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Morando Fora

Entre quibes e buracos de bala, somos todos um pouco libaneses

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Acabei de chegar de uma viagem de dez dias ao Líbano. Aceitei o convite da Universidade da Suíça Italiana (USI), de Lugano, onde concluí meu mestrado em Comunicação Intercultural em 2016. Fui participar de uma semana de aulas do módulo sobre Migração e Diversidade, na Universidade Americana de Beirute, com os alunos da oitava edição do mesmo curso que fiz.

Além dos inúmeros quibes, tabules e homus que devorei praticamente em todos os jantares, vi um país interessantíssimo, com histórias de guerras e conflitos e suas consequências hoje. Uma terra de gente simpática, generosa, que adora os brasileiros, mas que nem sempre se dobra aos apelos de paz ou de misericórdia.

Apesar de tão longe cultural e geograficamente do Brasil, não se engane. De certa forma, estamos muito ligados àquele país, talvez até mais que a muitas nações europeias que tenham formado nossa diversa sociedade no passado.

 

O Líbano está no Brasil

Não sei quantos libaneses existem no Planeta Terra, vivem no Líbano hoje cerca de 4,5 milhões; 8 milhões estão no Brasil e outros muitos pelo mundo. Meu guia de viagem, o Khaled, me confidenciou que praticamente todo libanês tem um tio ou um primo que mora no Brasil. “Foi um ótimo lugar no passado para se ganhar dinheiro”, explica.

A história libanesa é complicada para nós, que vivemos tão longe e tão absortos em nossos problemas internos. A nação tem passado por conflitos há décadas, mais ou menos como o nosso Brasil, só que os deles são armados. Vivemos anos de pujança, seguidos de tempos de crise. Para quem vem do Rio de Janeiro, como eu, Beirute segue um curso parecido. Há momentos de paz, como o que Graças a Deus reinava quando lá estive neste janeiro, e épocas de guerra. Aí já começa a coincidência, dividimos um estilo de vida.

Assim como nossas comunidades trazem cicatrizes da violência, com marcas de balas nas paredes, o país carrega os mesmos sinais. Cada um de um conflito diferente.

Ao contrário de querer esconder, como parece ser o propósito da sensível mureta que separa a Linha Vermelha das favelas que a margeiam, existe um movimento no país para que não substituam alguns prédios baleados e bombardeados.

A importância da preservação da história

Em uma das visitas que fizemos, me deparei com a história de Mona El Hallak, uma arquiteta de Beirute que luta, desde 1994, para manter a memória da cidade por meio da preservação do Edifício Barakat. O prédio é conhecido como Beit Beirute e há pouco foi transformado em um museu.

Levados pela Universidade até Mona El Hallak, muitos de nós não pudemos esconder a emoção diante da explanação da arquiteta sobre como ela lutou pela preservação do prédio, que é sua bandeira, tanto de vida quanto profissional.

“Vivi parte da minha infância me escondendo no banheiro, junto com minha família, durante os bombardeios a Beirute na guerra civil. O banheiro era pequeno, mas ficava no centro da nossa casa. Por ser considerado seguro, quem estivesse com a gente corria para o pequeno cômodo e ali ficávamos, até tudo se acalmar. A minha maior recordação daquela época eram os olhos da minha mãe. Diferentes dos meus, que são escuros, ela tem um olho azul e outro verde. Durante as bombas e tiros, eu ficava mirava seus olhos e me concentrava nessa diferença. Eu tinha também muito medo do barulho, mas ela dizia que o som estridente era bom, porque nos mostrava que estávamos vivos. Essas memórias de guerra são muito importantes, fazem parte da nossa história e talvez nos ajude a não cometer o mesmo ato”.

Para Mona, o prédio simboliza tudo isso, a dor, as histórias, as vidas de inúmeros locais que se perderam, seja nos pertences que se foram em um bombardeio entre os inúmeros que castigaram a capital entre 1975 a 1990.

 

Photo Mario

Mona entrou no prédio pela primeira vez em 1994, pouco tempo depois de sua graduação em Arquitetura. E eis que encontra uma coleção de 8 mil negativos do estúdio fotográfico que ali funcionava antes da Guerra, o Photo Mario.

No momento em que se deparou com fotos de inúmeras crianças, senhores, homens, mulheres, habitantes daquela Beirute pré-guerra, é consumida pela ideia da memória coletiva de Beirute. Para ela, os negativos são cápsulas temporais individuais e a fotografia uma “tecnologia da memória”.

Mesmo o Beit Beirut, uma maravilha arquitetônica originalmente projetada em estilo neo-otomano por Youssef Aftimos em 1924, não é nada sem os contos de seus habitantes. Assim ela dá início ao Projeto Photo Mario.

Parte do prédio já tinha sido desconstituída, mas Mona conseguiu manter vários buracos de bala, inumeros detalhes que lembrassem pelo o que passou.

Infelizmente Beirute não teve muita sorte quanto à preservação da memória. Uma grande e importante parte da cidade foi reconstruída, edifícios modernos e altos deram lugar às casas e prédios construídos no início do século XX, quando a cidade tinha um ar mais romântico.

A reconstrução, em alguns momentos, se deu tão desenfreada e sem planejamento, que a cidade hoje carrega em sua paisagem prédios que não combinam em nada com a Beirute de outrora, uma enormidade de edifícios vazios, seja pelo investimento feito no pós-guerra acreditando no boom da economia que não chegou, ou por inúmeros problemas com heranças.

A caótica reconstrução

Já que o país precisou ser reconstruído rapidamente, detalhes como calçadas para pedestres, ciclovias e transporte público não foram previstos. O trânsito de Beirute é caótico; as calçadas, quando existem, são verdadeiros exercício de contorcionismo, pula buraco e anda um pouquinho na rua. Como o país tem vividos inúmeros conflitos, ora com o Hezbollah, ora com os israelenses, ora entre os próprios libaneses, além de muitos outros, a reforma estrutural de infraestrutura não termina.

A energia elétrica é um exemplo. Todos os dias o país fica sem energia por alguns minutos. Tempo em que há troca de gerador. Não há muitos ônibus, metrô e trem inexistem. A população se vira em vans, motos com crianças sem capacete, inúmeros carros, muitos bem velhos.

Vi uma Beirute moderna, com mulheres que se vestem como nós Ocidentais. Adoram maquiagem, botox e são grandes consumidoras de cirurgia plástica. Há também as muçulmanas mais ortodoxas, que cobrem todo o rosto, e as mais modernas, que só cobrem os cabelos e usam maquiagem.

O Líbano é um mosaico de diferentes realidades, religiões e povos. Assim como sua política fracionada, dessa forma é a sociedade.

Eu teria muito mais para contar, sinto-me privilegiada pela oportunidade. É sempre muito bom ver outras sociedades e poder comparar com nossa realidade. Deixei o país no dia 29 de janeiro. De volta à Suíça, tenho saudades do ameno inverno ensolarado e de temperaturas de 17 graus, a simpatia de um povo e do olhar direto nos olhos, gesto que não vivencio aqui na estável, fria e rica Zurique.


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