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‘Eu não saio e meus filhos não saem. A curva ainda está subindo e muita gente vai adoecer’

Depoimento de Sylvia de Oliveira, 61 anos, servidora pública na Unesp e moradora de Araraquara (SP)

Foto: Agência Brasil

Depoimento de Sylvia de Oliveira, 61 anos, servidora pública na Unesp e moradora de Araraquara (SP)

“Pessoas do nosso convívio estão morrendo. O professor Mello morreu há cerca de dez dias, somos da mesma igreja. Quando pequena, minha filha corria para abraçar o Mello. Ramiro, conhecido meu de adolescência, foi enterrado no começo da semana. É triste. A cabeleireira Fulvia ficou na UTI. O Caio, que trabalhava com meu pai, foi transferido para hospital de São Paulo. A filha dele e a empregada estão com covid-19.

Eu não saio, meus filhos não saem. A gente se acostuma. Estou desde março (de 2020) assim. Uma semana de lockdown e as pessoas entraram em pânico. (Araraquara decretou fechamento total, o que incluiu supermercados, em fevereiro, para tentar frear a propagação da doença, que pressiona o sistema de saúde local. O bloqueio durou seis dias, e agora a cidade está em uma reabertura lenta e gradual)

O vulnerável não tem comida, mas muitos que estão reclamando têm dinheiro. Não aceita ficar privado. Precisamos aceitar que é uma doença cruel, contagiosa. Meus filhos, ao chegar em casa (antes do lockdown), já põem a roupa na máquina e tomam banho. Por causa do meu pai, por mim, que já tenho 61 e asma. Por eles também. A gente tem um medo danado. Meu pai sabe que é perigoso porque a gente fala e ele acredita, agora tomou a primeira dose da Coronavac.

Tenho de me distanciar um pouco do Facebook. A gente vê muita barbaridade, fake news de tratamento preventivo. Não aguento e respondo. Aqui em casa, a gente se protege com barreiras físicas. Encontrei a minha zona de conforto dentro de casa.

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Estamos vivendo uma Araraquara ingrata. Todos que foram protestar contra o lockdown foram multados? Está difícil pra todo mundo, no Brasil inteiro. Tem gente para ser entubada e não tem lugar.

Nesses dias de lockdown ninguém precisou sair aqui de casa. Não tinha molho de tomate para fazer macarrão. Supermercado fechado, pessoas comprando sem saber que dia ia chegar. Minha filha fez alho e óleo. Se algum vizinho perguntar se tenho uma lata de óleo, eu cedo. A gente tem que se ajudar. Do jeito que está aumentando o contágio, vou adotar delivery para compra de mercado.

A maior parte que reclamou esta semana tem renda média, não são as pessoas que estavam esperando a cesta básica chegar. Muitos ficam reclamando e não têm ação.

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Não estão conscientes que a curva ainda está subindo, que muita gente vai adoecer. Tem muito araraquarense que é negacionista, fala que estão botando terror, que não é tudo isso, ‘esse prefeitinho’.

As pessoas têm que ser vacinadas o mais urgente possível e a gente não tem previsão. Quinze dias, um mês depois da 2ª dose, meu pai pode até dar uma saidinha. Quem realmente sabe do problema que a gente está vivendo está se cuidando. Se cuidem. Vai passar!”

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