Kiara Mila Oliveira
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Embora o frio tomasse conta da manhã de ontem, o dia amanheceu atraente para os pequenos barcos a vela pelo torneio da classe Laser Radial e Standard. No meio dos 20 atletas corajosos, João Ramos usou os anos de experiência para não se deixar abater pela baixa temperatura. Vice-campeão mundial nas Penínsulas Arábicas, no ano passado, ele mantém-se em competições de menor escalão por acreditar que ainda não é profissional.
Adepto do esporte desde criança, quando se aventurava no barco do pai, ele compara o passado com o presente a afirma que hoje a situação é bem diferente. “As facilidades são bem maiores hoje em dia e é possível viver somente do esporte. Mas há aquelas dificuldades, pois o esporte não é visto pelos patrocinadores como o futebol, por exemplo”, explica o veterano.
A humildade mostrada pelo atleta logo foi substituída pela vontade de, enfim, levar o título que ficou pendente no ano passado. Focado nisto, João usou a prova de ontem como mais um treino preparativo para o Mundial deste ano, em outubro, na França.
“Quem sabe dessa vez eu consiga? Estou me preparando fisicamente e psicologicamente para isto, embora esteja numa idade um pouco avançada”, brinca o atleta de 50 anos.
Sem brisa
Ontem, porém, a ansiedade do atleta teve de ser colocada de lado, pois na hora marcada para o início da prova o maior coadjuvante resolveu não aparecer: o vento. Quarenta minutos depois e com a autorização dos responsáveis da prova, os atletas puderam seguir a trilha rumo ao centro do Lago Paranoá.
Tanto João como o próprio diretor de esportes náuticos do clube, Maurício Albuquerque – que também resolveu ser atleta por um dia –, não reclamaram do atraso.
“Isso é habitual e não nos atrapalhou em nada. Vi alguns reclamando do frio, mas sou carioca e achei a água uma delícia”, brinca o diretor.
De acordo com Maurício Albuquerque, até a dosagem de vento deve ser medida, nem muito forte e nem muito fraco.
Tradição toma conta de toda a família
A vivência do experiente João Ramos com o seu barco mundo afora inspirou muitos. A família não ficaria de fora e a sobrinha Elisa Ramos embarcou na paixão do tio. Aos 16 anos, a estudante sabe que viver da vela é complicado e almeja outros objetivos.
“Quero me formar em medicina, mas vou manter a vela como hobbie assim como o meu tio”, garante a jovem. Assim que saiu da água, Elisa mal sabia em qual colocação tinha chegado na prova, mas isso também não pareceu tão importante para ela.
Ao lado dela, João brincava com a segunda colocação alcançada na manhã de ontem. “O primeiro realmente velejou e aproveitou o vento bem melhor do que eu”, assume o vice-campeão mundial.
DE BERÇO
Assim como o tio, Elisa começou nova no esporte e, por coincidência, um grupo de crianças caminhava para a beira do Lago cada um puxando o seu barquinho. Ao observar a cena, o gerente náutico, Murilo Peixoto, comentou.
“O clube na verdade surgiu por conta disso. É o nosso carro-chefe e as crianças se interessam. Aqui temos uma média de 50 pequeninos”, afirma.
Um barco custa em média R$ 25 mil e para deixá-lo no clube, o atleta deve desembolsar a quantia de R$ 30 por mês.