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Indígenas denunciam servidor por áudio em que sugere envenenar água após eleição; homem é afastado

“Já falei, tem que pôr veneno na água, matar essas pragas na água”, diz um trecho dos áudios que circulam nas redes sociais

Redação Jornal de Brasília

28/10/2026 18h28

tacuru

Foto: Reprodução/Google Street View

JORGE COSME
FOLHAPRESS


Um servidor do município de Tacuru (MS) foi afastado após gravar um áudio sugerindo envenenar a água após o resultado da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A denúncia foi feita por indígenas, que dizem que a ameaça seria direcionada aos moradores da reserva Sassoró, na cidade.

“Já falei, tem que pôr veneno na água, matar essas pragas na água”, diz um trecho dos áudios que circulam nas redes sociais.

Em outro trecho, um homem diz que “pode morrer de ajudar esses capetas dentro do que tiver aí, o homem se mata de ajudar um, ajudar outro, e esses cão fazem isso aí”.

Em publicação em suas redes sociais, o prefeito de Tacuru, Rogério Torquetti (PSDB), diz que um processo administrativo será aberto e que o servidor será afastado por orientação da equipe jurídica.

O prefeito afirma que o homem é um “excelente servidor” e que não trabalha com caminhão-pipa ou abastecimento de água. “Esse servidor, um excelente servidor, inclusive, trabalha na infraestrutura, com caminhão caçamba”, diz.

O gestor também diz que o funcionário não especificou quem deveria ser envenenado. “O servidor dizia que teria que por veneno na água e envenenar todo mundo, sem citar nenhum tipo de gente.”

Em manifestação anterior, Torquetti havia dito se tratar de um mal-entendido. “Se expressaram mal ontem na hora de euforia, por conta talvez do álcool”, avaliou.

O prefeito fez campanha para Flávio Bolsonaro (PL). “A democracia é isso aí. Um ganha, o outro perde. Perdemos. Não vamos brigar”, disse após o resultado.

O vereador e cacique da Aldeia Sassoró, Ivan Montiel (PSDB), fez uma publicação nas redes sociais dizendo que o áudio demonstra ódio e preconceito contra a comunidade indígena.

“Nenhum povo pode ser ameaçado, intimidado ou discriminado por exercer livremente seu direito ao voto”, diz o cacique. “A escolha política é um direito de todos. A vida, a dignidade e a segurança dos povos originários devem ser respeitadas”, completa.

O governo federal, através dos ministérios dos Povos Indígenas, dos Direitos Humanos e da Cidadania e da Igualdade Racial, afirmou que vai pedir a investigação das denúncias de violência relacionadas aos povos indígenas, comunidades quilombolas e povos de terreiro após o segundo turno das eleições.

“Os órgãos estão em diálogo permanente, por meio de uma força-tarefa, para que os casos sejam investigados de forma célere e os responsáveis identificados e responsabilizados por possíveis crimes”, afirma a nota.

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) tem denunciado a escalada da violência contra povos originários no Mato Grosso do Sul após a vitória de Lula.

O Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul instaurou procedimentos para investigar ataques, hostilidades e intimidações contra comunidades indígenas no estado. O órgão afirmou ter distribuído frentes regionais de investigação para apurar as denúncias.

Sobre o relato de homicídios motivados por conflitos políticos em Naviraí, o MPF diz que a investigação conduzida pela Procuradoria da República no Município de Dourados desmentiu os boatos.

Lideranças das comunidades kurupi e mboreviry negaram a ocorrência de ataques a seus integrantes, “relatando apenas notícias genéricas sobre um crime na área urbana”, acrescenta o MPF.

Já a 4ª Promotoria de Justiça de Naviraí e a Prefeitura explicaram que o caso registrado na cidade foi uma tentativa de duplo homicídio decorrente de desentendimento familiar e interpessoal, sem qualquer motivação política ou étnica. Autoridades confirmaram que fotos do crime circularam na internet de forma adulterada e fora de contexto.

O MPF acrescenta que análise de documentos confirmou que as vítimas nem seus genitores têm histórico de pertencimento indígena. Por precaução, um ofício foi expedido à Secretaria de Saúde Indígena para checagem.

Em Tacuru, o MPF expediu ofício urgente com prazo de 48 horas para que a prefeitura preste informações sobre autoria dos áudios e medidas adotadas para garantir a segurança e a manutenção do atendimento essencial prestado às comunidades. O órgão recomenda que, confirmado o envolvimento de servidores, haja abertura de processo disciplinar e afastamento cautelar.

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