TULIO KRUSE
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A extinção do teste de baliza para quem faz o exame da CNH (Carteira Nacional de Habilitação) em São Paulo acelerou a duração das provas e dividiu a opinião de candidatos que passaram pelo novo formato da avaliação.
Num grupo de oito entrevistados, entre instrutores e aprendizes, todos dizem que a mudança tem potencial para piorar a segurança e a qualidade do trânsito –mesmo aqueles que são favoráveis à medida.
O maior impacto das mudanças aprovadas pelo Contran (Conselho Nacional de Trânsito), porém, é trabalhista: há relatos de um aumento nas demissões de instrutores de autoescolas e uma preocupação generalizada com a estabilidade do emprego no setor. O principal motivo é o fim da obrigatoriedade das aulas em autoescolas para a realização da prova.
“O que me preocupa é que, daqui a pouco, não vão mais precisar de nós”, disse o instrutor prático Diego Valim, 34, que acompanhava alguns alunos durante a manhã de exames nesta terça-feira (27) na região do Tucuruvi, zona norte da capital paulista.
A reportagem também conversou com uma instrutora no local que contou que estava cumprindo seu último dia de aviso prévio após ter sido demitida. Ela relatou que a autoescola onde ela trabalha no Jaçanã, também na zona norte, reduziu a equipe de 38 instrutores para apenas 7. Ela pediu para não ser identificada.
Segundo o Sintradete (Sindicato dos trabalhadores, empregados, instrutores, diretores em autoescola), houve entre mil e duas mil demissões na cidade de São Paulo desde que foi aprovada a resolução que derrubou a obrigatoriedade das 20 horas-aula para realizar o exame. As novas regras exigem apenas 2 horas-aula.
“O ministro [dos Transportes, Renan Filho] simplesmente não consultou a categoria. Ele pegou a regulação que existe hoje e jogou no lixo”, disse o presidente do Sintradete, Valdir José Lima. “Com essa regulação, simplesmente estão colocando a categoria na informalidade, porque estão os autorizando a ser autônomos. O vínculo empregatício e todos os seus direitos -férias, 13º [salário], aposentadoria-, eles não têm mais.”
Em meio aos exames de habilitação que ocorriam no Tucuruvi nesta terça, havia candidatos comemorando o fim da baliza e outros criticando a medida. A estudante Maria Clara Cabral, 18, disse que o momento do teste não necessariamente reflete a habilidade do condutor e que as autoescolas seguirão obrigadas a ensinar a técnica.
“Acho que, no dia-a-dia, as pessoas vão acabar dirigindo um pouco pior. Mas para a prova, é ótimo”, disse a estudante. No início de dezembro, ela havia sido reprovada por errar justamente no teste da baliza. “As pessoas ficam muito nervosas.”
A maioria dos entrevistados, no entanto, diz que o exame deveria manter essa etapa. “A verdade é que, na rua, a gente precisa fazer a baliza, então você tem que aprender de qualquer jeito”, disse o estudante Pedro Henrique Júnior, 18, que foi aprovado na primeira tentativa. “A baliza era a parte em que eu mais me garantia.”
Entre mais de dez carros que participavam do exame nesta terça, não havia nenhum com câmbio automático. A opção do uso do carro automático para a prova de habilitação é outra mudança que passou a valer em São Paulo nesta semana, mas instrutores afirmaram que as autoescolas ainda não se adaptaram a essa modalidade.
A redução na carga horária mínima exigida também foi encarada com ceticismo por profissionais e candidatos da prova. “Já vi alunos que começaram o curso sabendo dirigir serem reprovados porque trazem manias de fora da autoescola. Não dão seta, não diminuem a velocidade antes da conversão, por exemplo”, disse Valim.
“Para conseguir passar [no exame] aqui o sujeito precisa, miseravelmente, de umas 10 a 12 aulas. Para ser bom. Do contrário não dá, não”, opinou o serralheiro Geraldo Magela da Conceição, 73, que tentava conseguir a habilitação após aulas de reciclagem.