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Maio Laranja

Agressores se aproveitam da inocência na internet

Promotoras do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios ressaltam que o diálogo e a supervisão são essenciais para prevenir a violência sexual infantojuvenil no ambiente virtual

Vítor Ventura

26/05/2026 18h13

Agressores fingem ser crianças e adolescentes para ganhar a confiança de meninos e meninas na internet | Towfiqu Barbhuiya/via Unsplash

Um estudo inédito realizado pelo ChildFund revela que agressores sexuais exploram a confiança, os jogos online e a ausência de supervisão para aliciar adolescentes na internet. A pesquisa foi divulgada neste mês no contexto do Maio Laranja, a campanha nacional de combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes. Na terceira fase do estudo, o mapeamento resultou em entrevistas com vítimas e perpetradores, apontando dinâmicas de abuso sexual online no Brasil.

No mês de maio, o Jornal de Brasília e o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) firmaram parceria com o objetivo de ampliar o debate e dar visibilidade à luta contra a violência sexual infantojuvenil, luta essa que é fundamental que ocorra também no ambiente digital. 

Realizado ao longo de três anos, o levantamento do ChildFund traz uma abordagem completa ao integrar dados quantitativos, qualitativos e relatos de diferentes atores envolvidos. A nova etapa, realizada em parceria com o Instituto Tecnologia e Dignidade Humana, amplia o escopo das análises ao incorporar dimensões subjetivas, motivações e contextos que ajudam a explicar tanto a vulnerabilização de adolescentes quanto os mecanismos utilizados por agressores. 

“O estudo reforça a urgência de olhar para a violência sexual online contra crianças, jovens e adolescentes como um fenômeno complexo, que exige respostas articuladas entre o Estado, sociedade civil e empresas de tecnologia”, afirmou Mauricio Cunha, presidente executivo do ChildFund. Nesta publicação final do Mapeamento, foram realizadas entrevistas com três vítimas, cujos nomes não foram revelados no estudo. Elas mostram que a violência sexual online não ocorre de forma isolada, mas está profundamente ligada a contextos familiares, emocionais e sociais.

“A pesquisa revela um cenário desafiador e que carece de maior atenção para proteger crianças e adolescentes no ambiente virtual. Mais da metade dos adolescentes brasileiros (54%) já sofreu violência sexual na internet. Os dados indicam que jogos online, redes sociais e aplicativos de mensagens são os ambientes em que adolescentes relatam mais insegurança e onde a violência sexual com interação ocorre com mais frequência. O estudo destacou que  41% dos adolescentes relataram interação com desconhecidos; 55% dessas interações ocorreram em aplicativos de mensagens”, destacou Cristiano Moura, gerente de programas do ChildFund.

Fatores de vulnerabilidade

Entre os principais fatores de vulnerabilidade identificados estão a ausência de diálogo sobre sexualidade, a falta de supervisão digital e o desconhecimento dos riscos do ambiente virtual. Os relatos mostram ainda que as vítimas não reconhecem situações de abuso no momento em que ocorrem, especialmente quando há manipulação emocional por parte dos agressores. 

Em diversos casos, os perpetradores ocupam espaços de escuta e acolhimento que não são encontrados no ambiente familiar, criando vínculos que evoluem para o controle psicológico e a coerção. Nesse sentido, uma prática comum entre os criminosos é o “grooming”, que ocorre quando um adulto se passa por alguém mais jovem para ganhar a confiança da vítima.

“As entrevistas com os perpetradores permitiram identificar padrões importantes em suas trajetórias de vida, como contextos familiares, experiências precoces com a sexualidade e a relação com as tecnologias digitais. Observados em conjunto, esses elementos mostram como os aspectos individuais, sociais e ambientais não atuam de forma isolada, mas se combinam ao longo do tempo, em ocorrências infracionais relacionadas à violência sexual online contra crianças e adolescentes. Embora os entrevistados apresentem diferenças geracionais, educacionais e socioeconômicas, suas narrativas revelam elementos estruturais que se repetem”, explicou Cristiano.

Alguns fatores em comum entre os perpetradores de crimes sexuais na internet contra crianças e adolescentes que a pesquisa revela, segundo Cristiano, são a exposição precoce à pornografia; a ausência de diálogo familiar sobre sexualidade; experiências traumáticas na infância e o uso intensivo de tecnologias digitais sem supervisão. 

“O estudo revela que os perpetradores buscam conversar com os adolescentes em jogos online a fim de obter o perfil das redes sociais. Posteriormente, nessas plataformas, ampliam o vínculo e criam confiança, até obterem contatos de aplicativos de conversa, como WhatsApp e Telegram, onde cometem os crimes”, detalhou o gerente do ChildFund.

Importância do diálogo

A pesquisa também mostra um grande obstáculo no combate à violência sexual infantojuvenil na internet: sentimentos de culpa, vergonha e medo de julgamento, especialmente em famílias com convivência mais rígida, constituem barreiras significativas à denúncia. Em entrevista ao JBr, Liz Elainne Mendes,  promotora de Justiça e coordenadora do Núcleo de Enfrentamento à Violência e à Exploração Sexual contra a Criança e o Adolescente (Nevesca) do MPDFT, pontuou que o diálogo entre os adultos responsáveis e os adolescentes pode, muitas vezes, ser mais efetivo do que o controle parental sobre o que é acessado na internet.

“Para você dialogar bem com uma criança e um adolescente, você tem que estar junto com ele. O que eu recomendo para os pais? Aprendam a jogar os jogos que seus filhos jogam. Participe do mundo digital – a criança e o adolescente, hoje, não podem estar fora dele, porque eles são alfabetizados também nessa dimensão. Então, para que haja um diálogo realmente participativo e os pais ou responsáveis estejam engajados no que a criança tem acessado, eles têm que jogar junto; eles têm que entender como é o mundo digital”, afirmou.

A pesquisa do ChildFund identifica o silêncio como um “produto social”, ou seja, um comportamento construído pelas relações e contextos sociais. A falta de diálogo, o medo de julgamento e a ausência de acolhimento fazem com que muitas vítimas aprendam que falar sobre a violência pode gerar ainda mais sofrimento, reforçando o isolamento e dificultando denúncias e intervenções.

A promotora de Justiça Luisa de Marillac, do MPDFT, ressaltou que a criança e o adolescente precisam se sentir confortáveis para falar sobre suas experiências na internet. “É preciso que haja diálogo nas famílias para que a criança e o adolescente sintam confiança nos seus pais, nos seus responsáveis, nos seus familiares para poder trocar as informações e as experiências do que estão vivenciando no meio digital”, disse.

Por isso, de acordo com o ChildFund, a resposta para evitar a violência online contra o público infantojuvenil é a prevenção desde os primeiros anos de vida, com atividades que ensinem os pequenos a gerir as emoções, a conhecer o próprio corpo e os limites de outras pessoas a ele, e que lhes permitam brincar e fortalecer os vínculos familiares e comunitários.

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