O jornal britânico The Guardian revelou que o governo de Donald Trump destinou US$ 1 milhão a um projeto voltado ao Brasil, dentro de uma ampla redistribuição de mais de US$ 175 milhões do Fundo de Direitos Humanos e Democracia do Departamento de Estado americano.
O projeto para o Brasil tem nome suficientemente elegante para caber num seminário acadêmico: “Combate ao Lawfare e à Censura no Brasil”. Na prática, segundo a reportagem, o dinheiro serviria para financiar grupos da sociedade civil que combatem aquilo que classificam como excesso de atuação judicial e censura praticados pelo Supremo Tribunal Federal.
Quando um governo estrangeiro coloca dinheiro numa disputa institucional interna de outro país, deixa de ser simples solidariedade internacional. Sobretudo porque se trata de uma reação às decisões da Justiça brasileira que atingiram Big Techs americanas, relacionadas a conteúdos ilegais, desinformação e cumprimento de ordens judiciais.
A equação é desconfortavelmente simples: o Estado brasileiro impõe obrigações às plataformas. O governo do país onde estão sediadas algumas dessas gigantes financia organizações brasileiras que pretendem combater a atuação do tribunal responsável por expedir essas ordens.
Mas isso não é de hoje…
Há pouco mais de 60 anos, Washington também se aproximou de organizações da sociedade civil brasileira “preocupadíssimas” com os destinos da democracia. Chamavam-se, entre outras siglas, IBAD e IPES.
O Instituto Brasileiro de Ação Democrática e o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais participaram de uma gigantesca operação política, ideológica e propagandística contra o governo constitucional de João Goulart. A documentação histórica mostra que o IBAD funcionou como canal de recursos norte-americanos para financiar candidatos contrários a Jango nas eleições de 1962. A Comissão Nacional da Verdade registra estimativas segundo as quais esses recursos podem ter chegado a US$ 20 milhões.
O Congresso brasileiro percebeu o tamanho da encrenca e criou, ainda em 1963, uma CPI especificamente para investigar a origem do dinheiro e a atuação política do IBAD e do IPES.
O IPES tinha financiamento de empresários brasileiros e multinacionais e recebia assistência americana. Produzia filmes, livros, panfletos, estudos e propaganda contra o governo. O IBAD atuava de maneira ainda mais ostensiva, inclusive no financiamento eleitoral. A ligação de recursos da CIA com o IBAD seria posteriormente documentada por pesquisadores e por testemunhos de ex-integrantes da própria agência.
Era tudo em nome do “combate ao comunismo” e da “proteção às liberdades”.
Mas, em 1964, descobriu-se onde aquele financiamento desembocaria: na derrubada de um presidente constitucional e numa ditadura que duraria 21 anos.
Seria historicamente irresponsável afirmar que o US$ 1 milhão de agora significa que 2026 é uma repetição de 1964. Não é. Os valores, os métodos, as instituições e as circunstâncias são diferentes.
Mas seria igualmente irresponsável fingir que não existe um paralelo inquietante.
Nos anos 60, o dinheiro estrangeiro entrava numa sociedade brasileira já polarizada para fortalecer organizações, candidatos e campanhas ideológicas afinadas aos interesses estratégicos de Washington. Agora, novamente, recursos públicos americanos aparecem destinados a organizações brasileiras escolhidas justamente porque atuam numa batalha política e institucional que interessa ao governo dos Estados Unidos.
O Brasil pode e deve discutir os limites do Supremo. Pode discutir Alexandre de Moraes. Pode discutir censura, liberdade de expressão, responsabilidade das plataformas e abuso de autoridade.
Mas deveria fazê-lo com brasileiros, instituições brasileiras, dinheiro brasileiro e debaixo da Constituição brasileira.
Porque democracia financiada por potência estrangeira não chega com boa saúde. Falta-lhe um componente básico: compromisso com a soberania.
E, vamos combinar, essa febre já adoeceu o Brasil antes.