Menu
Brasil

Dois meses após explosão, parte dos moradores do Jaguaré lida com obras inacabadas e dificuldade para retomar rotina

Atingidos relatam que equipes responsáveis pelos reparos retornam diversas vezes às residências, mas problemas reaparecem após as intervenções

Redação Jornal de Brasília

16/07/2026 15h43

jaguare explosao

Explosão de gás em maio de 2026 no bairro do Jaguaré, em SP. Foto: Reprodução

BÁRBARA SÁ
FOLHAPRESS


Dois meses após a explosão no Jaguaré, na zona oeste de São Paulo, parte dos moradores afirma que continua enfrentando obras inacabadas, novos danos em imóveis e dificuldades para retomar a vida.

Eles relatam que equipes responsáveis pelos reparos retornam diversas vezes às residências, mas problemas reaparecem após as intervenções.

Os atingidos também reclamam do que veem como tratamento desrespeitoso de parte dos funcionários que executam as obras.

A Sabesp (Companhia de Saneamento Básico de São Paulo, hoje administrada de forma privada), responsável pela obra que causou a explosão, disse apoiar os moradores afetados.

A empresa afirma que, no perímetro definido pela Defesa Civil, 48 imóveis apresentaram avarias, sendo que 44 tiveram os reparos concluídos e quatro seguem em execução. Fora dessa área, diz ter vistoriado outros 99 imóveis (leia mais abaixo).

A explosão ocorreu em 11 de maio durante uma obra envolvendo redes subterrâneas de saneamento e gás canalizado.

O acidente matou o segurança Alex Sandro Fernandes Nunes, 49, e o pintor autônomo Francisco Bondemba da Silva, 57, conhecido como Bodenga.

Dezenas de imóveis foram atingidos e famílias precisaram deixar suas casas. A auxiliar de classe Fernanda Cardoso, 44, moradora do bairro há cerca de 37 anos, é uma delas.

Cardoso afirma que precisou interromper a rotina de trabalho para acompanhar reparos que nunca eram concluídos. “Todo dia eles falavam que iam finalizar. Eu deixava de trabalhar e, quando chovia, aparecia um vazamento novo”, relata.

Ela conta que o telhado passou por diferentes intervenções desde a explosão e que chegou a espalhar baldes pelos cômodos para conter a água durante as chuvas. “Toda vez que eles subiam no telhado, aparecia um defeito diferente”, afirma.

A auxiliar de classe também reclama da condução dos reparos. Ela diz que ouviu que a pintura feita na casa era uma “cortesia” e questionou a resposta. “Não pedi cortesia. Só queria que resolvessem o problema, que não fui eu quem causou”, afirma.

A moradora diz que alguns serviços foram bem executados, mas que o telhado demorou a ser solucionado. Ela pediu ainda que uma equipe específica não voltasse à residência. “Não quero nada que não seja meu. Só queria que fizessem o que precisava ser feito”, diz.

A situação, relatam moradores, não seria isolada. A autônoma Eva Aparecida Rosa dos Santos, 52, afirma que adiou exames médicos e compromissos pessoais enquanto aguardava o fim das obras. “Eu falava: ‘Hoje eles vão terminar’. Aí não ia para o exame, não ia resolver minhas coisas, porque achava que naquele dia ia acabar. E não acabava”, relata.

Ela diz que, após a espera, o telhado passou por uma nova troca e recebeu a garantia de que o problema teria sido resolvido. “Quero é minha casa de volta. Preciso da minha rotina de volta”, diz.

Além dos reparos, moradores questionam a condução das negociações de indenização. A defesa de famílias atingidas afirma que Sabesp, Comgás e Defensoria Pública têm conduzido tratativas diretamente com moradores, sem a participação dos advogados escolhidos por parte dos atingidos.

Em mensagens enviadas à Sabesp, à Defensoria e a representantes do governo estadual, o advogado que representa famílias questionou as minutas de acordo, os critérios de ressarcimento e o cronograma de atendimento.

Um dos pontos levantados é uma cláusula que prevê o desconto do auxílio emergencial de R$ 15 mil concedido a comerciantes em indenizações futuras por danos materiais. A defesa afirma que, quando o valor foi disponibilizado, a informação passada era de que o montante não seria abatido.

A defesa também questionou laudos dos imóveis, inclusão de perdas financeiras, danos emocionais e prejuízos a comerciantes e trabalhadores afetados.

Cardoso afirma que recebeu uma proposta de ressarcimento antes de procurar orientação jurídica, mas que a negociação parou após informar que havia contratado um advogado. “Depois que entrou o advogado começou a ficar um pouco mais complicado”, afirma.

ETAPAS

A Sabesp afirmou que estruturou sua atuação em três etapas para garantir acolhimento e reparação integral dos danos, em conjunto com a Defensoria Pública.

A companhia diz ter oferecido medidas emergenciais, como hospedagem, moradia temporária, mudanças, guarda-móveis e auxílio de R$ 5.000 aos moradores próximos à explosão.

Sobre as famílias que perderam suas casas, a Sabesp afirma ter apresentado soluções habitacionais individualizadas para 68 famílias. Segundo a companhia, 22 receberam escrituras de apartamentos, 41 permanecem temporariamente em imóveis alugados e cinco ainda analisam propostas.

Sobre os R$ 15 mil aos comerciantes, a Sabesp afirma que o valor foi uma antecipação financeira enquanto os prejuízos eram apurados e que as indenizações definitivas são definidas caso a caso.

A Defensoria Pública afirmou que atua desde o primeiro momento no acolhimento das vítimas e participa das negociações com a Sabesp para construção de um programa de reparação.

O órgão diz que nenhum acordo é formalizado sem a concordância do interessado e que presta assistência jurídica individual a quem não possui advogado.

A instituição informou ainda que participou de reuniões com moradores e que as propostas consideram danos materiais, lucros cessantes, danos morais e questões habitacionais.

A Comgás informou que permanece em constante diálogo com a comunidade e em estreita colaboração com o governo e Sabesp para acolher as demandas das famílias impactadas com transparência e resolutividade.

O Ministério Público de São Paulo informou que atuou no atendimento inicial às vítimas da explosão e que, atualmente, conduz dois inquéritos civis para apurar a responsabilidade das concessionárias pelos danos coletivos.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado