A tenista brasileira Beatriz Haddad Maia se recuperou de contusões graves, trocou de técnico e atingiu a maioridade em 2014. Depois de uma temporada de novidades, a paulista acredita ter retomado o nível de jogo que tinha há um ano e agora pensa nos Jogos Pan-americanos de Toronto 2015 para dar novo salto na carreira.
A principal mudança foi a de técnico. Em agosto, Bia encerrou um trabalho de quase três anos com Larri Passos e começou a treinar com Marcus Vinicius Barbosa, o Bocão, que se separou da equipe do ex-treinador de Guga para abrir a própria academia. Na época, o mentor do tricampeão de Roland Garros estaria sobrecarregado trabalhando também com Thiago Monteiro, o promissor Orlando Luz e a austríaca Tamira Paszek.
A ruptura com Larri foi profissional, mas Bia ainda mantém contato com o antigo treinador e credita a ele parte do sucesso no trabalho com Bocão e a rápida evolução no segundo semestre de 2014, como contou nesta entrevista à Gazeta Esportiva. Nos últimos meses, a tenista trabalhou para retomar o ranking e o nível de jogo que apresentava em 2013.
Considerada um prodígio do tênis nacional desde a infância, Bia teve sua evolução no circuito mundial interrompida no ano passado por duas contusões consecutivas. Quando os pontos dos últimos torneios da temporada forem contabilizados, ela atingirá a 241ª colocação do ranking, a melhor de sua carreira, mais de 300 postos à frente do 586º, que ocupou em julho.
Gazeta Esportiva: Você parou de trabalhar com o Larri este ano. Qual a importância que ele teve na sua carreira?
Bia: O Larri foi o cara que me fez decidir o que queria da vida. Ele me ajudou a tomar algumas decisões como mulher. E já ajudou muito o tênis, tentou de todas as formas. Quase todos os brasileiros que foram top passaram pela mão dele. Para mim é um ídolo e foi um paizão durante muito tempo. Eu o admiro e respeito demais. Pena que não seja reconhecido do jeito que deveria aqui no Brasil. Só tenho a agradecer.
Gazeta Esportiva: Como foi decidido o fim do trabalho entre você e o Larri?
Bia: Supertranquilo. Nós conversamos tanto para o meu lado quanto para o dele. Ele não poderia me ajudar mais como eu queria e eu não iria poder pagá-lo. A motivação não foi financeira, mais saiu um acordo tranquilo para os dois. Ele está com as filhas nos Estados Unidos, em outro momento, e eu queria um preparador físico e um treinador privados para mim. Mas fui jogar agora em Captiva Island e almoçamos juntos. As filhas deles são irmãs para mim e falo com ele até hoje, nossa relação é bem diferente.
Gazeta Esportiva: O Thiago Monteiro disse que o Larri ficou com menos tempo livre depois que retomou o trabalho com a Tamira Paszek. Na sua decisão pesou o fato de ele não estar mais tão disponível?
Bia: Não, lá na academia eles dividem bastante. Tem outros treinadores também. Como eu estava viajando com o Larri, estava sobrecarregando muito porque ele ainda tinha o Orlandinho, o Thiago, não podia se dividir em sete, né? Ele precisou tomar uma decisão e tenho certeza que está bem e a gente melhor ainda. Nada é por acaso.
Gazeta Esportiva: Você teve uma temporada de recuperação no circuito mundial feminino, saindo de duas contusões graves do ano passado. Tinha ideia do que pretendia alcançar em 2014?
Bia: Foi um ano muito acima das minhas expectativas em relação a resultado. Eu terminei o passado sem nada de sensibilidade na perna direita, sem força, e mesmo este ano estava mancando muito para andar ou correr. Superar isso foi a maior vitória do ano. Além disso, cheguei ao nível de jogo e resultados que estava em 2013 quando viajei à Europa com o Larri. O mais importante foi saber que tenho condições para enfrentar o restante das meninas em qualquer circunstância.
Gazeta Esportiva: Foram duas lesões consecutivas que te afastaram das quadras. Você jogou dois torneios no segundo semestre de 2013 e voltou ao circuito apenas em fevereiro…
Bia: Em julho do ano passado escorreguei na quadra em Campinas e quebrei o ombro. Aí fiquei até outubro com o braço imobilizado. Não podia fazer nada: corrida, aeróbico, abdominal, nada. Por isso, quando voltei a jogar deslocou um disco da coluna e tive que operar porque afetou o nervo ciático. Perdi a força e a sensibilidade da minha perna direita. Sofri bastante, foram três ou quatro meses bem duros de fisioterapia.
Gazeta Esportiva: Você não tinha um histórico de contusões. Como foi encarar todo esse período afastada?
Bia: O mais importante foi a base emocional, minha vó e o restante da família sempre estiveram ao meu lado. O primeiro mês foi o pior porque você é uma atleta e vira sedentária. E foi bem na semana do Aberto dos Estados Unidos, então via as meninas da minha idade e com ranking parecido ao meu jogando lá. Putz, foi uma pena. Mais o psicológico que pegou. Mas no fundo depois foi uma coisa muito boa porque amadureci muito, pensei sobre a vida e convivi mais com minha família e amigos. Foi um aprendizado.
Gazeta Esportiva: Você voltou a jogar em fevereiro deste ano, já em dois torneios grandes, os WTAs do Rio de Janeiro e Florianópolis. Depois disputou alguns ITFs, mas sua primeira vitória veio só em abril. Foi mais difícil do que você esperava?
Bia: Fiz a pré-temporada na academia do Larri, joguei no Rio, Florianópolis e alguns outros torneios, mas não fui bem. Continuei firme, treinando, fui aos Estados Unidos com o Larri e chegou um momento em julho em que decidi ficar três meses na Europa para descobrir o que precisava para enfrentar as meninas, ver como estava meu nível de jogo. E isso foi muito importante para melhorar depois.
Gazeta Esportiva: A lesão e as dificuldades no retorno te fizeram amadurecer, mas em 2014 você também completou 18 anos de idade. Muda algo para uma atleta chegar à maioridade?
Bia: Esse período entre os 16 e 20 anos, de transição, é muito complicado. No tênis a gente é muito precoce, né? É adolescente se tornando adulto. Tem mais responsabilidade e saindo do juvenil todo mundo vai dar a vida para ganhar. O que vale é o resultado porque tem premiação em dinheiro, pressão, patrocinadores, todos esses fatores que contam. Sempre procurei ficar tranquila, saber que faço as coisas certas e que o resultado é fruto do trabalho. O mais importante é o dia a dia.
Gazeta Esportiva: Você é apontada como prodígio do tênis nacional desde que era muito jovem. Chegar aos 18 anos significa uma pressão extra por ter que corresponder a aquela expectativa?
Bia: Nada. Isso é muito da cultura do nosso País. No tênis a referência é muito o Guga, e todo o mundo espera que o próximo a surgir seja o novo Guga, ou melhor. Para quem não conhece foi muito normal ele chegar e fazer tudo aquilo, mas é muito difícil isso no tênis. Tenho pés no chão e confiança que preciso trabalhar muito, muito. E graças a Deus tem gente que acredita em mim e dá apoio para eu continuar jogando.
Gazeta Esportiva: Seu treinador é o Bocão, que trabalhou por muitos anos ao lado do Larri. Mudou muito a rotina?
Bia: Olha, 70% do trabalho é muito parecido. Agora estou com um preparador físico e vem sendo um grande diferencial, estamos cuidando muito dessa parte física específica do tênis. Mas na quadra, a cabeça do Bocão é bem parecida, muitas vezes ele está falando alguma coisa e me lembro muito do Larri. A essência é a mesma.
Gazeta Esportiva: Vocês têm metas de ranking e desempenho já planejadas para 2015?
Bia: O que a gente menos fala é de ranking. O Bocão me deixa supertranquila porque o ranking é consequência. Quem pensa em defender ponto, em buscar o outro na lista, putz, está perdendo muito. Tem que procurar ser melhor a cada dia porque os resultados vão vir com você fazendo as coisas certas e feliz. Pô, o emocional conta muito no tênis. Então ranking para mim não quer dizer nada.
Gazeta Esportiva: Você disputou os Grand Slams juvenis nos últimos anos e foi duas vezes vice-campeã de duplas em Roland Garros. Mas em 2014 ficou fora destes torneios. Sentiu falta do ambiente?
Bia: Este ano não pude jogar, perdi meu ranking juvenil. As meninas de 15 ou 16 anos já estão quase formadas de corpo, então o jogo é parecido com o adulto. E no profissional muda muito a experiência de cada uma. No juvenil, é importante pela experiência do lugar para quando for jogar no adulto não ser uma surpresa a quadra daquele tamanho, tudo aquilo de gente. Ter jogado foi uma lição, mais um degrauzinho que subi, mas não mudou minha vida. Até porque muitos tenistas foram bem no juvenil e não conseguiram deslanchar depois. Tenho na cabeça que, apesar de ter ido bem no juvenil, o tênis é muito mais do que isso.
Gazeta Esportiva: Em 2015 você pretende jogar, pelo menos, o classificatório das chaves adultas dos Grand Slams?
Bia: Com certeza. Meu sonho sempre foi jogar Roland Garros, estar entre as tops, jogar pelo Brasil na Fed Cup, jogar um Pan-americano. Ano que vem não tem como dizer o que farei, tudo depende do ranking, mas se eu estiver feliz e saudável, acho que pode dar certo.
Gazeta Esportiva: Em 2015 serão realizados em Toronto os Jogos Pan-americanos, competição que o Brasil conseguiu medalhas nas últimas edições: Teliana Pereira e Ana Clara Duarte foram bronze no Rio de Janeiro 2007 e Guadalajara 2011, respectivamente. É uma competição que você gostaria de jogar?
Bia: Opa! Com certeza. Puxa, vou dar meu melhor, fazer de tudo para estar bem fisicamente. As três meninas que forem, se eu estiver entre as escolhidas ou não, vão dar o máximo e representar da melhor maneira o nosso País.
Gazeta Esportiva: No Pan se joga representando o Brasil, assim como na Fed Cup, competição em que o País conseguiu um desempenho histórico em 2014 ao se classificar aos playoffs do Grupo Mundial II. Você ficou fora da equipe este ano, mas acompanhou o desempenho das meninas?
Bia: São competições que valem muito mais o coração. Alguns times têm ótimas jogadores, mas acabam não se entrosando, ou uma acha que é a boa, e aí não rola. As brasileiras estão bem unidas, são amigas. Conversei com as meninas sobre a Fed, foi uma experiência bem legal, elas mereceram, e agora precisamos saber que podemos estar lá e entrar para ganhar de qualquer país que for. Todo jogo é duro e aquilo é por equipe. Não adianta uma ir bem e a outra não. Jogando ou na arquibancada, tem que ajudar.
Gazeta Esportiva: Neste ano o time da Fed teve a Teliana Pereira e a Paula Gonçalves como titulares. Você se vê ocupando um lugar nesta equipe em 2015?
Bia: Tem que ir as que forem as melhores no momento. A Teliana com certeza. Ela estará como número 1 do Brasil, tem nome lá fora e as meninas a respeitam. Ela tem que ter moral porque pode e tem nível para ganhar de todas. A segunda jogadora pode depender da menina contra quem a gente vai jogar, se ela passa mais a bola, ou se bate…
Gazeta Esportiva: No masculino, o Brasil teve resultados muito bons este ano com atletas do juvenil. Como é sua relação com os meninos e qual é a importância de ver jogadores da sua geração conseguindo desempenho tão bom?
Bia: Sempre fui muito amiga dos meninos da minha idade: o João Menezes, o Marcelo Zormann, o Orlandinho Luz, o Rafael Matos. Todos ali têm potencial e estão fazendo o trabalho certo. Mas é aquilo, é só o juvenil. Tem que ter cabeça boa, saber que foi só o começo e absorver toda a bagagem do juvenil para entrar com tudo no profissional.
Gazeta Esportiva: O Orlandinho Luz treina com o Larri, você já jogou dupla de brincadeira com ele?
Bia: Nunca joguei. No Larri brincávamos de jogar simples, mas hoje não faço nenhum game. Quando ele tinha 14 anos, perdi de 7/5. Da última vez não tive chance de fazer nenhum game. Nem ponto, acho. Mudou muito.
Gazeta Esportiva: Os meninos foram bem especialmente em duplas. Orlandinho e Zormann ganharam Wimbledon e os Jogos Olímpicos da Juventude. Rafael Matos e João Menezes foram vice no Aberto dos Estados Unidos. Você tem dois vices de duplas em Roland Garros. Dá para imaginar uma dupla mista jogando nas Olimpíadas de 2016 ou 2020?
Bia: Opa! Nossa, é um sonho com certeza. Acho que para 2016 temos ainda nossos reis das duplas, não tem nem o que falar. Gosto muito do André Sá também, apesar de não estar tão bem no ranking, atrás do Marcelo Melo e do Bruno Soares, mas ele é muito completo. O Thomaz Bellucci também está voltando bem, tem a Teliana. A gente tem jogadores com bom potencial.