ALÉXIA SOUSA
FOLHAPRESS
Um ano após perder o filho Wellington Brito dos Santos, morto aos 20 anos na Operação Contenção, Tauã Brito voltou nesta quarta-feira (28) à praça São Lucas, no Complexo da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, para cobrar justiça e homenagear as vítimas da ação policial mais letal da história do país.
O local escolhido para a manifestação foi o mesmo onde moradores enfileiraram dezenas de corpos retirados de uma área de mata após a operação, em 28 de outubro de 2025. A ação, realizada nos complexos da Penha e do Alemão, deixou 122 mortos, entre eles cinco policiais.
Desta vez, a praça recebeu moradores, familiares das vítimas e integrantes de movimentos sociais, que soltaram balões brancos em memória dos mortos. O ato foi organizado pela Frente Penha, coletivo formado por moradores e organizações que atuam na região.
“Existe esperança, existem sonhos, existem crianças e jovens que precisam ser vistos por esse Estado. E hoje a gente está aqui mostrando isso”, afirmou Tauã, uma das mães que participaram da mobilização.
Wellington estava entre os 117 civis mortos durante a operação. Um ano depois, as circunstâncias das mortes ainda são investigadas. Segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro, 28 policiais militares foram denunciados à Justiça por crimes como roubo, furto, violação de domicílio, constrangimento ilegal e irregularidades no uso de câmeras corporais.
As denúncias, distribuídas em 12 ações penais, foram recebidas pela Justiça, mas não esclarecem, até o momento, as circunstâncias de todas as mortes. A investigação reúne laudos periciais, depoimentos e milhares de horas de gravações das câmeras utilizadas pelos agentes.
Em reportagem publicada pela Folha nesta quarta-feira, Tauã relatou que ainda guarda a mensagem em que Wellington pediu socorro antes de morrer.
Na manifestação, ela disse que a mobilização das mães busca impedir que outras famílias passem pela mesma experiência.
“Nós, mães, levantamos para gritar por justiça pelos nossos filhos, mas também lutar para que outras vidas não venham a ser tombadas e desvalorizadas pelo Estado, como foram os nossos filhos”, afirmou.
A Operação Contenção mobilizou cerca de 2.500 agentes das polícias Civil e Militar em uma ofensiva contra o Comando Vermelho. A ação provocou confrontos, bloqueios de vias e a paralisação de serviços em diferentes regiões da cidade.
As imagens dos corpos levados por moradores à praça São Lucas, na manhã seguinte à operação, repercutiram internacionalmente. Familiares denunciaram possíveis execuções e abusos, enquanto as autoridades de segurança afirmaram que os mortos que não eram policiais haviam participado de confrontos com os agentes.
Nesta quarta-feira, a organização Human Rights Watch divulgou um relatório apontando falhas na preservação de provas e indícios de uso excessivo da força durante a operação. A entidade também identificou episódios de obstrução e manipulação de câmeras corporais utilizadas pelos policiais.
O ato na Penha reúne ainda integrantes de coletivos como Mães de Maio, Mães de Manguinhos e Projeto Fênix, que atuam no apoio a familiares de vítimas da violência. A programação inclui apresentações musicais, dança, poesia, capoeira e jongo, além da distribuição de cestas básicas e atividades recreativas para crianças.
Para Evelin Dias, assistente social e integrante da Frente Penha, a manifestação também pretende chamar a atenção para as condições de vida dos moradores.
“Nossa comunidade, que é tão violentada, precisa ser vista com olhos de cuidado. Sobretudo as mulheres, crianças e jovens negros, que têm seus direitos violados diariamente. Queremos mais cuidado, educação e saúde para a população de favela”, afirmou.
Familiares de mortos em operação que completa um ano na Penha, no RJ, fazem ato por justiça
Local escolhido para a manifestação foi o mesmo onde moradores enfileiraram dezenas de corpos retirados de uma área de mata após a operação
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil