IGOR SOARES
FOLHAPRESS
O corpo de Marcelo da Cruz Silva, 41, foi velado e enterrado na tarde desta quinta-feira (28) no cemitério São Miguel, em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro.
O pedreiro estava em uma motocicleta a caminho de uma obra, quando ele e Edvan Felipe de Assis, 46 foram baleados durante uma operação da Polícia Militar na localidade da Ipuca, no Jardim Catarina.
Sobre as mortes, em nota, a Polícia Militar afirmou que um procedimento apuratório foi instaurado para investigar as circunstâncias do caso. A corporação afirmou ainda que isolou o local e acionou a Polícia Civil, e declarou lamentar as mortes e disse colaborar integralmente com as investigações.
Durante o velório, o clima era de indignação. “Meu irmão era trabalhador, não era um traficante. Eu sou um trabalhador, não sou um traficante”, disse o irmão da vítima, Márcio da Cruz Silva. Ele foi preso na quarta-feira, segundo a polícia, porque teria depredado uma viatura e foi liberado após pagar fiança de R$ 5.000.
Na entrada do cemitério, familiares e amigos presentes gritaram em direção a policiais que estavam no local, com gritos de que “mataram um trabalhador”.
A ex-esposa de Marcelo, Lúcia da Silva Almeida, 37, diz que o pedreiro era um “homem bom, um pai exemplar e todo mundo o conhecia” na região.
Ela e a vítima são pais de um menino de 7 anos. “Ele [o filho] está perguntando. Sabe o que meu filho falou essa noite? Que ele vai ser pedreiro igual ao pai dele, mas não vai trabalhar muito, não. Porque ele pode sair e a polícia matar ele”, disse a dona de casa.
Lúcia diz que a relação de pai e filho era forte. “Ele [o Marcelo] era um cara que sempre estava presente, dava as coisas dele [da criança], estava pegando ele. Se ele estava doente, eu contava. Quem vai me ajudar? Porque o pai não tem mais, infelizmente.”
Também irmão da vítima, Inaldo Vicente da Silva, 55, citou a dedicação de Marcelo ao trabalho. “Meu irmão era uma pessoa boa, que saía para o trabalho toda manhã, chegava às 18h. A rotina dele era sair cedo para ir trabalhar, com a ferramenta de trabalho dele. E, naquela manhã, foi morto pelos policiais”, disse o serralheiro.
Segundo ele, Marcelo tinha projetos e sonhos para o futuro. “O projeto dele era fazer casa para alugar, deixou uma casinha, fazia outra aqui e ali, pensando no futuro do filho dele. E ele trabalhava para fazer um investimento, que foi interrompido”.
A outra vítima é Edvan Felipe de Assis, 46, que ajudava Marcelo em uma obra. Segundo moradores, eles estavam em uma motocicleta com ferramentas e marmitas no momento dos disparos. A polícia teria confundido o material de trabalho com armas. O velório dele está marcado para a manhã desta sexta-feira, 29.
Os dois homens foram encontrados caídos ao lado de ferramentas de obra. Durante a perícia, a Polícia Civil localizou uma ferramenta descrita como uma régua de pedreiro a cerca de 150 metros dos corpos.
Na tarde de quarta-feira, moradores fizeram um protesto após a morte dos pedreiros na BR-101, fechando parte da via expressa que liga a capital à região dos Lagos.
A pista chegou a ser totalmente fechada às 9h55. A liberação parcial ocorreu às 10h02, e o trânsito foi completamente normalizado às 11h30, segundo a PRF.
A Polícia Civil informou que policiais militares envolvidos na ocorrência e testemunhas estão sendo ouvidos na delegacia. As armas dos agentes foram apreendidas e serão submetidas a confronto balístico.
Segundo a corporação, as imagens das câmeras corporais dos policiais já foram requisitadas. O local passou por perícia, e os corpos foram encaminhados ao Instituto Médico Legal (IML). Outras diligências seguem em andamento para esclarecer o caso.