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Brasil

Cobertura da H1N1 em debate

Arquivo Geral

26/08/2010 13h29

A pandemia da gripe H1N1 pôs o Brasil e o mundo em alerta. Entre 2009 e 2010, o vírus da gripe foi personagem de destaque nas páginas dos jornais. Na terça-feira 25 de agosto, gestores da área de saúde, jornalistas e professores da UnB discutiram a atuação da imprensa nesse caso, em seminário na unidade da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) na UnB. 

 

O professor Natan Monsores, do departamento de Saúde Coletiva da UnB. acredita que a cobertura passou muito medo e insegurança para a população. “Em vez disso, essa seria uma oportunidade de pregar o cuidado com o próprio corpo e com a saúde. A mídia acaba fazendo um serviço por um lado e, por outro, um desserviço”, afirmou.

 

Monsores defende que a população precisava ser informada sobre o assunto, mas que o tema foi explorado em demasia. “Publicações de renome como a Nature e a British Medical Journal questionaram a atuação da Organização Mundial de Saúde (OMS) no caso da gripe H1N1 e levantaram uma possível influência das indústrias farmacêuticas para que a ameaça fosse superestimada”.

 

Para Marcier Trombiere, coordenador da Assessoria de Comunicação do Ministério da Saúde, as controvérsias não invalidam as campanhas de prevenção. “Mesmo que a doença tenha-se mostrado menos grave do que o esperado, não é sensato pagar para ver em questão de saúde”, afirma. 

 

Trombiere esteve a frente das campanhas do Ministério da Saúde para prevenção e vacinação contra o vírus da gripe H1N1. “A imprensa foi uma boa parceira durante as campanhas de vacinação, mas houve desconfiança exacerbada quanto aos dados do Ministério no início da pandemia”.

 

Leonardo Cavalcanti, editor do caderno Brasil do Correio Braziliense, rebateu afirmando que esse também é o papel da imprensa. “Temos sim que desconfiar sempre das informações prestadas pelos gestores públicos, faz parte do nosso compromisso com o leitor”. 

 

Cavalcanti destacou que os gestores de políticas públicas e os profissionais de saúde devem também buscar conhecer o funcionamento da imprensa. “Há muita mistificação com relação ao trabalho do jornalista. Não existem grupos controlando a todo momento o que vamos escrever, o jornalismo é feito no dia a dia pelos repórteres e editores”. 

 

Para ele, a imprensa tratou o caso de uma forma responsável. “Estávamos o tempo todo atualizando os dados com o Ministério da Saúde e na Secretária de Saúde”. Uma das falhas da cobertura foi não ter aprofundado na investigação sobre os interesses das indústrias farmacêuticas. “Um deles foi não ter dado a devida atenção ao lobby da indústria farmacêutica no contexto da pandemia”, afirmou Cavalcanti.

 

O jornalista explicou que a cobertura do jornal sobre a doença acompanhou tanto a escalada do número de óbitos no Brasil, quanto a divulgação de casos positivos. ”Em algumas matérias demos destaque a pessoas que contraíram a doença e conseguiram curar-se”. Ele destacou que, durante o período de vacinação, toda a semana o periódico divulgava os locais de imunização. 

 

A professora Ligia Cantarino, da Área de Saúde Pública da Faculdade de Agronomia e Veterinária (FAV) da UnB, era responsável pelos diagnósticos da gripe H1N1 da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (MS). Ela acredita que faltou uma interação mais intensa dos jornalistas com o profissional de saúde pública. “Às vezes a imprensa excedia-se na abordagem, outras não oferecia a informação necessária”, conta. A professora acredita que o papel da imprensa num caso como esse é essencial. “Ela deve informar, mas com cuidado para não criar pânico”.

 

Valéria Mendonça, professora de comunicação do Departamento de Saúde Coletiva, acredita que na cobertura da gripe suína houve exagero de ambas as partes. “Da parte do jornalista que muitas vezes não conhece o assunto que está tratando e da parte do gestor de saúde que não se interessa em pensar como as informações que ele trabalha serão divulgadas”, afirma. Valéria defende que a sociedade produz muita informação sem conhecer de verdade os processos que regem a comunicação. “É diferente você passar uma mensagem para quem está doente, para quem não está e para quem tem medo de ficar”, explica.

 

Em 2009, houve 46.100 casos graves de gripe H1N1 e 2.051 mortos, segundo dados do MS. Até julho de 2010 foram contabilizados 753 casos graves e 96 mortes. Levando em conta que neste ano foram considerados graves apenas os casos demandaram internação, observou-se que muitos pacientes com sintomas que atendiam ao critério anterior recuperaram-se rapidamente. As campanhas de vacinação conseguiram imunizar 89 milhões de pessoas.

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