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Morando Fora

A cultura do descaso

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O ano de 2019 começou mal para o Brasil. O fim de 2018 já prometia: violência no Ceará; algumas poucas semanas de calmaria, vem o mar de lama em Brumadinho. Sem qualquer respiro, as pessoas ainda estavam chocadas com o que acontecia em Minhas Gerais, e chegam as chuvas torrenciais no Rio de Janeiro, que já tem seu drama de brutalidade diária e carrega nas costas os primeiros lugares no ranking de segurança mundial.

Mas eis que o destino revela planos ainda mais ousados para a Cidade Maravilhosa. A Ciclovia Tim Maia apresenta problemas de novo e vê mais um seu pedaço desmoronar. Isso sem mencionar as pessoas que morreram pela chuva e o trágico incêndio no Ninho do Urubu, tudo na mesma semana.

Será que Deus não quer mais ser brasileiro? Depois de alguns anos difíceis de crise econômica, as pessoas quase se matando em uma eleição presidencial polarizada e agora isso.

Não moro mais no país tropical, que parece não ser mais abençoado, mas continua lindo por natureza, pelo menos fora do eixo Brumadinho e Mariana e de todas as comunidades paupérrimas que fazemos questão de manter e de não ver.

Mas se tem uma coisa que agradeço, nesse momento, é não morar no meu país, apesar de amá-lo, ter orgulho da minha identidade e lamentar os acontecimentos.

Quando eu vejo essas notícias repetidas, algumas ano após ano, como as enchentes e deslizamentos de verão, que acontecem desde que eu era criança, me dá nos nervos. E aí eu me pergunto: por que será que aqui na Suíça não passa esse tipo de coisa? Temos temperaturas bem baixas, as ruas se enchem de neve. O verão também traz fortes chuvas, mas os rios limpos que margeiam cidades importantes raramente transbordam, o sistema ferroviário que corta o país transporta uma grande parte da população atrasa mas nem tanto.

Tenho a impressão de que a maioria do se propõe dá certo. As pistas são abastecidas de sal para os carros não deslizarem. Vida normal, mesmo que abaixo de zero. Até as obras que eles fazem são cumpridas no prazo. Seria Deus mudando de lado?

Problemas e tragédias também acontecem por aqui. Quando eu cheguei, em 2005, houve uma enchente no verão próximo ao local onde eu morava. Algumas casas foram invadidas pela água. Logo houve uma obra em volta do rio, desde então nunca mais ouvi falar de problema semelhante.

Em 2005, a SBB – a companhia suíça de trens – sofreu um blackout e ficou totalmente sem energia. Caos. 200 mil viajantes ficaram presos – muitos até em túneis. Foram investidas montanhas de dinheiro e o problema não se repetiu. A sociedade helvética é cheia de mazelas, como qualquer outra. Carrega alto índice de suicídio, o uso de drogas é alto, há avalanche nas montanhas no inverno, o país é pobre em recursos naturais, 70% do território fica em montanhas. Mas o que mais chama a atenção é a não repetição dos erros. Se deu errado assim, façamos de outra forma – parece ser a máxima.

Talvez esteja aí uma das chaves do sucesso. Errar uma vez é humano, já duas vezes… Acredito que nesse ponto, além da vontade política, entre a questão cultural. De acordo com o inglês Richard Lewis, um dos papas do Interculturalismo no mundo, entre os valores suíços, estão a pontualidade, o excesso de seriedade, quase obsessão por pontualidade e segurança, precaução, honestidade, pragmatismo e perfeccionismo.

Ao contrário, os valores brasileiros baseiam-se na compaixão, na grandiosidade, no patriotismo, no otimismo, na flexibilidade, na contagem do tempo sem grandes amarras e na capacidade de quebrar regras. Some-se a isso uma autoconfiança no futuro e em suas orações. Dessa forma, a nação vem sobrevivendo a cada desgraça com enorme resiliência.

Como o prefeito Crivella acredita na segurança da ciclovia, como o país ainda tem 45 barragens prestes a apresentar problemas, como até o fim do verão muita chuva ainda irá varrer as cidades brasileiras e como muitas boates como a Kiss e o Centro de Treinamento do Flamengo ainda funcionam sem devida autorização, o brasileiro vai vivendo. Talvez já desacreditando que Deus seja mesmo brasileiro.


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