ANDRÉ FLEURY MORAES
FOLHAPRESS
A decisão do comitê de clientes do caso Mariana (MG) de trocar o escritório que representa milhares de brasileiros na Justiça da Inglaterra foi tomada após meses de conflitos com o Pogust Goodhead, banca que deu início à ação, segundo duas pessoas com conhecimento direto do assunto ouvidas pela Folha de S.Paulo.
Por medo de represálias, elas pediram para não ser identificadas.
O processo inglês busca responsabilizar a BHP, gigante da mineração que detinha 50% da Samarco, pelo rompimento da barragem do Fundão, em 2015. A tragédia matou 19 pessoas, deixou mais de 2.000 desabrigadas e causou uma série de danos ambientais. A ação pede 36 bilhões de libras em indenização.
O Pogust defendia a causa desde o começo, mas o comitê decidiu trocá-lo pelo Bailey Glasser International, escritório dos Estados Unidos. A mudança abriu uma crise com a banca britânica, para quem o colegiado não tem legitimidade para substituí-lo.
Tanto o comitê quanto o Pogust foram à Justiça para discutir a troca. De um lado o grupo diz ter poderes para deliberar sobre quem representa as vítimas; de outro, o Pogust diz que não. Caberá à Justiça inglesa definir quem tem razão.
O juiz Adam Constable definiu nesta sexta (11) reunir as duas ações em uma só e marcou para outubro uma audiência para discutir os poderes do comitê.
Advogados a par do assunto dizem que uma das questões em jogo está no fato de que o Pogust diz ter contratos individuais em nome de todas as vítimas. Outra, por sua vez, envolve alegações de que o Pogust violou compromissos previstos em contrato segundo o comitê, a mudança se deu por justa causa.
A decisão desta sexta provocou repercussões distintas. A CEO do Pogust, Alicia Alinia, disse que a medida é uma vitória para os clientes. Já a Bailey Glasser afirmou que a deliberação tem natureza apenas processual “e não resolve as questões em favor de nenhuma das partes”.
COMO O CONFLITO COMEÇOU
O comitê foi criado em 2022 para viabilizar a interlocução entre o escritório e seus mais de 400 mil clientes. O grupo tomou uma série de decisões sobre os rumos do processo, como o aval para excluir 200 mil vítimas que assinaram acordo na Justiça brasileira e abriram mão do caso inglês.
A relação entre o comitê e a banca britânica, porém, começou a sofrer abalos no ano passado.
O primeiro mal-estar ocorreu no segundo semestre, depois que o advogado Thomas Goodhead, um dos idealizadores da banca, deixou a empresa por divergências internas. O colegiado só soube disso quando a notícia saiu na imprensa, segundo pessoas a par do tema.
A saída dele gerou uma debandada de advogados à frente do caso. Foram mais de 20 mudanças, segundo apurou a Folha de S.Paulo, que na prática desidrataram a equipe original. Na avaliação de interlocutores do grupo, já não havia praticamente nenhum defensor que estivesse no caso desde que a disputa começou.
O comitê pediu esclarecimentos sobre as saídas e informações sobre a atual composição da equipe, mas diz nunca ter recebido respostas a contento.
O segundo embate se deu neste ano, quando o Pogust anunciou a captação de mais US$ 150 milhões de um fundo de investimentos, o Gramercy, e a contratação do escritório Quinn Emanuel, sediado nos Estados Unidos.
O Gramercy aposta em litígios de risco no mundo todo. Injeta dinheiro em causas de grande valor e recebe de volta com juros. No caso do Pogust, foram mais de US$ 600 milhões desde 2018.
A disputa de Mariana já se arrasta há 11 anos e ainda não tem prazo para terminar. A BHP já foi considerada culpada, mas o teor das indenizações a serem pagas individualmente aos cerca de 400 mil clientes só será definido a partir do ano que vem.
Interlocutores do comitê suspeitam que a contratação do Quinn Emanuel tenha sido imposta pelo Gramercy para dar novos rumos ao caso a busca por um acordo, hipótese que chegou a ser sondada segundo pessoas com conhecimento do assunto.
Na avaliação delas, porém, eventual negociação do gênero beneficiaria mais o fundo do que os brasileiros que reclamam seus prejuízos.
O Quinn Emanuel disse à Folha de S.Paulo que não vai se pronunciar. A reportagem apurou que o escritório ainda diz estar à frente do processo. O fundo Gramercy, por sua vez, confirmou ter recebido email da reportagem, mas não respondeu até a publicação deste texto.
O comitê chegou a aprovar uma resolução desautorizando a contratação do Quinn, demanda que nunca foi atendida pelo Pogust. O grupo voltou a pedir esclarecimentos à banca britânica em agosto e deu um prazo final para recebê-los.
O ofício pedia o rompimento do contrato com o Quinn Emanuel, uma declaração garantindo que financiadores do caso não interferissem nos rumos do processo e medidas concretas para garantir que as financiadoras não exerçam controle sobre a gestão do caso.
O documento dizia também que pessoas ligadas ao Gramercy ameaçaram advogados se eles não aceitassem uma proposta de acordo.
O comitê considerou que, em vez de apresentar argumentos concretos em resposta ao ofício, segundo pessoas a par do assunto, o Pogust encaminhou apenas informações genéricas.
O escritório, por sua vez, disse à Folha de S.Paulo ter admitido “que algumas preocupações precisavam ser tratadas e apresentou medidas para solucioná-las”, mas negou ter reconhecido quaisquer violações contratuais.
No mesmo dia o comitê deliberou pela substituição da banca.
A troca do comando ocorre ao mesmo tempo em que o MPF (Ministério Público Federal) acusa o Pogust por impor cláusulas abusivas em contratos com clientes brasileiros. Segundo a denúncia, o escritório atuou para restringir o direito das vítimas de buscar reparação em território brasileiro.
Entre as cláusulas contestadas estão a proibição de vítimas receberem indenizações no Brasil ou desistirem da ação na Justiça inglesa. O contrato também obrigava as vítimas a repassar valores ao escritório caso firmassem algum acordo no Brasil.
A banca nega irregularidades.
O próprio prefeito de Mariana relatou dificuldades com o Pogust. “Após a saída do Thomas, o município passou a ter grandes dificuldades em torno dos compromissos firmados pelo escritório, de reuniões, de diferenças de narrativas devido a novos investidores e novas pessoas que assumiram [o Pogust]”, disse Juliano Duarte durante pronunciamento em agosto.
Desconfianças em série levaram comitê a trocar escritório do caso Mariana, mudança que vai à Justiça
Processo pede que gigante da mineração que detinha 50% da Samarco seja responsabilizada e pede 36 bilhões de libras em indenização
Destruição causada pelo rompimento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco, ocorrido em novembro de 2015 no município de Mariana, em Minas Gerais. Foto: Rogério Alves/TV Senado