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Brasil

Brasil tem aumento de violência contra indígenas em 2025, aponta relatório

Ao todo, foram registrados 258 assassinatos de indígenas no ano passado, contra 211 casos em 2024, alta de 22%

Redação Jornal de Brasília

13/08/2026 15h26

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Foto: José Cruz/Agência Brasil

JORGE ABREU
FOLHAPRESS

A violência contra indígenas aumentou em 2025 comparado com o ano anterior, segundo relatório divulgado nesta quinta-feira (13) pelo Cimi (Conselho Indigenista Missionário), vinculado à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Entre as principais altas estão a de assassinatos, estupros e suicídios.

Os estados que tiveram maior número absoluto de homicídios dolosos (com intenção) foram Roraima (82), Amazonas (47) e Mato Grosso do Sul (37) —essas três unidades da federação estão entre as cinco com mais indígenas no país, conforme o Censo de 2022.

  • Estados com maiores populações indígenas do Brasil, segundo o Censo 2022
    Amazonas: 490,9 mil
    Bahia: 229,4 mil
    Mato Grosso do Sul: 116,4 mil
    Pernambuco: 106,6 mil
    Roraima: 97,6 mil

    Ao todo, foram registrados 258 assassinatos de indígenas no ano passado, contra 211 casos em 2024, alta de 22%. O estudo não elabora taxas proporcionais conforme a concentração populacional de indígenas no território brasileiro.

    Vicente Fernandes Vilhalva Kaiowá e Guarani, 36, foi morto com um tiro na cabeça e outros quatro indígenas ficaram feridos durante um ataque de pistoleiros no dia 16 de novembro do ano passado, na terra indígena Iguatemipeguá I, em Mato Grosso do Sul.

    O território, sem demarcação oficial, é alvo de conflitos fundiários e passou por um processo de retomada (reocupação) por parte de indígenas guarani-kaiowá —a etnia é uma das maiores em número de mortes violentas em 2025.

    Um dia após esse caso, a Marcha Global dos Povos Indígenas levou às ruas de Belém o nome de Vicente e muitas outras vítimas em protesto contra a violência nos territórios brasileiros. O ato marcou o início da segunda semana da COP30, a conferência do clima das Nações Unidas.

    A violência sexual contra indígenas é outro índice em alta. No ano passado, foram 25 casos, superiores aos 20 em 2024. As maiores vítimas são meninas menores de idade, abusadas por professores, familiares e pessoas desconhecidas, conforme o relatório.

    A pesquisa reúne ainda 19 casos de abuso de poder, 18 de ameaça de morte, 27 de outros tipos de ameaças, 33 casos de lesão corporal, 38 tentativas de assassinato e 46 casos de racismo e discriminação étnico-cultural, além de dez indígenas vítimas de homicídio culposo (sem intenção).

    “O caso de um adolescente indígena que teve a pele marcada com ferro utilizado para a identificação de gado enquanto trabalhava para um pecuarista na Ilha do Bananal (TO) – segunda ocorrência do tipo em menos de um ano – simboliza de forma cruel a permanência e o enraizamento do racismo e da discriminação étnico-racial contra os povos originários no Brasil”, escrevem os autores do relatório.

    Em relação aos suicídios, foram 215 em 2025, contra os 208 no ano anterior, 3,3% de alta no período. Amazonas (77), Mato Grosso do Sul (42) e Roraima (37) lideram o ranking em números absolutos. Os casos mantiveram-se concentrados entre os jovens, com maior incidência entre indígenas de 20 a 29 anos (41%) e até 19 anos (34%).

    Sobre mortalidade infantil, os óbitos de bebês e crianças indígenas até quatro anos totalizaram 1.024, um aumento de 11% em relação aos 922 casos contabilizados em 2024. Os maiores números foram registrados no Amazonas (306), em Roraima (158) e em Mato Grosso (123).

    Desse total, a maioria —586, equivalente a 57%— decorreu de causas consideradas evitáveis, segundo o relatório, com destaque para mortes decorrentes de gripe e pneumonia (104), doenças infecciosas intestinais (85) e desnutrição (32).

    Foram registrados ainda 58 casos de desassistência geral, 111 de desassistência na educação e 121 na saúde, além de 62 mortes por desassistência na saúde e 14 casos envolvendo a disseminação de álcool e outras drogas entre povos indígenas.

    Os dados do estudo foram obtidos no Sistema de Informação sobre Mortalidade, das secretarias estaduais de saúde e na Sesai (Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena), via LAI (Lei de Acesso à Informação) e por meio da consulta a bases públicas.

    MARCO TEMPORAL


    O relatório atribui os índices de violências contra o patrimônio ao marco temporal, que impõe limite nas demarcações de terras indígenas. A tese passou pelo STF (Supremo Tribunal Federal) e foi considerada inconstitucional, mas virou lei no Congresso em resposta do lobby ruralista.

    O marco temporal é uma tese jurídica que diz que os povos indígenas só têm direito de demarcar os territórios que já ocupavam ou disputavam até a data da promulgação da Constituição Federal, ou seja, 5 de outubro de 1988.

    Segundo o Cimi, os efeitos da lei já foram visíveis em 2024, com o agravamento da violência e o aumento de violações de direitos nos territórios, principalmente os que já estavam sob conflitos fundiários.

    “As múltiplas faces da violência contra os povos originários são cruéis e parecem incessantes, porque se repetem ano após ano. Há períodos, contudo, em que elas se intensificam de forma ainda mais perversa, atingindo especialmente os povos e comunidades tornados mais vulneráveis pela omissão do Estado e pela interminável espera pela demarcação de seus territórios —direito que permanece, há décadas, negado”, escreve no relatório o cardeal Leonardo Ulrich Steiner, arcebispo de Manaus e presidente do Cimi.

    Naquele ano de 2024, foram 1.241 casos relacionados a omissão e morosidade na regularização de terras (857), conflitos relativos a direitos territoriais (154 em 114 terras indígenas de 19 estados) e invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio (230 em 159 territórios de 21 estados).

    Já em 2025, foram 1.276 casos: 897 relacionados à omissão e morosidade na regularização de terras, 169 a conflitos relativos a direitos territoriais e 210 a invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio indígena.

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