Há algo de podre na construção diária de uma espécie de velório antecipado do BRB. Mas não há defunto.
O banco está vivo, funcionando, tem controlador, patrimônio, ativos, clientes e uma solução financeira em negociação. Mesmo assim, prospera a ladainha da intervenção, da liquidação e do colapso.
A verdade é que a crise existe. E é grave. É consequência do preço monumental pago pelo BRB nas operações realizadas com o Banco Master durante a administração de Paulo Henrique Costa, envolvendo carteiras hoje no centro das investigações que levaram Daniel Vorcaro para a cadeia.
Mas uma coisa é investigar o desastre. Outra é transformar a crise numa profecia de destruição.
Na Bolsa, a ação ordinária BSLI3, que chegou a superar R$ 10, recentemente esteve na faixa de R$ 2,60. Uma desvalorização próxima de 74%. Isso soa como carniça de conveniência para abutres.
Mas afinal, a quem interessa transformar uma crise real numa profecia de destruição? Quem eventualmente pode querer comprar ativos na xepa, para controlar uma potência como o BRB?
Não existe prova pública de conspirações de privados para comprar o banco público, ou de operação coordenada para derrubar as ações do BRB. Mas seria ingenuidade ignorar essa possibilidade, depois que a PF demonstrou que Vorcaro pagava a um exército de influenciadores para detonar o banco central.
Estamos diante de rumores que produzem insegurança. Insegurança derruba preço e preço baixo cria oportunidade.
É nesse ambiente que surge a narrativa de que uma demora na liberação do empréstimo do Fundo Garantidor de Créditos é sinal de desistência, para bancos financiadores que estariam preferindo uma liquidação do BRB.
Uma lorota que agride a lógica, e que é desmentida por uma conta simples.
O acordo homologado pelo STF abriu caminho para empréstimo de até R$ 6,6 bilhões junto ao FGC, com carência e remuneração. Portanto, dinheiro que sai para voltar.
Já uma eventual liquidação do BRB poderia impor ao FGC um impacto estimado em cerca de R$ 17 bilhões, que sairiam do bolso dos bancos que sustentam o sistema, conforme, inclusive, a percepção de Dario Durigan, ministro da Fazenda. Nesse cenário, o fundo seria chamado a honrar os depósitos e investimentos elegíveis, até R$ 250 mil, observados seus limites de garantia.
Portanto, não estamos falando de presente. Estamos falando de empréstimo bem remunerado. Muito diferente do potencial desembolso bilionário numa liquidação.
A demolição desses artificialismos de conveniência não significa que o empréstimo esteja pronto para cair amanhã na conta do BRB. Existem garantias, documentos, auditorias e condições a cumprir.
O problema está em querer, por razões inconfessáveis, transformar cada exigência em impressão de desistência. Cada prazo em sinal de ruptura e cada negociação em prenúncio de liquidação.
Quanto mais se fala em liquidação, maior a insegurança. Quanto maior a insegurança, maior a pressão sobre clientes, investidores e sobre o valor do próprio banco.
O BRB não é a parreira de uvas, descrita por Monteiro Lobato em Fábulas de Narizinho, numa releitura de Esopo. Ele é uma instituição estratégica para o Distrito Federal, operador de crédito, financiador de empresas, canal de acesso à casa própria, financiador de infraestrutura.
Por isso, cabe à Polícia Federal, Ministério Público, Banco Central e Justiça descobrir responsabilidades e, principalmente, recuperar o dinheiro das operações investigadas. Até porque, o STF já garantiu que os cofres do BRB serão destinos prioritários desse dinheiro, no caminho de volta.
O BRB precisa de capitalização, liquidez, transparência, balanços confiáveis, governança e punição para quem produziu o desastre. Precisa explicar também como seus controles permitiram tamanho comprometimento com o Master.
O que não precisa é de coveiro especulando com o preço do enterro.
Porque uma coisa é investigar quem quase destruiu o BRB. Outra, muito diferente, é aproveitar a destruição para tentar comprar um banco estratégico pelo preço da sucata.