimes ambientais relacionados à carga de madeira e outros delitos que possam ser identificados ao longo das investigações.
Como mostrou a Folha de S.Paulo, os agentes da Receita detectaram que a carga estava ingressando no Brasil, e a operação foi deflagrada nas cidades de Corumbá (MS) e Cáceres (MT), ambas na fronteira com a Bolívia.
Segundo a Receita, uma perícia preliminar tinha resultado positivo para a presença da droga. Estimava-se que entre 10% e 20% do peso total da carga correspondia a cocaína, com base em outras investigações envolvendo o mesmo método de ocultação.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, chegou a publicar que a partir de informações de inteligência compartilhadas, a Receita Federal intensificou a fiscalização na fronteira e reteve a carga de madeira.
“A operação reflete a integração Brasil-EUA no combate ao crime, com troca de informações de inteligência”, publicou na ocasião Durigan.
Em nota, a Receita Federal afirmou que reteve a carga de forma cautelar após receber informações de inteligência compartilhadas pelos Estados Unidos e pela Fuerza Especial de Lucha Contra el Narcotráfico , da Bolívia, que indicavam a possível contaminação da madeira por cocaína.
Narcotestes preliminares feitos apresentaram resultado indicativo para a droga, mas o órgão ressalta que esses exames não substituem a perícia laboratorial. Os laudos da perícia da Polícia Federal concluíram que as amostras analisadas não continham cocaína nem outras substâncias de interesse forense.
Apesar disso, a apuração continua, com a expectativa de novos laudos do Instituto Nacional de Criminalística e de um inquérito instaurado pela PF para esclarecer os fatos. Os veículos já foram liberados e não houve prisões.
“A Receita Federal, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal realizarão reuniões para avaliar o andamento do caso e definir as providências cabíveis, respeitadas as atribuições de cada instituição”, disse, em nota.
“A eventual liberação da mercadoria dependerá da conclusão das análises e dos procedimentos ainda pendentes, bem como da verificação de que não existem outras irregularidades que impeçam o regular prosseguimento da operação aduaneira”, acrescentou