Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
Por Maria Beatriz Giusti
Alexandro, de 38 anos, exibe empolgado para a turma o progresso que conseguiu alcançar. Levanta o caderno orgulhoso por conseguir escrever o próprio nome completo. Os papéis mostram “Alexandro Dias Rocha” repetidas vezes.
Ainda é só o que ele sabe escrever, mas para quem tem deficiência intelectual desde criança, entender que aquelas letras representam sua identidade já é um progresso, como disse Elias Silva Araújo, professor da Casa de Paulo Freire, instituição sem fins lucrativos para alfabetização de adultos em São Sebastião.
Segundo Elias, entre os mais de 5 mil alunos que já passaram pela instituição desde sua fundação, em 1996, diversos tinham algum tipo de deficiência. Elias diz que, apesar das dificuldades que esses alunos encontram, a convivência com os outros estudantes é sempre amigável e o ensino se torna até mais produtivo.
Nascido em Santa Rita de Cássia (BA), Alexandro, hoje com quase 39 anos, contraiu sarampo e desenvolveu uma complicação rara chamada Panencefalite Esclerosante Subaguda, caracterizada pela deterioração do cérebro, o que causa danos às capacidades e ao desenvolvimento mental da criança.
Passou a infância e adolescência na cidade natal criado pela avó, que ele diz ser sua “outra mãe”. Durante um tempo, frequentou a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), organização filantrópica que atua para garantir os direitos, a assistência e a inclusão social das pessoas com deficiência intelectual, mas quando a avó morreu de câncer de mama, ficou aos cuidados do tio. Alexandro não tem uma clara percepção de tempo, mas relembra que, durante esse período, sofreu abusos físicos e psicológicos do tio, passou fome e morou na rua.
Apenas em 2020, ao tomar conhecimento disso, a mãe biológica do rapaz, Maria Dias Rocha, viajou de Brasília, onde mora, para Santa Rita de Cássica para buscar o filho. Também natural da Bahia, Maria se tornou mãe de Alexandro com apenas 15 anos, mas deixou o filho aos cuidados da avó materna para começar uma nova vida na capital. Em Brasília, Maria casou-se e teve mais dois filhos.
Desde o início de 2025, o rapaz frequenta a Casa de Paulo Freire, fundada por Elias e sua esposa, Herlis Alves Cardoso Araújo, uma mulher com pé direito menor que o outro devido à poliomielite, também considerada uma deficiência. O casal estimula a vizinhança em São Sebastião a se reunir na própria garagem de segunda à quinta para aprender a ler e a escrever.
“Eu sempre via o Alexandro passar pela rua, chamava para as aulas, mas era difícil convencer a família a deixá-lo vir. A mãe também é analfabeta, mas nunca quis participar dos encontros”, lembra Herlis.
Professor há 29 anos, Elias acredita que em alguns casos a família é um fator relevante para que pessoas com deficiências intelectuais não estudem ou se capacitem. “A própria família é o causador da desestimulação do educando e da educanda, às vezes porque não quer ter o trabalho de levar à escola ou de ajudar no ensino”.
Com o método de ensino de Paulo Freire, o alfabetizador considera que o maior desafio para ensinar adultos com deficiência é fazer com que eles entendam que a escola também é para eles. “O Alexandro não falta às aulas, ele entendeu que a escola é para ele, porque o que muitos diziam é que ele não poderia estar nesse lugar”.
“Se a pessoa com deficiência sai daqui sabendo que também tem o direito de estar incluída no processo educacional, já é uma vitória. Ler, escrever, interpretar e fazer as quatro operações é só um detalhe”, acredita o professor.
No Brasil, 14,4 milhões de pessoas vivem com algum tipo de deficiência, entre elas, 2,9 milhões, com 15 anos ou mais, não sabem ler ou escrever. Isso representa uma taxa de analfabetismo de 21,3%, enquanto apenas 5,2% das pessoas sem deficiência são analfabetas, um percentual quatro vezes menor, de acordo com o Censo do IBGE de 2022.
Desde 2015, a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, ou Estatuto da Pessoa com Deficiência, prevê o direito à educação para pessoas com qualquer tipo de deficiência. A legislação assegura um ‘sistema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao longo de toda a vida’.
No entanto, mais 63% das pessoas com deficiência no Brasil não possuem nenhuma instrução ou não terminaram o ensino fundamental, enquanto entre a população sem deficiência esse percentual cai pela metade, com 32%. O percentual de pessoas com deficiência formadas em algum curso superior é o mais baixo, com apenas 7,4% das 14,4 milhões de pessoas com deficiência no país, é o que mostra o Censo de 2022.
Autonomia
Assim como Alexandro, outro estudante, Felipe Maia, de 22 anos, também é uma pessoa com deficiência intelectual que, com muito esforço e repetição, aprendeu a escrever o próprio nome. Aluno da APAE da Asa Norte, Felipe faz parte do programa de alfabetização APAE Acadêmico desde 2022 e diz que quer aprender a ler e a escrever para poder ser independente, andar de ônibus sozinho e trabalhar como jardineiro.

Foto: Reprodução/ Agência Ceub
Atualmente, depende da tia, que se tornou uma mãe adotiva, para se locomover de Samambaia, onde mora, até a Asa Norte, a 33 km de distância. Felipe tem uma irmã que também frequentou a APAE, mas que agora já trabalha na Associação Cruz de Malta, uma entidade sem fins lucrativos de educação infantil.
Mesmo com dificuldade de se lembrar das letras e dos números, Felipe consegue cantar músicas sertanejas decoradas, em especial as de Gusttavo Lima, seu cantor favorito. Além da música, Felipe gosta de dançar, de pintar e de mexer com computadores.
Professora de alfabetização do projeto há 20 anos, Adriana Nemetala acredita que os trabalhos que incentivam a criatividade e os jogos lúdicos são uma parte fundamental da alfabetização das pessoas com deficiência. “Temos que trabalhar com todos os recursos disponíveis para que eles aprendam. Nós não desistimos de jeito nenhum. Até porque não queremos que eles percam o que já sabem”, diz.
Apesar do tempo na Apae, só agora que Nemetala começou a trabalhar com a turma inicial da alfabetização. Ela argumenta que, como com todos os alunos, o professor precisa estar atento ao modo de aprendizagem de cada um.
De acordo com o Estatuto da Pessoa com Deficiência, o ensino para essas pessoas precisa ser por meio de ‘medidas individualizadas e coletivas em ambientes que maximizem o desenvolvimento acadêmico e social dos estudantes com deficiência’
Assim como prevê na lei, Nemetala tenta ao máximo respeitar o tempo e a aprendizagem de cada aluno. Segundo ela, a educação individualizada precisa ser o foco na sala de aula, o que muitas vezes torna-se inviável pela quantidade de estudantes.“Na minha turma, são oito alunos. Isso é demais para uma turma de alfabetização de pessoas com deficiência. Eu preciso sentar com cada um, porque eles conseguem fazer, mas se viro as costas ou vou ajudar outro aluno, a atividade já foi feita de qualquer jeito”, explica.
“Além disso, infelizmente, existem alunos que não conseguem evoluir, alguns ficam estagnados no próprio nome, como é o caso do Felipe, ou em palavras pequenas, mas muitos saem daqui sabendo ler e escrever”, aponta a professora.
Adriana diz que ser professor na alfabetização de pessoas com deficiência é um constante trabalho para aprender a lidar com a frustração. O processo para esses alunos é mais lento e demanda mais do professor e do aluno, em especial aqueles que já estão mais velhos.
De acordo com ela, a estagnação na aprendizagem desses alunos desestimula a família a querer continuar com o processo educacional.“Já conversei com diversos pais e mães que chegam aqui e dizem: ‘Meu filho está há tanto tempo nessa turma e não aprende nada, para que ele continua aqui?’ São famílias capacitistas mesmo, que não acreditam nos filhos por causa da deficiência”.
“Eles não entendem que o aprendizado desses alunos é pequeno mesmo, mas o mínimo que eles aprendem já é uma vitória”, diz. “Mas isso não influencia eles a desistirem, eles cansam, óbvio, mas desistir, não”.
Educação inclusiva
A psicóloga especialista em educação, Amaralina Miranda de Souza, da Universidade de Brasília (UnB), explica que a falha na educação de pessoas com deficiência é histórica. Também professora da Secretária de Educação do Distrito Federal, Amaralina lembra que foi na década de 1980 e 1990 que as discussões sobre espaços exclusivos para pessoas com deficiência começaram na capital, com os centros de educação especializada, que setorizavam os alunos por deficiência.
Embora o objetivo do governo e dos professores fosse auxiliar essas pessoas, Amaralina explica que a educação especial acabou por segregá-las do convívio com as outras crianças. Ela lembra da época em que o papel das escolas especiais era de “treinar” os alunos com alguma deficiência intelectual, que eram chamados de “deficiente mental, treinável e educável”.
A professora diz que, mesmo com os termos negativos e a segregação, os estudos e os trabalhos feitos na época foram importantes para entender o tipo de aprendizagem de cada aluno, não somente dos alunos com deficiência. Para ela, essa caminhada permitiu que a educação inclusiva começasse a fazer parte das discussões.
“Começamos a entender que nós, professores, é que tínhamos que descobrir as formas de alcançar os diferentes tipos de aprendizagem de cada aluno. O princípio do desenvolvimento e aprendizagem é individual de cada um. Em alguma medida, todos nós temos a capacidade de aprender”, explica.
Amaralina acredita que a escola precisa criar oportunidades para os alunos, diversificando estratégias, experiências e critérios de avaliação que possam ajudar o professor a compreender melhor o desenvolvimento de cada estudante.
“Mesmo com os níveis de aprendizagem diferentes, o professor não pode dividir a turma em quais alunos aprendem e quais não aprendem”.
“Não temos a autoridade de dizer que alguém não tem capacidade de aprender. Precisamos compreender o que ele aprende e de que forma ele aprende”, explica.
A professora do 5° ano do fundamental 1 de uma escola classe na Asa Norte, Iara Borges diz, no entanto, que trabalhar com educação inclusiva é um desafio diário. Uma de suas alunas é diagnosticada com Paralisia Cerebral, Transtorno do Espectro Autista e Deficiência Intelectual, além de deficiência motora.
Segundo Borges, mesmo com uma turma de 17 alunos, considerada reduzida para o padrão das escolas de ensino básico, ela não consegue atender todas as demandas da aluna, pois o restante da turma também requer bastante atenção e monitoramento, e por muitas vezes, as atividades propostas para o restante dos alunos são prejudicadas.
“Não consigo realizar algumas delas [atividades] por conta da mobilidade da aluna especial. Por exemplo, alguns passeios que requerem caminhar ou maior movimentação e atividades ao ar livre. Então, existe esse desgaste emocional tanto meu, quanto dos outros alunos da sala. Acho que, no caso dela, uma turma de classe especial teria muito mais resultado para ela em sua evolução”, entende a professora.
No entanto, Iara garante que a turma sempre foi acolhedora e amigável com a menina, o que ajudou as outras crianças a entenderem e respeitarem o diferente. “Os alunos aprenderam a conviver, a se ajudar, a valorizar uns aos outros e aceitá-la como um membro da turma. É uma aluna querida por todos e mostra estar sempre muito feliz com o acolhimento que recebe”, diz.
Borges diz que, nesse período, aprendeu que a inclusão não é apenas uma questão de método, mas de atitude.
“Ver uma criança superar uma dificuldade, participar com alegria ou conquistar algo que antes parecia impossível é o que dá sentido ao meu trabalho como profissional da educação”.
Em outubro de 2025, o Governo Federal aprovou o decreto que cria a Política e a Rede Nacional de Educação Especial Inclusiva. A matéria foi alvo de críticas na Câmara dos Deputados pelo presidente da Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência, deputado Duarte Jr. (PSB-MA).
Em entrevista à Rádio Câmara, em novembro de 2025, Duarte defendeu a revogação do decreto. Segundo ele, existem pessoas com deficiências intelectuais mais graves que exigem mais suporte na aprendizagem, algo que instituições como a Apae conseguem atender.
O deputado teme que, com a política, instituições especializadas possam enfraquecer. “A gente precisa de uma educação inclusiva, de uma educação que não segregue, mas temos que garantir que as Apaes, por meio do ensino especial na modalidade inclusiva, possam continuar exercendo suas atividades”, disse.
Atualmente, todas as escolas públicas do DF trabalham com educação inclusiva. Segundo a Secretaria de Educação, são mais de 30 mil alunos com deficiência nas 835 escolas de educação básica. Além disso, na Educação de Jovens e Adultos (EJA), que atende pessoas com 15 anos ou mais, os alunos com deficiência também podem frequentar turmas com pessoas sem deficiência.
No entanto, caso o aluno não se adapte às aulas, existem 53 turmas que atendem apenas essas pessoas, chamadas de EJA Interventiva. Atualmente, um pouco mais de 600 pessoas com Transtorno Global do Desenvolvimento, Transtorno do Espectro Autista ou Deficiência Intelectual são alunos nessas turmas. Segundo a Secretaria, os professores do EJA Interventivo precisam passar por um processo anual de aptidão, para assegurar que estejam capacitados a ensinar pessoas com deficiência.
O órgão também explica que para se matricular em turmas especiais de alfabetização para pessoas com deficiência, seja na educação básica, quanto no EJA, é preciso ir pessoalmente à Coordenação Regional de Ensino mais próxima. Já na educação inclusiva, a matrícula pode ser feita pelo site da Secretaria.