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Morando Fora

É melhor sofrer no Brasil que no exterior

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Expectativas irreais, ingenuidade, falta de planejamento e preparação para um passo tão grande na vida têm um peso enorme quando se trata de deixar o país de origem. O resultado é que muitos não aguentam os desafios de viver como migrante, querem voltar, mas nem sempre conseguem por meios próprios. É o caso de inúmeros brasileiros que querem retornar de Portugal. A mídia comprova: cresce o número de conterrâneos que pedem ajuda para voltar. Além da exploração da vulnerabilidade por parte de empresários desonestos, discutidas aqui na coluna na semana passada, outros fatores entram nesse processo.
Victor Freitas, que administra a página no Facebook Portugal que Ninguém Conta, explica bem a situação. “Tem muita gente vindo para Portugal sem o menor preparo. A mídia tem veiculado nos últimos anos propaganda de um paraíso, mas não é bem assim. Isso só fez aumentar o valor dos aluguéis e o número de pessoas insatisfeitas”.
Os brasileiros correspondem a 20% dos estrangeiros morando naquele país, mas representam 86% dos pedidos de auxílio para voltar para casa, segundo dados da Organização Internacional para Migrações (OIM). Apenas nos meses de janeiro a junho de 2018, foram 222 retornos financiados, bem acima do ano passado, cujo número atingiu 232 auxílios.

Uma nova posição social
Muita gente compra a ideia de tentar a vida fora do país, mas não imagina que terá que lavar privada para sobreviver. Essa nova posição social não é compreendida por todo mundo, simplesmente porque pessoas são diferentes e os limites da tolerância também.
A falta de aceitação dos diplomas brasileiros na Europa e em outros continentes é uma dura realidade que cai destruindo sonhos de quem vai tentar a sorte além-mar. Dessa maneira, quem trabalhava como engenheiro ou professor universitário, vai muitas vezes ter que se virar para pagar o almoço. Nessa hora, vale qualquer trabalho que garanta a subsistência. Geralmente, pessoas que vêm de uma classe média, que nunca fizeram um serviço doméstico no Brasil, têm mais problemas. “Quando me vi fazendo faxina em restaurantes para pagar o aluguel, quis ir embora. Prefiro o trânsito de São Paulo”, confessa um engenheiro que não quis se identificar.
É preciso comentar que, nesse quesito, entram a ideia arraigada da cultura brasileira de que nem todo trabalho deve ser valorizado. Limpar a privada, nessa teoria, seria considerado uma atividade de menor valor. Então, para essas pessoas, que sempre tiveram uma empregada e babá, a realidade perde totalmente o brilho.

Falta de planejamento
Um outro fator importante é a falta de planejamento dos detalhes. É não contar com o contratempo, que nesse caso, seria não conseguir trabalho rapidamente, encontrar apartamento ruim, bem diferente do da foto. E se perguntar, bem no fundo, se você estaria disposto a largar o conforto da sua casa e família, para trabalhar em funções como faxineira ou entregador de pizza. Conseguiria também se adaptar a dividir quarto e banheiro com outras pessoas? Ficar longe da família em datas como aniversários, natal, ano novo?
Em entrevista ao site UOL, a assistente de Projeto da OIM Lisboa, Patrícia Cunha, explica que os requerentes ao retorno querem desistir motivados pela dificuldade em regularizar a situação, pelo desemprego, ou trabalho precário associado, e consequentes dificuldades subsistência no país.
De acordo com o site Já fez as malas.com, para que não seja pego de surpresa, o ideal é que o migrante aprenda a calcular os seguintes custos que terá no início. Para evitar sufoco e problemas depois, a sugestão é a de que se pense nos gastos de, pelo menos, nos dois primeiros meses:

  • três meses de aluguel (aqui inclui o mês de chegada e o caução, que devem ser pagos no início, e o segundo mês)
  • dois meses de contas (água, luz, internet, TV, telefone) = cerca de €$ 200
  • €$ 80 a €$ 120 para alimentação x 2 meses = €$ 160 a €$ 240 (sabendo que no primeiro mês você gastará absurdamente mais que nos demais, pois não conhece o melhor supermercado, a melhor marca, acaba comendo mais vezes fora, compra produtos de limpeza etc).
  • €$ 35 em média para transporte público x 2 meses = €$ 70
  • €$ 100 despesas extras (como compra de lençóis, edredom, coisas para casa, etc.)

Ou seja, uma média interessante de dinheiro para ter já com você quando sair do Brasil seria de €$ 530 a €$ 610 mais os três meses de aluguel. A parte da renda, como é chamado o aluguel por lá, fica difícil de estimar pois varia de acordo com o que está procurando: casa no centro, fora do centro, com um quarto, dois, ou apenas um quarto em uma república, com ou sem mobília, com ou sem contas inclusas, etc.
Claro que nem todo mundo migra nessas condições. Existe uma grande quantidade de brasileiros que migram aposentados, compram imóveis, com direito ao Golden Visa, que é Programa de Autorização de Residência português, criado em 2012, para cidadãos não europeus e que possam investir no país.

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Expectativas irreais
Sonhos muito longe da realidade podem comprometer todo o planejamento do projeto Morar Fora e demonstram ingenuidade. Não é porque o seu vizinho conseguiu ganhar dinheiro que você também vai se dar bem e vice versa. Cada caso é individual, mas em geral, quem melhor se planeja e mantem o foco nas pequenas conquistas, tem mais probabilidade de sucesso.
“Não dá para chegar em outro país achando que vai ter as mesmas chances dos locais. Não, há que ter humildade para aceitar as dificuldades e que tudo será conquistada passo a passo. É preciso cair na real. Somos estrangeiros em terra dos outros”, explica M.N., brasileira que vive em Braga e não quis se identificar. Para o mineiro O.S., que também preferiu se manter anônimo, é preciso exercitar a humildade. Ele, que fugiu da violência das favelas e do desemprego de dois anos, diz que está pensando em requerer os serviços de ajuda ao retorno: “Cheguei à conclusão de que é melhor sofrer no Brasil que longe da minha família”.


Liliana Tinoco Bäckert é jornalista e tem mestrado em Comunicação Intercultural pela Universidade da Suíça Italiana. Carioca, tem dois filhos, é casada com um alemão e vive naquele país desde 2005, onde também trabalha como treinadora intercultural independente. Decidiu transformar o próprio choque cultural em combustível para ajudar outros brasileiros que já vivem fora ou que pretendem se lançar nessa aventura globalizada.

 




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