Eric Zambon
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Em tempos de escândalos como o do assédio feito pelo ator José Mayer a uma figurinista da Globo e do indiciamento do sertanejo Victor após denúncia da mulher grávida, os abusos físicos e psicológicos que resultaram na expulsão do médico Marcus Harter, de 39 anos, da 17ª edição do Big Brother Brasil, na última segunda, não são ficcionais. A violência contra a mulher não faz parte apenas do enredo visto no reality show global – que amargou um dos piores índices de audiência desde seu início, em 2001 – assim como as reações da vítima, Emilly Araújo, de 20 anos, não são atuação. O tema que dominou os comentários em redes sociais na última semana, porém, ainda é tratado por uma parcela das pessoas como se fosse uma anormalidade presente apenas na telinha.
Saiba mais
- O Big Brother Brasil não foi o único reality show a suscitar polêmica. A atriz Luana Piovani lembrou, semana passada, que seu ex-namorado, o ator e cantor Dado Dolabella, foi coroado vencedor d’A Fazenda, da Rede Record, cerca de seis meses após ter sido denunciado por agredi-la.
- A atração da MTV, De Férias com o Ex Brasil, mostrou um participante tentando forçar uma colega de confinamento a transar com ele. Essa mesma situação, inclusive, já havia motivado expulsão de um homem em edição antiga do BBB.
“O Big Brother representa uma microssociedade, um micromundo. Ele representa um contexto social em miniatura”, explica o doutor em Sociologia Luiz Martins da Silva, da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Brasília (UnB). “O BBB tem componentes dramáticos e emocionais, todos os ingredientes da ficção. Mas é concreto, pois são personagens reais”, complementa.
Ele acredita no poder de conscientização da atração, uma vez que instigou o debate sobre abuso em relacionamentos e motivou as pessoas a questionarem. “O Brasil é tão paradoxal que se você quer passar algo pedagógico, melhor passar pela ficção. É por isso que novela faz sucesso”, argumenta. Para ele, no entanto, a maior parte do público assiste às tragédias apresentadas como os antigos romanos assistiam aos gladiadores serem eliminados no Coliseu.
O fato de as imagens serem passadas por meio da televisão criaria um distanciamento emocional em relação ao ocorrido. Assim, as situações são tratadas como encenações ou irreais. Na página do Jornal de Brasília no Facebook, por exemplo, a reação de boa parte dos leitores foi minimizar a situação e ridicularizar a atração e quem assiste. “Lixo. E os telespectadores são acéfalos. Chega a me dar náuseas quando vejo pessoas discutindo sobre o que acontece dentro daquele ‘puteiro de garimpo’”, criticou um leitor, identificado como Carlos Renato Rodrigues. “Por isso o Brasil está nessa situação, olhe com o que a maioria das pessoas se preocupam?”, concordou Alessandro Cardoso.
A reação desses e de vários outros homens, porém, foi de encontro à repercussão do assunto entre as mulheres. No Twitter, #EuViviUmRelacionamentoAbusivo se tornou o assunto mais comentado da rede no Brasil e motivou vários relatos espontâneos.
“Ele me fazia acreditar que a culpa de tudo que ele fazia era minha”, desabafou a usuária @nathaliajenner. “Puxar pelo braço, gritar, te expor a situações de constrangimento também é abuso. Não permita!”, alertou @_lumarttins.
Quando a TV ‘extrapola a ordem moral’
É saudável continuar propagando esse tipo de conteúdo, uma vez que eles têm sido palco de cada vez mais demonstrações de machismo e abuso? Mesmo sem responder em definitivo à questão, o especialista Luiz Martins da Silva relembra: “quando há um crime, isso passa do entretenimento e extrapola a ordem moral. Mas não se pode fazer apologia de algo criminoso e de uma conduta que fere o decoro”, pondera.
Ele ainda lembra que, por ser televisionado, essas quebras de decoro – que podem ser classificadas como crime na maioria dos casos – não se restringem a atingir uma mulher. “Não foi agressão contra apenas uma pessoa, foi um dano moral coletivo. Foi uma ofensa ao decoro coletivo, que tipificou o crime”, conclui.