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45 anos sem Bertha Lutz: quem foi a cientista e ativista revolucionária

De acordo com estudiosas da vida e obra de Bertha Lutz, o legado dela, embora seja marcado de lutas, é pouco divulgado

Foto: Senado Federal / Divulgação

Malu Castro e Mayariane Castro
(Jornal de Brasília / Agência de Notícias UniCEUB)

Direitos ao voto, ao trabalho digno, à licença maternidade, a uma cadeira na sala de aula e à possibilidade de protestar contra qualquer retrocesso são inquestionáveis e que podem parecer corriqueiro à mulher do século 21. No entanto, essas garantias não surgiram de uma hora para outra. A luta e conquista de emancipação feminina são vitórias que têm as mãos de mulheres da primeira metade do do século 20. Entre elas, de uma paulistana chamada Bertha Lutz (1894-1976), que foi fundamental para que tudo isso ocorresse.

Nesta quinta (16), completam-se 45 anos da morte da bióloga, zoóloga, educadora, advogada e ativista que colaborou para mudar a história da mulher no Brasil. De acordo com estudiosas da vida e obra de Bertha Lutz, o legado dela, embora seja marcado de lutas, é pouco divulgado. “Bertha Lutz deveria ser divulgada nas escolas o tempo inteiro. Todas nós precisamos conhecer as lutas que fizeram com que a gente chegasse até aqui”, diz a bióloga Silvana Calixto, que é também museóloga do Instituto Adolpho Lutz, em São Paulo.

Pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, a bióloga Magali Romero Sá reforça que é necessário que toda a sociedade conheça a trajetória de Bertha Lutz em vários campos menos divulgados do que a luta dela pelo voto feminino. “Bertha Lutz foi a responsável, por exemplo, pela inclusão do discurso de igualdade de gênero na Carta da ONU, em 1945. Ela que conseguiu incluir a palavra ‘mulheres’ na carta.”

Magali Romero explica que Bertha lutou para que a mulher estudasse nas mesmas classes que os homens. “Tem uma mão dela em toda essa luta para que mulheres fossem pessoas livres e com direito à igualdade. Até hoje é uma luta. Mulheres chegam a ganhar menos do que os homens fazendo os mesmos serviços”. Para as pesquisadoras, essas conquistas estão relacionadas à firmeza que ela colocava nos discursos e debates. “Ela era muito combativa. Isso ela tem a influência dos pais (o cientista brasileiro Adolpho Lutz e a enfermeira inglesa Amy Flower) “, diz Silvana Calixto.

“Ela estava atenta às novidades dos outros países. Ela tinha uma versatilidade ímpar. Essa independência dela tem influência da mãe dela, que chegou a sair de casa para estudar. Com 21 anos, a mãe foi para o Havaí estudar, algo impensável para a mulher do século 19”.

Sufragista

Magali Romero recorda que a mãe dela era uma sufragista também. Ela foi uma pessoa à frente do seu tempo. “Ela tem enorme legado como cientista, com a pesquisa com os anfíbios e também sobre os tratados feministas. Na política, ela foi deputada federal. Até hoje, é uma luta das mulheres nesse campo que, mesmo cerceadas, conseguem trabalhar”.

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“Recusar à mulher a igualdade de direitos em virtude do sexo é renegar justiça a metade da população” Bertha Lutz

Faculdade em Paris
A ativista Bertha Lutz, conforme explicam as pesquisadoras, se formou em ciências naturais na Universidade de Paris em 1918, e posteriormente em direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1933. “Ela queria mesmo aprender com o pai”, diz Silvana Calixto. Em sua carreira como bióloga, ajudou a catalogar mais de 4 mil espécies de anfíbios, espécie na qual ela se especializou na faculdade, e foi de extrema importância para os estudos de botânica brasileiros.

Bertha foi criada na Europa, sua infância e adolescência foram no continente, e assim a cientista cresceu em contato com o modelo feminista e político do local. Quando retornou ao Brasil em 1918, Bertha prestou concurso público e se tornou secretária e pesquisadora do Museu Nacional do Rio de Janeiro.

Ela foi a segunda mulher a ocupar o cargo de serviço público no Brasil e isso gerou um choque de realidade na bióloga. “A Bertha lutou pela igualdade do voto, diminuição de carga de trabalho. Ela lutou, por exemplo, pela licença maternidade de 3 meses. Os direitos que nós temos hoje têm muito dela”, diz Silvana Calixto

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“Ela queria aprender com o pai. Ela pedia para ficar com o pai. Nas correspondências, ele dizia que não era para ela voltar ainda para o Brasil. Mas acabou voltando. Além de bióloga, Bertha formou-se em direito. Tinha facilidade com línguas”, afirma a pesquisadora do IAL.

As pesquisadoras entendem que ela abriu os olhos dos brasileiros para a situação da mulher. “As lutas sobre as questões de gênero têm muito do legado dela. Ela foi inteligente para convencer os políticos. Bertha Lutz não se casou nem teve filhos. Viveu pela luta e pela ciência. Seu irmão, Gualter, também não se casou e não teve filhos, e morreu em 1966.

Início da luta

Um ano após seu retorno ao Brasil, Bertha Lutz criou a Liga para Emancipação Intelectual da Mulher que foi o pontapé inicial para a criação futura da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF). Em 1921, a Liga iniciou a prática de enviar cartas aos políticos da época solicitando projetos que possibilitaram às mulheres o direito de voto.

No ano de 1932, o ex-presidente Getúlio Vargas instalou o novo código eleitoral que permitia o voto feminino no Brasil e assim, Bertha foi deputada da Câmara Federal em 1936, onde lutou pela igualdade salarial entre homens e mulheres, pela licença maternidade e redução da jornada de trabalho. Entretanto, em 1937, Vargas instalou o Estado Novo e fechou o congresso nacional, que afetou o direito ao voto feminino.

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Em 1945, a ativista foi enviada à conferência São Francisco, Estados Unidos que resultou na criação da Organização das Nações Unidas (ONU), onde de 850 delegados apenas 6 eram mulheres, e Bertha sendo uma delas lutou para que a carta da ONU incluísse a igualdade de gênero, e obteve sucesso. Já em 1965, ela viu o voto feminino ser igualado ao masculino, até então somente mulheres assalariadas podiam votar.

Bertha nos dias de hoje

A cientista escreveu dois livros, “Brazilian Species of Hyla” e “A função educativa dos museus” em 1973. Um ano antes de sua morte, em 1975, Lutz compareceu à ONU convidada pelo Itamaraty, para uma conferência do ano internacional da mulher. Antes de vir a óbito em 1976, Bertha doou seus acervos para o Museu Nacional, contudo esses documentos queimaram no incêndio catastrófico ocorrido em 2018. Atualmente, o acervo restante de Bertha Lutz continua sob a guarda da UFRJ, no Museu Nacional.

Em sua homenagem, o Senado Federal criou o Diploma Bertha Lutz que agracia mulheres que tenham oferecido contribuições relevantes para o direito da mulher e igualdade de gênero no Brasil. O projeto que deu origem ao diploma veio da senadora Emília Fernandes e foi consolidado em 1998. Para a decisão de quem deve receber o diploma, é feita, anualmente, uma sessão no Senado especial para esse debate e são escolhidas cinco mulheres para receber o Diploma Bertha Lutz. As indicações e a escolha das premiadas é feita pelo Conselho do Diploma Mulher-Cidadã Bertha Lutz, composto por um representante de cada partido político com assento no Senado Federal.

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“Eu queria reforçar que as mulheres hoje continuam na luta. Temos várias deputadas, várias mulheres em papéis importantes que estão lutando pelos direitos das mulheres. A luta ainda continua”, reafirma Magali Romero Sá.

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Em 2021, a HBO lançou o documentário “Bertha Lutz — A mulher na carta da ONU” que conta sobre o importante legado da bióloga e ativista feminista brasileira em relação às questões de gênero, para que fossem contempladas na carta base da Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo as diretoras do filme, a argelina Fatima Sator e a norueguesa Elise Luhr Dietrichson, em entrevista, a ideia do documentário surgiu a partir das pesquisas de ambas sobre Bertha ao encontrarem uma série de cartas escritas pela bióloga.








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