Campeão olímpico em Atenas-2004 e vice em Pequim-2008, o líbero Serginho questiona a realização dos Jogos de 2016 no Rio de Janeiro. Um dos atletas mais experientes da Seleção de vôlei masculino comandada por Bernardinho, ele acredita que o Brasil deveria ter outras prioridades.
“Com tanta gente passando fome aí… É legal fazer as Olimpíadas no Brasil? Sim, é um campeonato bonito de trazer para o nosso país. Mas eu, quando saio daqui, vivo a realidade. Eu vejo os problemas na minha frente, no meu bairro. Quanto tempo duram as Olimpíadas? Serão 20 dias de alegria. E o resto?”, questionou o líbero do Sesi.
Serginho, 35 anos, conversou com a GE.Net na manhã desta sexta-feira (30), no Ginásio da Vila Leopoldina. Criado em Pirituba, bairro da Zona Oeste da capital paulista, o líbero mundialmente conhecido e com passagens por clubes do exterior ainda reside na periferia.
“Quando volto para a minha casa, atravesso a ponte e vejo as desgraças que tem no meu bairro. Não vivo num mundinho. Com um investimento de milhões, o Brasil vai fazer as Olimpíadas, mas será que tem condições para isso? Não posso comprar um carro se não tenho condição de pagar”, ponderou.
Com o título sul-americano conquistado sobre a Argentina no último domingo (24), a Seleção Brasileira garantiu vaga na Copa do Mundo do Japão, torneio que classifica os três primeiros colocados para os Jogos Olímpicos de Londres-2012, no qual Serginho espera marcar presença.
Companheiro de Serginho em Atenas-2004, o ex-jogador Giovane Gávio, atual técnico do Sesi, ainda conquistou a medalha de ouro em Barcelona-1992. O treinador não tem uma postura tão crítica quanto a de seu comandado, mas também faz cobranças.
“Acho que as Olimpíadas no Brasil podem servir como ferramenta para melhorar muitas coisas, mas precisa sair do papel, as coisas têm que acontecer. A princípio, estão acontecendo e a gente torce para que aconteça mais ainda. Espero que fique um legado importante não apenas para o esporte, mas para a sociedade brasileira”, afirmou.
Murilo, medalha de prata em Pequim-2008, também se preocupa com o futuro após os Jogos. “Se as coisas forem feitas com seriedade e planejamento para o pós-Olimpíadas, tem tudo para o Brasil dar mais um passo nessa caminhada de evolução. Mas não adianta fazer uma Olimpíada muito bonita e depois ficar tudo jogado às traças”, alertou o atleta do Sesi.
José Montanaro Júnior, por sua vez, espera consequências positivas para o esporte brasileiro como um todo após os Jogos. “A infra-estrutura, você compra e vai ser feita com certeza, apesar de ainda vivermos num país sub-desenvolvido e com problemas de corrupção. O maior legado que podemos ter é o desenvolvimento de uma cultura política efetiva para o esporte”, afirmou o gestor do Sesi, vice-campeão olímpico em Los Angeles-1984.