JÉSSICA MAES
FOLHAPRESS
O El Niño já está em patamar forte e continuará ganhando intensidade até o final do ano. A afirmação é da Noaa (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) dos Estados Unidos, que atualizou nesta quinta-feira (13) a sua análise sobre o fenômeno.
A partir de setembro, a agência climática americana prevê 93% de chance de que o El Niño evolua para a categoria muito forte o que vem sendo chamado de um super El Niño. A probabilidade de que essas condições perdurem até janeiro é de 90%.
A última previsão do órgão, do mês passado, era de 81% de chance de um El Niño muito forte entre outubro e dezembro.
O fenômeno climático, que começou em junho, é caracterizado pelo aquecimento acima da média das águas do oceano Pacífico equatorial ao contrário da La Niña, que ocorre quando a superfície nesta região está mais fria do que o normal.
Quando a variação acima da média é de 0,5°C a 1°C, o El Niño é classificado como fraco. Na classificação moderada, a anomalia de temperatura fica entre 1°C a 1,5°C e, na forte, vai de 1,5°C a 2°C. O El Niño é classificado como muito forte quando o aquecimento da superfície do Pacífico equatorial fica acima de 2°C.
Um El Niño mais forte, porém, não quer dizer que terá consequências necessariamente mais graves. Mas essa classificação aumenta as chances de que os impactos mais característicos do fenômeno ocorram, com tempestades, secas ou ondas de calor mais intensas, a depender da região do planeta.
No Brasil, o El Niño tende a provocar seca nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e parte do Sudeste e mais chuvas na região Sul. Assim, com a nova previsão da Noaa aumentam as chances de um verão excepcionalmente quente em grande parte do país.
Somados, o calor e o tempo seco em grande parte do Brasil também podem resultar em mais incêndios florestais. Por isso, o Ministério do Meio Ambiente e da Mudança Climática conseguiu destravar o repasse de mais de R$ 300 milhões aos órgãos de combate ao fogo. Medidas preventivas também vêm sendo adotadas por gestões estaduais e municipais.
“O El Niño se intensificou no último mês”, afirma a Noaa, uma das maiores autoridades do mundo em clima, meteorologia e ciência oceânica. Segundo o órgão, houve maior formação de nuvens e mais chuvas no Pacífico central e oriental, enquanto a Indonésia, que enfrenta uma forte seca, registrou menos precipitação do que o habitual.
A agência estima que o El Niño deste ano pode ser um dos mais intensos desde o início de seus registros, em 1950, e deve durar, ao menos, até o início do outono, em abril do próximo ano.
O QUE É O EL NIÑO
O El Niño é um acontecimento natural e acontece periodicamente. Agora, no entanto, ocorre em um mundo alterado pela crise climática, o que pode amplificar seus impactos.
O fenômeno tem relação com os ventos alísios, que usualmente empurram águas quentes em direção à Ásia. Em alguns anos, porém, esses ventos se enfraquecem, mudando padrões de chuva e do ciclo de nutrientes no oceano esses são os anos de El Niño.
Atualmente, segundo a última atualização da Noaa, a temperatura da superfície na principal região usada para aferir o fenômeno (chamada de Niño-3.4) está 1,4°C acima da média ou seja, dentro da categoria “forte”.
A agência aponta, ainda, que não são apenas as águas superficiais do Pacífico equatorial que estão muito aquecidas. Há imensa uma quantidade de calor armazenada abaixo da superfície, com algumas áreas até 10°C mais quentes que o normal.
“Ter uma temperatura subsuperficial profunda na região, significa que o volume de água quente é bem grande e, portanto, pode manter altas temperaturas na superfície do oceano por mais tempo”, explica o meteorologista Tércio Ambrizzi, diretor do IEA-USP (Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo), que estuda o fenômeno.
“Isso nos afeta pois o oceano irá manter sua forçante na atmosfera e, com isso, afetar várias regiões do planeta, particularmente no Brasil”, acrescenta.
O pesquisador ressalta que esse índice de 10°C abaixo da superfície é muito superior às últimas ocorrências do fenômeno. Análise da Folha de S.Paulo dos relatórios da Noaa referentes ao El Niño de 2015-2016, considerado excepcionalmente forte, mostram que, naquela ocasião, a temperatura máxima nas águas subsuperficiais ficavam próximas de 6°C acima da média.
“Todos os indicadores apontam para um El Niño muito forte e, desta forma, seus impactos podem também ser intensos”, diz Ambrizzi.
El Niño já está em patamar forte e continuará se intensificando, diz agência americana
Previsão indica 93% de chance de o El Niño alcançar intensidade muito forte a partir de setembro
Foto: Reprodução/ Painel El Niño