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Brasil

Implante devolve audição a pacientes com surdez grave

Arquivo Geral

22/08/2010 15h28

Em outubro de 2008, o Hospital Universitário de Brasília (HUB) recebeu a certificação para realização de cirurgias para implante de aparelho que permite a pacientes com surdez grave voltarem a ouvir. Desde então, 16 cirurgias de implante coclear foram realizadas no hospital. A próxima será nesta segunda-feira, 23 de agosto.

 

O implante coclear é um equipamento eletrônico que substitui a função do ouvido interno. O aparelho capta sons do ambiente e gera um impulso elétrico que estimula o nervo da audição. Esse processo faz com que o paciente passe a perceber os sons. “O grau, o tipo e o tempo de surdez são determinante para os ganhos após a cirurgia”, afirma o otorrinolaringologista do Setor de Implante Coclear do HUB, André Sampaio.

 

Para se candidatar à cirurgia, o paciente deve preencher um questionário de triagem com informações sobre o problema de audição que tem. Uma equipe interdisciplinar formada por médicos, fonoaudiólogas, assistentes sociais, psicólogas e radiologista avalia o perfil do candidato.

 

É necessário que o paciente seja criança de até 5 anos ou adulto que já tenha escutado anteriormente. “O procedimento é de alta complexidade e muito caro”, André. “Temos de ter certeza que iremos oferecer os benefícios para quem realmente precisa”. Só o aparelho do implante custa R$ 43 mil. “É o que há de mais moderno em reabilitação auditiva para surdez grave”, diz o médico.

 

Depois de ser aprovado na primeira fase, o candidato passa por exames e avaliações de toda a equipe. A primeira consulta é realizada com o médico, que avalia a deficiência, a forma como foi adquirida e o tempo que o paciente está sem escutar. Se for constatada a necessidade da cirurgia, as fonoaudiólogas fazem exames para atestar as condições auditivas e de linguagem do paciente. Começa então um processo que pode durar até seis meses, com exames radiológicos, tomografia, avaliações psicológicas, questionários, entre outros.

 

Um dos pré-requisitos é que o paciente adulto tenha a comunicação oral preservada, para que não seja necessário reaprender a falar nem a ouvir após a cirurgia. “Para quem nunca ouviu, em termos cerebrais já se desenvolveu uma estrutura linguística diferenciada”, explica a psicóloga Tânia Moreira. “Em geral, quanto maior o tempo de privação auditiva, piores os resultados”, afirma André Sampaio. Como as crianças até 5 anos ainda estão na fase pré-linguagem, a reabilitação funciona como o primeiro aprendizado, mesmo que tardio.

 

A paciente

Dona Gildelina Pinheiro de Souza, 62 anos, ficou completamente surda há 18 anos. Após saber que o HUB realiza o implante, marcou uma consulta para se candidatar à cirurgia. Ao fazer os primeiros exames, descobriu que estava com o tímpano rompido. Passou pela reconstrução em setembro de 2009, no próprio Hospital Universitário. E só agora cumpriu todos os requisitos para ser operada. Ela será internada no hospital no domingo, para receber o implante na segunda-feira, 23 de agosto.

 

Dona Gildelina gosta de dançar, passear e namorar. E confessa que a surdez é um grande problema em sua vida. “Quando eu era criança, tinha problemas de ouvido, saía pus”, lembra. “Como eu era muito pobre, dormia no chão, o que piorava o problema”. Ela conta que o ouvido coçava muito e, às vezes, escorria sangue. A perda da audição foi progressiva. Quando entrou na faculdade, frequentou apenas 15 dias do curso de Ciências Contábeis. “A surdez já estava se agravando. Só conseguia ouvir o professor se ele falasse de frente para mim”, conta. Por vergonha e por achar que não ia dar conta de seguir com os estudos, Gildelina preferiu abandonar a faculdade e seguiu dando aula para crianças. A audição dela diminuiu até chegar a zero em 1992.

 

“Apesar de viver no silêncio, procuro viver a minha vida”, diz. “Voltar a escutar é um grande sonho. Não sinto falta de nada na vida como sinto de ouvir”. Gildelina lembra com saudade de prazeres simples como assistir à televisão e ouvir músicas do cantor Roberto Carlos. “Vou aos shows dele e fico só olhando. As que eu sei, canto junto, as que eu não sei, fico acompanhando com os olhos”.

 

CONDIÇÕES – O paciente implantado assina um termo de compromisso de que cumprirá um tratamento posterior à cirurgia. No primeiro ano com o aparelho, é necessário fazer o ajuste de dois em dois meses. Depois o intervalo aumenta, até chegar a uma vez por ano. O acompanhamento dura uma média de quatro anos e é importante para que o usuário aprenda a ouvir com o “novo” ouvido. “O som fica refinado com o tempo”, diz Tânis.

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