Menu
Brasil

Família aponta negligência médica em morte de professora de 26 anos no Rio

Professora foi atendida e liberada duas vezes com dor no peito e falta de ar antes de morrer por tamponamento cardíaco

Redação Jornal de Brasília

02/09/2026 17h36

morte de professora de 26 anos no rio

Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

BRUNA FANTTI
FOLHAPRESS

Giulia Silva de Araújo, 26, professora de história, morreu horas depois de ser atendida e liberada duas vezes, no dia 28 de agosto, no HMFST (Hospital Municipal Francisco da Silva Telles), em Irajá, na zona norte do Rio de Janeiro. A família dela acusa a unidade de negligência.

A professora chegou à emergência com dor no peito e falta de ar e voltou para casa nas duas ocasiões.

O atestado de óbito aponta como causa da morte tamponamento cardíaco -compressão do coração provocada pelo acúmulo de sangue ou líquido no pericárdio, membrana que envolve o órgão. Segundo a família, ela foi liberada após receber diagnóstico de ansiedade, apesar da informação não constar no prontuário médico.

Giulia deu entrada na unidade às 8h32 do dia 28 de agosto, com queixa de dor no peito e fadiga. Os sinais vitais foram registrados como normais. O médico prescreveu um eletrocardiograma às 9h07. Ela foi medicada e recebeu alta às 9h22, com diagnóstico de dor aguda, 50 minutos após a chegada. O prontuário a que a Folha de S.Paulo teve acesso registra a requisição do exame de eletrocardiograma, mas não traz laudo ou anotação do exame nesse atendimento.

Giulia voltou à mesma emergência às 11h14, dessa vez com falta de ar, além dos outros sintomas . Nessa segunda passagem, foi classificada em nível de urgência inferior ao da manhã. A médica que a atendeu registrou dor no peito que piorava com a respiração e pediu radiografia de tórax, novo eletrocardiograma e hemograma. Giulia recebeu medicação por volta das 12h e ficou em observação. A alta foi dada às 13h19, com a anotação de que o eletrocardiograma e o raio X não mostravam alterações.

O HMFST e a SMS (Secretaria Municipal da Saúde) do Rio negam falha no atendimento. Em nota, a SMS afirmou que a paciente “foi imediatamente atendida e recebeu todos os cuidados indicados para o seu quadro, o que inclui os exames estabelecidos em protocolo para diagnóstico imediato de quadros cardíacos agudos”.

Segundo a pasta, frequência cardíaca, frequência respiratória, pressão arterial, temperatura e saturação de oxigênio ficaram dentro dos parâmetros esperados nas duas passagens pelo hospital, e o eletrocardiograma- descrito pela secretaria como “determinante na detecção de quadros cardíacos de maior gravidade”- não apresentou alterações. A unidade afirmou lamentar a morte e disse estar à disposição da família para esclarecimentos.

Ao voltar para casa, Giulia piorou. Foi levada às pressas para uma unidade de saúde em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, onde chegou às 16h58 já em parada cardiorrespiratória. A equipe manteve manobras de reanimação por 12 ciclos e chegou a desfibrilá-la duas vezes, sem sucesso. O óbito foi confirmado às 17h25. O médico que assinou a evolução solicitou o encaminhamento ao IML (Instituto Médico-Legal) diante da morte súbita e dos atendimentos hospitalares ocorridos no mesmo dia.

A Prefeitura de Duque de Caxias, por meio da Secretaria Municipal de Saúde e da direção do HMMRC (Hospital Municipal Doutor Moacyr Rodrigues do Carmo), informou que o caso foi registrado em delegacia e que o corpo foi encaminhado ao IML para apuração da causa da morte.

A irmã de Giulia, a enfermeira Fabiana Bezerra, atribui a morte a negligência do HMFST e contesta a versão da rede municipal.

“Ela deu entrada no hospital por volta das 8h da manhã com forte dor torácica e muita falta de ar.
Mesmo ela relatando tudo isso, liberaram ela, falaram que ela estava com crise de ansiedade. Por volta das 11h, minha irmã voltou ao mesmo hospital, fizeram alguns exames e deram alta alegando a mesma ansiedade”, disse.

Segundo Fabiana, a irmã relatou por telefone dores fortes e preocupação com o próprio estado de saúde enquanto aguardava atendimento.

Procurado pela reportagem, o médico Fábio Fernandes, cardiologista do Incor (Instituto do Coração), explica que o pericárdio é complacente: quando o líquido se acumula aos poucos, a membrana acomoda o volume e o coração continua bombeando normalmente –um paciente pode chegar a cerca de 2 litros de líquido, como ocorre em casos de tuberculose, sem alteração do débito cardíaco. Já em quadros de instalação rápida, pouco líquido já basta para comprimir o órgão.

Fernandes explica que o tamponamento cardíaco é uma situação de gravidade e o diagnóstico é clínico.

“O eletrocardiograma mostra uma baixa voltagem, o ecocardiograma mostra o derrame grande com sinal de compressão das câmaras cardíacas”, diz.

De acordo com o advogado da família da vítima, Luan Machado, não foi realizado exame de ecocardiograma, além de outros necessários para avaliar a situação cardíaca da professora.

O caso é apurado pela 59ª DP (Delegacia de Polícia) Duque de Caxias). Segundo a Polícia Civil, diligências estão em andamento para esclarecer as circunstâncias da morte.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado