A insistente pré-candidatura de Flávio Bolsonaro — a despeito da inevitável “cristianização” — hoje personifica a repulsa ocasionada pelo episódio em que uma superpotência decidiu escolher como inimigos comerciais algumas invenções-padrão e o agronegócio, que causam orgulho e envaidecem o país.
O tarifaço anunciado por Donald Trump talvez tenha produzido um efeito mais contundente do que qualquer campanha de “desconstrução”. Mas essa lambança, inesperadamente, acabará ressuscitando o sentimento que resultou na invenção do carro a álcool.
Boa parte do país hoje não se lembra mais da coragem com que o Brasil apostou no Pró-Álcool, embalado pelo entusiasmo de gente honrada como o saudoso deputado Álvaro Valle (PL-RJ), então parlamentar da Arena nas décadas de 1970 e 1980. O bolsonarismo, aliás, nem sabe que partiram do fundador do PL alguns dos mais antológicos discursos em defesa do álcool combustível, que, mesmo chamado de etanol, apresenta a digital dos brasileiros.
Os americanos não conhecem a luta do Pró-Álcool nem a saga que está por trás dessa história. Talvez nunca tenham ouvido falar das décadas de pesquisa conduzidas por universidades brasileiras, da revolução promovida pela Embrapa, do desenvolvimento dos motores a álcool, da criação da tecnologia flex ou das campanhas que convenceram uma geração inteira de que era possível abastecer automóveis com combustível produzido da cana-de-açúcar.
Segundo a investigação que pretende dar lastro ao tarifaço contra o Brasil, nós teríamos criado obstáculos ao etanol americano depois de modificar o regime tarifário em 2017. Aliás, chama atenção a impressionante elasticidade temática dessa investigação. Nessa versatilidade de conveniência, resolveram tratar o PIX com a mesma hostilidade com que tratam os fantasmas comunistas.
O PIX tornou-se uma rara unanimidade nacional. Acabou com filas, reduziu custos, desmontou parte do monopólio das tarifas bancárias e colocou o Banco Central brasileiro na vitrine internacional da inovação financeira. Em vez de perguntar como um país em desenvolvimento conseguiu construir uma infraestrutura digital dessa dimensão, Washington resolveu insinuar que o sistema seria favorecido de maneira indevida pelo próprio Banco Central.
No mesmo documento convivem PIX, etanol, propriedade intelectual, Lei Anticorrupção, combate ao trabalho escravo, desmatamento ilegal, decisões do Supremo Tribunal Federal sobre plataformas digitais, comércio da Rua 25 de Março e outras práticas consideradas problemáticas pelos Estados Unidos. Uma geleia geral que tenta demonizar a estrutura regulatória de outro país, num jogo que busca sabotar o vizinho para tirar proveito comercial. Mas a vitalidade do jardim do vizinho não pode ser tratada como razão para a grama rala da casa ao lado.
O primeiro nasceu da inteligência técnica de servidores públicos e especialistas do Banco Central. O segundo foi construído por pesquisadores, engenheiros, agricultores, universidades e décadas de investimento científico. Nenhum deles surgiu por acaso. Ambos representam escolhas de longo prazo feitas pelo país.
Enquanto isso, Lula surfa em ondas perfeitas, que deixam Flávio Bolsonaro tomando caixote na espuma que ele mesmo criou.
Mal comparando, foi assim que A Marselhesa, na França da Segunda Guerra Mundial, tornou-se inspiração para a resistência contra o tacão do invasor nazista. Composta em 1792 como um canto revolucionário após a declaração de guerra da França à Áustria, transformou-se em símbolo da resistência francesa quando o regime colaboracionista de Vichy, alinhado a Hitler, proibiu sua execução.
Numa França ocupada pela Alemanha nazista, com o orgulho nacional devastado, A Marselhesa, hino proibido pelo regime, converteu-se no símbolo do sentimento coletivo da Resistência Francesa. Cantá-la clandestinamente era um ato de desafio e de afirmação da identidade nacional diante dos invasores.
Qualquer semelhança com a França da Segunda Guerra será mera coincidência. Até porque o Brasil não é Venezuela.