A lista das armas do ex-presidente Jair Bolsonaro incluía pistolas Taurus, Glock, SIG-Sauer e Caracal a espingardas calibre 12 e carabinas/fuzis em calibres 5,56 e 7,62.
Não era exatamente o armário de um cidadão precavido. Alguém já disse que parecia mais o inventário doméstico de uma guerra íntima, num país conflagrado.
A notícia que trouxe a ordem do ministro Alexandre de Moraes para apreender dez armas do ex-CAC (Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador) Jair Bolsonaro, indica padrões reveladores além de despertar a curiosidade de profissionais com larga experiência na psiquiatria, psicologia clínica, psicanálise, além de peritos forenses.
Trata-se de um arsenal pessoal que, inclusive, supera em muito o poder de fogo dos civis em países que vivem debaixo do fogo cruzado das guerras mundo afora. O Small Arms Survey, respeitada projeto de pesquisa do governo da Suíça, estima que o Irã, por exemplo, tinha, em 2017, 5,89 milhões de armas civis para 80,9 milhões de habitantes. Ou seja: tinha 7,3 armas por cada grupo de 100 pessoas. Nos Territórios Palestinos, eram 56 mil armas civis para 4,95 milhões de habitantes, ou 1,1 por 100 pessoas. Uma proporção bem menor que o número alcançado por Bolsonaro que, sozinho, tinha dez armas registradas. Proporcionalmente, é como se ele carregasse no CPF uma taxa pessoal 137 vezes maior que a média civil iraniana e mais de 900 vezes maior que a média registrada na palestina.
O Small Arms Survey calcula que as forças de segurança do mundo tinham, em média, 1,2 arma por policial. Nos países com dados oficiais, essa média sobe para 1,7. No Brasil, a estimativa era de 1,2 arma por agente de segurança, tendo os Estados Unidos alcançado uma média perto 1,6 armas por profissional. Essa média cai para 0,3 na Inglaterra e no País de Gales.
O acervo pessoal de Bolsonaro, portanto, superava, com folga, a média institucional de policiais de países inteiros.
Segundo a opinião de uma psiquiatra com mestrado, sob a condição de sigilo, é impossível fazer um diagnóstico sem o estudo de caso. Mas ela reconhece que a American Psychiatric Association define o transtorno de acumulação como dificuldade persistente de se desfazer de objetos por uma percepção de necessidade de guardá-los. A doutora lembra que, no caso dessa acumulação estar relacionada a armas, o comportamento pode refletir sentimentos de medo, desconfiança, desejo de controle e fantasia de autossuficiência armada.
Segundo a lembrança de outro terapeuta, também em off por temer as reações das chamadas milícias digitais, a revelação dos detalhes do arsenal de Bolsonaro reivindica a lembrança do chamado comportamento de Defesa Extrema, ou “Survivalismo”. Ele ressalta que existem estudos nas áreas de psicologia social e comportamental analisando indivíduos com forte mentalidade de autodefesa ou preparação para colapsos sociais ou desastres.
Estudos psicológicos frequentemente ligam o apego excessivo a armas com sentimentos de vulnerabilidade, desamparo ou falta de controle sobre o próprio ambiente. Noutra variável para os especialistas, também é possível admitir a hipervigilância e a paranoia, sobretudo quando há evidências de indivíduos com traços de personalidade paranoica ou que sofrem de transtornos de ansiedade graves, o que pode acabar desenvolvendo uma fixação por armas.
Os dados trazidos nesta edição da coluna indicam que o caso envolvendo o arsenal do ex-presidente Jair Bolsonaro aponta para um alerta relevante. Sobretudo porque estamos falando de um país que saltou de 117 mil CAC’s (Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador) em 2018 para mais de 1 milhão atualmente, resultando numa alta superior a 770%.
PS: em dezembro de 2018, antes da eleição de Bolsonaro, o acervo total desse grupo era de 350.683 armas, contra os atuais 1,58 milhão de armamentos registrados. Com o governo Bolsonaro, o ritmo de registros saltou de 17.356 novos certificados de registro (CRs) para 361 mil novas concessões anuais.