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Morando Fora

Não tenha vergonha de sentir saudades

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Você, migrante, que mora fora do Brasil e sente saudades, tem todo o direito de vivenciar o sentimento. Sofre porque é humano, apartado do seu grupo social antigo, em uma nova terra, desesperado para conhecer gente nova, aprender uma língua ou o simples caminho para o supermercado.

Ir embora envolve deixar para trás, engloba perdas, que vem com inúmeros ganhos, caso a mudança tenha sido feita por livre e espontânea vontade. Mas o fato é que envolve eliminação, ausência, mesmo que chegue por uma promoção, um casamento, uma melhoria financeira, uma vida cheia de promessas.

Em um texto super interessante, que achei no jornal inglês The Guardian, o editor-geral Gary Younge dava o seu depoimento sobre ser migrante: “envolve deixar coisas para trás. Mesmo quando você é privilegiado, como eu sou, e se muda porque quer, você sente isso como eu sinto. Os migrantes, quase por definição, movem-se com o futuro em mente. Mas suas jornadas inevitavelmente envolvem extirpar parte de seu passado. Não são os trabalhadores que emigram, mas as pessoas. E sempre que eles se movem, deixam parte de si mesmos para trás”.

Em seu desabafo, eternizado em um editorial em 2015, ele vai além: “mas isso não quer dizer que não tenha preço. Eu tenho escolhas que a maioria dos migrantes do mundo não tem. Eu posso voltar. E estou feliz onde estou. Esta não é uma história triste. Mas de vez em quando, quando menos espero, as lágrimas surgem”.

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Segundo a professora de história da Universidade Estadual de Weber, nos Estados Unidos, e autora do livro Saudades: uma história americana, Susan Matt, a intensa mobilidade dos dias de hoje tem custos psicológicos, mas poucos apresentam coragem de assumir. “As pessoas abraçam a visão cosmopolita que dita que indivíduos podem e devem sentir-se em casa em qualquer parte do mundo e que não há necessidade de se estabelecer laços em nenhum lugar”, escreve a autora.

Pois a entrada a um mundo novo bate em duas necessidades básicas do ser humano: a socialização e a comunicação. Uma garante a outra. Se a socialização é intrínseca ao ser humano, a comunicação é a base dela. O homem é o único animal que se manifesta por meio da comunicação verbal. Por meio de sua fala, ele pode expressar empatia, emoções, sentimentos, ideias, intenções e verbalizar seus sonhos, desejos e ideologias. E não é aí que se encontram os dois, e não somente um, dos calcanhares de Aquiles da migração?

Dessa forma, é impossível fugir do sentimento. E isso vale para as mais diversas idades. Estatísticas sinalizam que cerca de 70% dos estudantes irão experimentar nostalgia nos mais recentes dias da universidade. Estudo conduzido pela agência de pesquisa voltada para o público jovem, a britânica YouthSight mostra que a sensação atinge pelo menos um terço de todos os universitários britânicos, que se sentiram deprimidos ou com tristeza por estar longe de casa.

Eu mesma já senti muitas saudades. Hoje, depois de 14 anos morando fora, cresci muito com a experiência e aprendi a separar os momentos. Quando no Brasil, aproveito ao máximo os amigos, a família, o calor. Acho até que os valorizo muito mais do que quando estava próxima. Eu aprendi que não posso ter tudo ao mesmo tempo e gosto do que vivo aqui na Suíça. Tento não comparar muito e não pensar de maneira saudosa. É um exercício mental: eu valorizo o que vivi, sem desvalorizar o novo e o atual. Parece complexo e é, acho que envolve treino mental, crescimento interior, maturidade. Mas vale a pena, porque traz calma, clareza de sentimentos e mais felicidade.

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Dicas sobre como amenizar a saudade – vale para todas as idades:

  • Converse com amigos, com um psicólogo ou com um coach intercultural sobre como se sente
  • Mantenha contato com os que ficaram
  • Encoraje a visita de amigos e familiares
  • Aceite que sente saudades. É normal; pessoas precisam ter uma rede de contatos que dê suporte. Não esconda o sentimento
  • Seja realista sobre expectativas sobre a nova vida ou fase
  • Conheça pessoas por meio de associações ou clubes de esportes
  • Valorize os recém-adquiridos amigos e esteja aberto a esses novos conhecimentos
  • Dê a si mesmo tempo para se adaptar; não seja tão duro consigo mesmo
  • Escreva três novidades ou aspectos dos quais você deveria ser grato todas as noites e três pontos que se esteja esperando com ansiedade ou que queira vivenciar
  • Dê-se crédito pelo que está fazendo, pelo que irá almejar ao sair de sua zona de conforto que era a sua casa. Principalmente porque saudade pode afetar a sua autoestima
  • Permita-se gostar do novo lugar, mesmo que sinta falta do seu antigo lar
  • Visitar a família ou telefonar frequentemente tem dois lados: pode ser bom ou ruim. Experimente para descobrir qual se encaixa melhor no seu perfil
  • Cuide do seu bem estar físico; não se negligencie. Isso significa dormir e comer bem, além de se exercitar
  • Prepare-se antes de sair do país para os desafios que ser um estrangeiro

Fontes: Opinião da escritora, Universidade de Warwick e Universidade de Cambridge


Liliana Tinoco Bäckert é jornalista e tem mestrado em Comunicação Intercultural pela Universidade da Suíça Italiana. Carioca, tem dois filhos, é casada com um alemão e vive naquele país desde 2005, onde também trabalha como treinadora intercultural independente. Decidiu transformar o próprio choque cultural em combustível para ajudar outros brasileiros que já vivem fora ou que pretendem se lançar nessa aventura globalizada.

 




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