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Brasil

Adultos buscam se alfabetizar depois de trabalho e até machismo afastá-los das salas de aula

No Brasil, 4,9% de brasileiros ainda não sabem ler e escrever e encontram na EJA uma chance de retomar os estudos

Redação Jornal de Brasília

09/09/2026 19h01

adultos buscam se alfabetizar depois de trabalho

Foto: Pietro Rufino/Agência Ceub

Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
Por Eliza Lima

A dona de casa Maria Domingas Borges da Silva, 56 anos, busca recuperar o tempo perdido. Ela está perto de concretizar o sonho de se alfabetizar. A história de afastamento da escola dela também começou cedo. Ela conta que cresceu em um período em que as meninas eram preparadas para o casamento e para a maternidade.

Atrualmente, ela é aluna do Centro de Estudos Supletivos Asa Sul (Cesas), em Brasília, na etapa de alfabetização da EJA. Ainda jovem, ela queria frequentar a escola. Primeiro, encontrou resistência em casa com os pais e depois dentro do próprio casamento.

No Brasil, 4,9% de brasileiros ainda não sabem ler e escrever. Existem histórias de pessoas, como Maria Domingas, que interromperam os estudos ainda na infância, enfrentaram o trabalho precoce e encontraram na Educação de Jovens e Adultos uma oportunidade de retomar sonhos deixados para trás.

Direitos

No Brasil, esse direito está previsto na Constituição Federal. O artigo 205 estabelece que a “educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.”

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Foto: Pietro Rufino/Agência Ceub

Porém, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o percentual (4,9%) representa cerca de 8,4 milhões de pessoas. Entre elas, 58% têm 60 anos ou mais.

Os números ajudam a dimensionar o problema, mas não são suficientes para contar o que existe por trás deles. Para o professor Tupinambá Barros do Santos , pedagogo do Centro de Estudos Supletivos Asa Sul (CESAS), instituição que oferece a Educação de Jovens e Adultos (EJA), é preciso olhar para além das estatísticas.

“A gente nunca lembra que aquele número são pessoas.”

No caso de Maria Domingas, ela foi alvo de machismo, entre outras opressões. “Naquele tempo as mães preparavam as filhas pra casar serem esposas e mães, não tem oportunidade de estudar”

Entre essas pessoas, há estudantes que precisararam abandonar a escola ainda crianças para trabalhar, ajudar a família ou sobreviver em contextos que não permitiam a continuidade dos estudos.

Agora, décadas depois, eles retornam à sala de aula em busca não apenas de aprender a ler e escrever, mas de conquistar autonomia.

Quando estudar não era uma escolha

No caso da aluna Maria Domingas Viana, ela também era casada e queria estudar. Mas o pai dos filhos dela não deixava ir pra aula. Ela ainda tentou estudar um mês. “Quando eu chegava em casa, era muita confusão”

O relato de Maria se aproxima das trajetórias de outros estudantes da turma. Entre outros alunos entrevistados, todos relataram ter trabalhado desde cedo e interrompido os estudos por diferentes circunstâncias, como dificuldades econômicas, violência e responsabilidades familiares.

Trabalho

Para Marcos Antônio de Sousa Costa, 52 anos, a interrupção dos estudos aconteceu há 32 anos. Criado em uma realidade rural, ele conta que o trabalho ocupava o espaço que poderia ter sido destinado à escola. “A gente vivia mais pra roça que pro colégio”.

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Foto: Pietro Rufino/Agência Ceub

“Ou a gente comia ou, se fosse para o colégio, não comia”

Marcos começou a trabalhar aos sete anos de idade e não teve oportunidade de permanecer na escola. Décadas depois, o retorno à sala de aula ganhou um novo significado a partir de um incentivo dentro de casa: o filho, chamou o pai e a mãe para voltarem a estudar.

O reencontro com a escola também representa, para outros alunos, a retomada de um desejo antigo.

Outra aluna, Maria Júlia Ferreira, 64 anos, estudou até o primeiro ano na Bahia. Viúva recentemente, conta que chegou a Brasília ainda jovem e precisou trabalhar desde cedo. Criada por familiares e sem contato com os pais, começou a trabalhar aos 12 anos como empregada doméstica.

A experiência com o trabalho marcou a infância e a relação que ela teve com a escola. Em determinado momento, chegou a pedir à patroa que a matriculasse para estudar.

“Eu trabalho de graça pra senhora mas eu quero que a senhora me matricule na escola e ela falava bem assim”. O pedido foi negado. Não era prioridade para o patrão.

Antes disso, a própria necessidade de trabalhar já havia tomado o lugar da infância.

“Tinha que trabalhar pra não ser coisa que não presta então eu trabalhei, eu era tão pequena que eu subia no banco pra lavar as coisas”

Inspiração

Mais tarde, quando a mãe adoeceu, aos 17 anos, Domingas passou a conciliar o trabalho com os cuidados com ela. Depois da morte da mãe, continuou trabalhando, mas percebeu que precisava reconstruir a própria rotina. Foi nesse contexto que a filha perguntou se ela queria estudar. Maria Domingas não sabia nem por onde começar.

A filha decidiu tomar a iniciativa e matriculá-la.

“Quando ela voltou pra casa, disse que tinha me matrículado. Foi uma surpresa. Fiquei preocupada como pegar o ônibus. Aí, no primeiro dia, ela fez comigo o que eu fiz por ela: pegar na mão e levar na escola”

Hoje, a estudante encontra na escola uma possibilidade que durante boa parte da vida parecia distante. Aprender a ler, para ela, também significa poder registrar a própria trajetória.

“Eu quero contar minha história um dia ainda escrita para outras pessoas”, diz.

O retorno aos estudos, porém, acontece enquanto Maria mantém a rotina de trabalho como doméstica e cuida da família. Mãe de seis filhos, ela conta que todos concluíram os estudos.

“Saber que apesar da minha luta sair 4 da manhã voltar 7 da noite eu nunca neguei o estudo pra elas né. Eu sou muito orgulhosa e elas tem muito orgulho que criar filho não é fácil.”

Autonomia

Na vida cotidiana, a dificuldade de não saber ler aparece em situações que podem parecer simples para quem domina a leitura. Para Maria Domingas , aprender significa poder circular pela cidade, identificar lugares e reconhecer pessoas. Ir ao hospital.

A dificuldade também aparece na relação com os profissionais de saúde.

“O médico chega e você não sabe o nome dele”, lamentou.

A decisão de voltar para a escola, no entanto, nem sempre é compreendida por quem está ao redor. Maria conta que já ouviu pessoas questionarem sua escolha.

“Eu encontrei muitas pessoas falando que é um passo em vão”, lamentou.

O apoio do professor também aparece como parte desse processo. “Isso é bom quando alguém entende a dificuldade da gente e nos ajuda a atravessar”

Adultos

As histórias dos estudantes ajudam a dimensionar o papel da Educação de Jovens e Adultos para além da sala de aula. A modalidade atende pessoas que não tiveram acesso ou não conseguiram concluir a educação básica no período considerado regular.

Uma das políticas públicas voltadas a esse público é o Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e Qualificação da Educação de Jovens e Adultos (Pacto EJA), instituído pelo Decreto nº 12.048/2024. A iniciativa, construída pelo Ministério da Educação em colaboração com estados, Distrito Federal e municípios, busca apoiar ações de combate ao analfabetismo e de qualificação da EJA.

Entre seus objetivos, estão a superação do analfabetismo entre pessoas com 15 anos ou mais, a ampliação da aprendizagem ao longo da vida, a elevação da escolaridade, o aumento das matrículas na EJA e a melhoria das condições de oferta da modalidade.

Para quem chega à escola depois de décadas distante dos estudos, porém, a política pública ganha uma dimensão concreta. Ela se transforma em sala de aula, professor, colegas e, principalmente, na possibilidade de fazer coisas que antes dependiam da ajuda de outra pessoa.

“Quem não sabe… venha”

A alfabetização, para os estudantes da turma, não termina no aprendizado das letras. Ela aparece como uma possibilidade de independência, de acesso a serviços, de melhores oportunidades de trabalho e de realização de sonhos que foram adiados.

Marcos Antônio resume essa dimensão da autonomia em um convite para quem ainda não sabe ler e escrever: “Quem não sabe… venha. A pior coisa é sair e não saber pegar um ônibus. Ter que alguém ir com você.”

Para ele, voltar a estudar também representa uma tentativa de construir uma trajetória diferente daquela que teve quando era criança. “Eu agradeço muito ao meu filho”

O filho, de 11 anos, está na sétima série. O pai vê nele uma referência para o próprio retorno à escola.

“Meu filho ta sétima série. Eu queria pelo menos ter o estudo dele “

A falta de escolarização também deixou marcas em oportunidades que não pôde aproveitar.

“A gente não teve chance de estudar. Eu perdi a chance de servir o Exército“. Marcos chegou a Brasília aos 18 anos. Antes disso, decidiu sair de casa em busca de um futuro diferente.

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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