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Depressão infantil: pais precisam estar atentos aos sinais, dizem especialistas

Considerado o país mais ansioso, estima-se que quase 10% da população adulta brasileira sofra com algum transtorno de ansiedade

Ana Clara Botovchenco e Malu Souza / Agência UniCEUB

A falta de socialização durante a pandemia, inclusive na infância, trouxe um alerta ainda maior para um tema que é muito discutido atualmente: saúde mental infantil. Muitas vezes negligenciado, o bem-estar psicológico é um grave problema no Brasil. Considerado o país mais ansioso, estima-se que quase 10% da população adulta brasileira sofra com algum transtorno de ansiedade e 5,8% têm depressão, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

O cenário de intensas mudanças, a falta de perspectiva e as incertezas também podem afetar a saúde mental de crianças e adolescentes no mundo. Casos de depressão durante a infância, tem crescido a cada ano e o diagnóstico é complexo.

Dados da OMS confirmam esse aumento preocupante de crianças com depressão. O índice mundial de crianças na faixa etária entre seis e 12 anos, diagnosticadas com o transtorno, passou de 4,5% para 8% na última década, o que representa um crescimento de 43,7%.

O que é depressão infantil?

A depressão infantil é um transtorno psicológico pouco diagnosticado devido a sua complexidade e confusão com outros problemas. Segundo a psiquiatra Mila Santiago, que trata o público infantil, o transtorno se manifesta de diferentes formas de acordo com a idade, mas pode ter pontos em comum.

“O principal padrão é a perda da satisfação e interesse em realizar atividades que anteriormente eram consideradas agradáveis, acompanhado de uma tristeza”, explica. 

A psicóloga Tânia Inessa ainda ressalta que a criança pode apresentar situações de irritabilidade e até agressividade, que muitas vezes são confundidas com birras pelos pais. “É importante que os pais percebam principalmente essas mudanças comportamentais nas crianças, e observem com cuidado para não entender como um episódio pontual”, complementa a psicóloga.

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O desenvolvimento da depressão infantil pode estar ligado a gatilhos. A médica, que também é coordenadora do Departamento de Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade de Pediatria do Distrito Federal, aponta que situações traumáticas são os principais estopins para o transtorno.

“Morte de um dos pais ou cuidadores próximos, situações de exposição à violência e maus tratos, ou divórcio podem ser situações motivo para a depressão infantil”.

No entanto, Mila Santiago acrescenta que pode não ter nenhuma causa externa, mas sim um resultado de “complexas relações em desequilíbrio de neurotransmissores nas células e circuitos cerebrais”.

Sinais

O primeiro sinal que pode ser observado em uma criança com depressão é a falta de vontade de realizar atividades que eram prazerosas, como brincar, explica a psicóloga. “O brincar é algo importantíssimo para criança. Então, quando o brincar tá afetado, a gente sabe que algo não vai bem com a criança”, completa.

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A médica psiquiatra ainda ressalta que os pais precisam estar atentos a sentimentos de tristeza, irritabilidade e desesperança, além de mudanças no sono. “A alimentação e a concentração são afetas, e a criança pode apresentar dores abdominais, medo exarcebado”, completa. Ela ainda reafirma que, como os sintomas podem mudar de acordo com a faixa etária, os cuidadores e responsáveis precisam sempre estar em alerta para qualquer “mudanças significativas de comportamentos, que durem mais de 2 semanas ou que sejam muito intensas”.

Tratamento e alertas vermelhos

A depressão infantil precisa ser diagnosticada o quanto antes, para não atrapalhar o desenvolvimento social, psíquico e motor da criança.

“É uma condição que tende a ser recorrente, e precisa de tratamento adequado, pois 60% desses pacientes tendem a apresentar depressão na vida adulta, especialmente quando não adequadamente tratados”, explica a psiquiatra Mila.

O tratamento é feito por uma equipe multidisciplinar, composta por pediatra, psiquiatra e psicólogo. O pediatra, por conhecer os seus pacientes, é o primeiro profissional a notar as mudanças no comportamento, orientando então a família a procurar um psiquiatra infantil. “O psiquiatra avalia de modo cuidadoso o paciente, traçando planos terapêuticos, e em uma boa parte dos casos há a necessidade de medicação associada”, explica a médica. O psicólogo infantil realizará sessão de terapia, não só com a criança mas também com os pais ou responsáveis, para que o tratamento seja mais eficaz.

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O diagnóstico precoce e o tratamento correto são importantes para que a criança não apresente outros problemas em decorrência da depressão. A psiquiatra explica que a criança pode ter uma perda de concentração e uma queda nos índices de Quociente de Inteligência quando crescer. “Isso acontece porque os neurônios de algumas regiões do cérebro em desenvolvimento podem morrer e áreas críticas começam a se desenvolver de modo anômalo, prejudicando a qualidade de funcionamento cognitivo”, esclarece.

Ela ainda complementa que a criança pode apresentar mudanças no eixo hormonal, o que pode ocasionar em desnutrição, obesidade e problemas metabólicos. “Proteger as crianças de ambientes emocionalmente hostis ou perigosos é a principal forma de prevenir o transtorno”, diz a psicóloga.

O papel da escola

Muitas vezes as crianças apresentam os sinais nas escolas, com colegas e professores. A pedagoga e pós graduada em psicopedagogia, Juciléa Oliveira, explica que os professores precisam ficar em alerta com qualquer sinal diferente. “São pequenas ações, como se isolar dos colegas, querer sentar em um canto mais afastado, que demonstram que o psicológico da criança está abalado”, cita.

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Juciléa Oliveira, que atua há mais de 27 anos, relata que já viveu uma situação em que um de seus alunos apresentava indícios de estar com sua saúde emocional abalada. “Os pais estavam em um processo de divórcio. A criança, com sinais de depressão, ia para o banheiro se cortar e manifestava seus sentimentos através de desenhos agressivos em seus cadernos”, conta.

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A pedagoga relata que muitas vezes os educadores se veem encruzilhados, pois há crianças que, ao compartilharem seus sentimentos, pedem manter segredo. “Eu ficava com medo de perder esse contato e confiança por parte da criança. Mas precisamos expor para os pais e para a coordenação o que está acontecendo, com intuito de ajudar o aluno”, disse.

Juciléa explica que, a partir do momento que o professor percebe esse comportamento diferente, ele precisa informar a coordenação e a psicóloga da escola. Os pais devem ser chamados para que se esclareça a situação e a escola deve se manter informada do tratamento da criança, para auxiliá-lo. “O tratamento precisa ser uma espécie de parceria entre os pais, a equipe multidisciplinar e a escola como um todo”.






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