Jorge Eduardo Antunes
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Coordenadora Nacional do Movimento Brasil sem Drogas, ONG que luta evitar a descriminalização de drogas para uso recreativo, a jornalista Andreia Salles costuma viajar o país para ministrar palestras em favor de sua campanha. Uma delas nunca saiu de sua cabeça.
“Foi ano passado, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Em um auditório lotado de policiais, que aplaudiam as posições do Movimento Brasil sem Drogas, uma pessoa me encarava o tempo todo, com um riso debochado. Além disso, em um evento sobre combate às drogas, nenhum integrante da mesa sequer tocou no assunto da chacina ocorrida na véspera”, diz.
A chacina a que ela se refere ocorreu em junho de 2016, na região que confunde Ponta Porã (Brasil) e Pedro Juan Caballeo (Paraguai), a 324km de distância de Campo Grande. O megatraficante Jorge Rafaat Toumani, o “Rei da Fronteira”, tratado respeitosamente pela imprensa do estado como “empresário”, foi metralhado a mando do Primeiro Comando da Capital (PCC), em homicídio que deixou mais oito feridos. Debochadamente, o crime ocorreu a uma quadra da sede da Polícia Nacional do Paraguai.
Ousadias e deboches deste grau – ou piores – cansaram os governadores dos estados que fazem fronteira com países onde a produção de drogas que abastece o narcotráfico corre livremente, especialmente Paraguai, Peru, Bolívia e Colômbia. Por isso, nesta semana, os governadores do Norte e Centro-Oeste enviaram pedido de ajuda ao governo federal – mais precisamente o envio do Exército, em uma ação radical contra as drogas.
“O desafio vai além do controle do espaço aéreo. É a vigilância terrestre e dos rios e dos igarapés, que estão nesta região compreendendo a Amazônia e o Centro-Oeste”, detalha Waldez Góes, governador do Amapá, um dos estados signatários do termo de compromisso para a integração, colaboração e cooperação no combate à criminalidade, firmado na última quarta-feira, no Palácio do Planalto. “Hoje, a maior causa dos problemas de violência no Brasil estão relacionados com a questão de drogas e armas clandestinas. É muito claro que os maiores países produtores e exportadores de maconha e cocaína são os que estão nos limites com o Brasil”, completa o amapaense.
“Não é possível colocar um membro das Forças Armadas em cada quilômetro da fronteira. Precisamos de recursos tecnológicos através do Sisfron (Sistema Integrado de monitoramento de Fronteiras) e de operações mais firmes das Forças Armadas”, endossa o governador do Mato Grosso, Pedro Taques (PSDB). “Por isso, pedimos menos discurso e mais recursos”, disse.
Drogas e criminalidade
No fundo, o que os governadores pediram ao presidente Michel Temer, e ao ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, foram dois pontos: mais verba para segurança e o uso ostensivo das Forças Armadas no patrulhamento da região. Trocando em miúdos, eles querem uma guerra declarada ao livre comércio das drogas no Brasil.
“Toda a situação prisional brasileira, a violência no Brasil, todo mundo sabe que vem do tráfico de drogas. E essa droga entra pelos nossos Estados”, afirmou, sem meias palavras, o governador Confúcio Moura, de Rondônia. “A única solução é o Exército na fronteira. Pedimos a presença do Exército nas fronteiras”, defendeu.
A ajuda incluiria também o uso da Força Nacional. “A Força Nacional atuaria mais no auxílio à segurança urbana, na inteligência e no combate ao crime. Porque se a gente atua no sistema prisional e nas áreas de circulação e entrada da droga no país, você vai ter um reflexo nos centros urbanos”, diz Waldez Góes.
O governador amapaense defende ainda a necessidade de adoção de um plano de desenvolvimento econômico paralelo às ações policiais e do Exército. “Quando se intervém nessas áreas que possuem relações econômicas ilegais, é preciso oferecer alternativas a um número significativo de pessoas da sociedade que são atraídas por estas organizações criminosas. De um lado se vem com o policiamento mais ostensivo e de outro com as medidas e políticas de desenvolvimento, alternativas para quem está em sociedade e no sistema prisional”, afirma.
Os nove estados assinaram o termo e esperam agora que a Presidência da República também assuma algumas despesas, como o pagamento de diárias para PMs que fizerem patrulhamento nas ruas. “Não temos condição de manter essas despesas sozinho. Estamos diante de uma situação de emergência, precisamos de recursos”, pediu Confúcio Moura, de Rondônia. “A crise é desafiadora e exige uma mobilização nacional. Isso tem de ser tratado como segurança nacional”, endossa Waldez Góes, do Amapá.