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Idosas com Covid morrem à espera de transferência para UTI em SP

Elas aguardavam vagas via Cross (Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde), serviço vinculado à Secretaria de Estado da Saúde

Por FolhaPress 27/01/2022 6h18
Foto: Breno Esaki/Agência Saúde

Fábio Pescarini
São Paulo, SP

Duas idosas que estavam internadas com Covid morreram nesta semana em Jales (585 km da capital paulista), no interior de São Paulo, enquanto esperavam transferência para UTIs (unidades de terapia intensiva).

Elas aguardavam vagas via Cross (Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde), serviço vinculado à Secretaria de Estado da Saúde.

De acordo com o Consirj (Consórcio Público Intermunicipal de Saúde da Região de Jales), responsável pela gestão da UPA (unidade de pronto atendimento) de Jales na qual elas estavam internadas, a idosa de 85 anos deu entrada no posto médico no último dia 20 e morreu no domingo (23).

A outra idosa, de 73 anos, foi internada com Covid no dia 22 e morreu na última segunda-feira (24).

Segundo o consórcio, as duas mulheres tinham comorbidades. A mais velha era diabética e portadora de insuficiência renal. Já a mais nova sofria de enfisema pulmonar.

O consórcio afirmou ter tentando a transferência das duas mulheres para o Hospital de Base de São José do Rio Preto (438 km de São Paulo), do governo do estado, que é referência para a região.

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De acordo com a consórcio, na tarde desta quinta-feira (27) outros três pacientes com Covid-19 estavam à espera de transferência via Cross, sendo que um deles está intubado, e os demais, na enfermaria.

Segundo a Prefeitura de Jales, os leitos voltados para tratamento de pacientes com Covid-19 na Santa Casa da cidade foram desativados em dezembro e o município aguarda a reabertura.

Procurado, o hospital filantrópico confirmou a desativação. A Santa Casa explicou que os atendimentos na ala de síndrome gripal (Covid) começaram em março de 2020, no início da pandemia, mas que o credenciamento pelo governo estadual foi realizado em setembro de 2020.

“O descredenciamento de todos os hospitais da região ocorreu em 21 de dezembro de 2021”, afirmou a nota da Santa Casa, que disse ter solicitado ao Departamento Regional de Saúde a possibilidade de reabertura e o credenciamento de leitos. O hospital filantrópico diz que também trata do caso com a Assembleia Legislativa.

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Em nota, a Secretaria Estadual da Saúde disse que o DRS (Departamento Regional de Saúde) de São José do Rio Preto está em tratativas para a ativação de novos leitos na Santa Casa de Jales, que serão custeados pelo governo de São Paulo. Mas não deu prazos.

Apenas na última terça-feira (25), 171 testes deram positivo para o novo coronavírus em Jales. Desde o início da pandemia, cerca de 10,5 mil pessoas pegaram Covid-19 na cidade de cerca de 50 mil habitantes e 280 pacientes morreram.

Questionada sobre as mortes e por que as vagas não foram disponibilizadas, a secretaria estadual não respondeu, afirmando que “não foram fornecidas informações para checagem dos casos mencionados”.

A pasta da gestão João Doria (PSDB) afirmou, em nota, que a Cross é um serviço intermediário que monitora pacientes de todos os municípios paulistas com a finalidade de auxiliar na transferência entre os serviços de origem e de referência.

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“O papel da Cross, que funciona 24 horas por dia, não é criar leitos, mas auxiliar na identificação de uma vaga no hospital mais próximo e apto a cuidar do caso”, afirmou.

“A transferência de um paciente não depende exclusivamente de disponibilidade de vagas, mas também de quadro clínico estável, livre de infecções, que permita o deslocamento a outro serviço de saúde para sua própria segurança”, completou o texto da pasta estadual.

A secretaria destacou ainda que, nesta quarta-feira (26), o governo anunciou a criação de 700 vagas hospitalares no estado para tratamento de pacientes com Covid.

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A pasta não respondeu sobre o credenciamento da Santa Casa de Jales até a publicação desta reportagem.

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Referência para assistência médica em Jales, a região de Rio Preto é onde há a maior transmissão do coronavírus no estado de São Paulo, por causa da variante ômicron, segundo a plataforma SP Covid-19 Info Tracker, criada por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) e da Unesp (Universidade de São Paulo), com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

De acordo com os estatísticos, que fazem esse cálculo desde setembro de 2020, o Rt (ritmo de contágio) atingiu 1,9 nesta quarta-feira (26) na região de Rio Preto.

O índice de transmissão da região de Rio Preto é o mesmo da média nacional e maior que a do estado, de 1,8.

O Rt mostra para quantas pessoas um paciente infectado consegue transmitir o novo coronavírus. Ou seja, um índice de 1,8 quer dizer que cada 100 contaminados transmitem a doença para outras 180 pessoas.

Em nota, a prefeitura disse que “o aumento da transmissão da Covid não aconteceu somente em Rio Preto, mas no país e no mundo de forma geral em razão da variante ômicron”.

Segundo a administração municipal, na segunda-feira (24) foram abertos dez leitos de enfermaria na UIB (unidade básica de internação) Fraternidade e, na próxima segunda (31), serão abertos outros 12 leitos de UTI e 12 de enfermaria na Santa Casa de Rio Preto, em convênio com a prefeitura.

“Também foi criado um centro respiratório exclusivo para atendimento de pacientes com síndromes gripais e ampliados os atendimentos realizados por telemedicina”, completa a nota.

Atualmente, a taxa de ocupação de leitos de UTI para pacientes com Covid no estado, segundo o governo Doria, é de 68,67%. Em Rio Preto, o percentual é de 75% (em enfermaria, o índice sobe para 80%).








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