Camila Valadares
Enviada a Corrente (PI)
A família Fernandez Lustosa aguardava ansiosa a chegada da caravana do Rally dos Sertões. Também pudera: não é todo dia que a cidade de Corrente, no interior do Piauí, com pouco menos de 40 mil habitantes, recebe tanta gente de uma só vez. O circo da maior competição off-road da América Latina viaja com cerca de 1.600 pessoas, entre pilotos, mecânicos, organizadores e imprensa. Para os moradores do município, uma chance de faturar algum dinheiro prestando serviços à toda essa gente.
E era com isso que dona Amélia Lustosa sonhava. Ela e as duas filhas menores se ofereceram para lavar roupa dos ralizeiros. Com o trabalho de um dia, ganharam dinheiro para, segundo Amélia, garantir três meses de alimentação para ela, o marido, e os seis filhos.
Hoje, a caravana do Rally dos Sertões embarca rumo à cidade da Barra, na Bahia, quinta etapa da competição, que termina na próxima sexta-feira, em Porto Seguro (BA), após 3.878 km.
E o rali deixa saudades nas cidades por onde passa. Equipes com orçamentos milionários – algumas com verbas próximas a R$ 2 milhões – movimentam a economia das cidades por onde passam.
João Lustosa, marido de dona Amélia, é funcionário da Prefeitura de Corrente. Responsável pelos jardins do Parque de Exposições da cidade, ele tirou a terra do carrinho de mão para que a mulher pudesse lavar roupa. A mangueira foi emprestada. Antes mesmo dos competidores começarem a chegar, eles estavam instalados e prontos para lavar o máximo de peças possível.
Assim que os pilotos chegavam, os filhos tinham a missão de oferecer o serviço. Para casa blusa ou short, a lavagem era R$ 1. Para calcas ou cobertores, o preço subia para R$ 5. No fim do dia, a expectativa era de voltar para casa com
R$ 40 no bolso. "Isso dá para comprar arroz, farinha e leite por uns três meses. Hoje (ontem) nós estamos felizes demais", comemorou Amélia.
Para Raimundo Cleiton, de 19 anos, o domingo foi para vender picolés. "Foi tudo o que minha mãe que fez. Aproveitamos para guardar dinheiro para meu tratamento", contou o piauiense, que nasceu com lábio leporino. Ele tem dificuldade na fala e, de seis em seis meses, faz tratamento no Hospital Regional da Asa Norte, em Brasília.
Ontem, Raimundo Cleiton ganhou R$ 50. "Esse dinheiro vai me ajudar na passagem. Lá, e fico na casa das minhas irmãs. Mas preciso de dinheiro para pagar o ônibus".
Além deles, outros moradores de Correntes ganharam dinheiro. A cidade tem três hotéis. Para a maioria, o jeito foi alugar quartos nas casas dos moradores. A media de preço era de R$ 12, com café da manhã.