O Jornal de Brasília sabatinou, nesta terça-feira (8), o quinto candidato ao Governo do Distrito Federal (GDF). O convidado desta edição do JBr Eleições foi o ex-deputado distrital e ex-presidente do Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan) Leandro Grass (PT). O petista falou sobre temas como a ausência de Lula em seu palanque, reforma na educação e sua atuação no processo que culminou na aprovação do Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCub) aprovado na gestão de Ibaneis Rocha (MDB).
As experiências de gestão do senhor são com um mandato de deputado distrital e como presidente do Iphan. O senhor está preparado para governar o DF?
Creio que sim. Além da minha vida pública como deputado e como gestor público federal, também fui servidor público na cidade. Trabalhei na Secretaria de Educação durante muitos anos. Sou professor aqui em Brasília há 20 anos, trabalhei na rede pública e privada, na educação básica e no ensino superior. Sou alguém da cidade: nasci, cresci e me formei aqui. Trabalhei em vários projetos sociais aqui no Instituto Federal, conhecendo diversas realidades. Então, me habilito para esse momento, me habilito para ser governador de Brasília, principalmente porque conheço Brasília, tenho sentimento e amor pela cidade. Acho que esse é um ponto importante: é preciso ter competência política e técnica, mas também é preciso ter afeto e conexão com as pessoas que moram aqui.
Como descreve seu mandato como distrital?
Como lembrado na apresentação sobre minha trajetória como deputado distrital, foi um período complexo porque estávamos na pandemia, mas o meu mandato foi de rua, de presença marcante. Estive em todos os cantos do DF, visitei todos os hospitais, todas as UPAs, mais de 350 escolas, conheci todas as realidades e, em 2022, apresentei um projeto. Infelizmente, por muito pouco, o Ibaneis [Rocha ex-governador do DF] ganhou a eleição e o presidente me convidou.
E o que o senhor acumulou de experiência no Iphan?
O Iphan foi uma experiência de gestão também muito interessante, por ser um órgão nacional que me fez atuar no Brasil todo. Aqui em Brasília também atuamos muito a partir do Ministério da Cultura, com obras, projetos, a Praça dos Três Poderes. Foi uma experiência que me deu, além de uma melhor percepção do que é o nosso país, a capacidade de resolver problemas, que é o que Brasília precisa hoje.
O senhor foi condenado pelo TRE-DF e depois inocentado pelo TSE por fake News contra Ibaneis. Qual sua versão sobre o episódio?
Aquilo foi uma grande armação liderada pelo Ibaneis e pelo Gustavo Rocha — que hoje é vice da Celina — para tentar me tirar das eleições no tapetão. Eu apresentei no meu programa de TV e nas minhas redes sociais várias questões verdadeiras sobre o Ibaneis que ele não aceitava. Quando eu falava, por exemplo, que o governo dele era corrupto porque havia um secretário de Saúde preso — e agora o ex-secretário de Economia dele também está condenado por improbidade —, eu estava me baseando em fatos. Temos agora denúncias gravíssimas envolvendo o Banco Master e o BRB. Eu disse isso, e ele entrou na Justiça Eleitoral contra mim porque aleguei que o governo dele era corrupto. Ele acusou a minha campanha de promover fake news. Foi tanta armação que depois o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) entendeu que a decisão do TRE (Tribunal Regional Eleitoral) era equivocada e, por 7 a 0, por unanimidade, me devolveu os direitos políticos.
Por que o senhor afirma que foi uma armação?
Olha só que interessante o que aconteceu no TRE: essa representação do Ibaneis já tinha o voto de alguns desembargadores. Estava 5 a 0 a meu favor, contra o argumento do Ibaneis. Curiosamente, uma desembargadora, a Maria do Carmo, pediu vista do processo e o retornou três meses depois. Daqueles cinco que estavam a meu favor, três mudaram de voto e resolveram votar contra mim. Muito estranho que alguns membros do TRE tenham mudado de opinião tão rápido e sem nenhuma novidade no processo.
Como o senhor avalia a gestão deixada por Ibaneis?
O BRB foi dilapidado, hoje está fragilizado, os empregos estão em risco e a Celina diz que não tem nada a ver com isso. A Celina disse há pouco que não conhecia o que aconteceu no BRB, mas os conselheiros que estavam lá — inclusive no BRB, e que estão presos — têm relação com o partido dela. O Ciro Nogueira, presidente nacional do PP e amigo pessoal do [Daniel] Vorcaro, é o presidente do partido dela. É muito curioso ela dizer que não tem nada a ver com isso. Na Saúde, por exemplo, quem comanda desde o início é o PP, partido da Celina, que indicou o presidente do IGES-DF (Instituto de Gestão Estratégica em Saúde) e o secretário de Saúde.
Desde a redemocratização, nenhum governador de esquerda se reelegeu. É possível uma autocrítica?
Acredito que esses três governos tiveram êxitos, erros, acertos e equívocos. Agora, dizer que a esquerda não sabe governar o DF é curioso. A direita sabe governar? É a direita que sabe governar deixando o DF no último lugar do Ideb? É a direita que sabe governar deixando a população no maior sofrimento na saúde pública, com pessoas morrendo na fila da UPA, na porta do Hospital de Base e gestantes perdendo filhos por falta de atendimento no Hospital de Samambaia? Aumentaram a fome, a desigualdade e a população em situação de rua nos governos de direita no DF. Essa narrativa usada por Ibaneis e Celina de que a esquerda não sabe governar e eles sabem é falsa. Minha avaliação é que os feitos dos nossos governos talvez não tenham sido tão bem comunicados quanto poderiam.
O que o senhor pode destacar, então, das gestões da esquerda?
No governo Cristóvam (1995–1998), começou o Saúde em Casa, modelo para o Brasil inteiro que virou o Saúde da Família. Nasceu aqui o Bolsa Escola, base do Bolsa Família, e o Poupança Escola, hoje Pé-de-Meia. O Brasil adotou boas experiências exportadas pelos nossos governos, como a Paz no Trânsito e a Faixa de Pedestres. No ciclo do Agnelo Queiroz (2011–2014), tivemos 57 creches construídas ou entregues. A Celina vai sair agora com o Ibaneis em último lugar no Ideb e com filas nas creches. Não construíram creches públicas como poderiam; nós entregamos. Sobre transporte: o que o governo de Celina e Ibaneis fez? Nós entregamos o BRT Sul (Gama e Santa Maria).
Como o senhor pretende lidar com uma CLDF que tende a ser mais de direita?
A eleição ainda não acabou. Estamos trabalhando para eleger deputados e deputadas que tenham amor pelo povo, história e compromisso com a população. Fui deputado distrital e sei como a Câmara é importante. A Câmara Legislativa, com seus 24 parlamentares, decide sobre tudo. Infelizmente, nem todo mundo acompanha o dia a dia, e foi essa CLDF de maioria de direita que aprovou operações irregulares do BRB e permitiu a privatização da CEB e uma reforma da previdência duríssima contra os aposentados de Brasília. A população precisa entender que na Câmara Legislativa devem estar representantes do povo, e não milionários que fazem esquemas com o governo. Como governador, vou respeitar a Câmara e apresentar as prioridades. Quero restabelecer uma relação de harmonia e independência, pois hoje a CLDF virou um “puxadinho”. A Celina diz que não tem nada a ver com as decisões dos deputados, mas por que os deputados do partido dela votaram a favor da operação do BRB com o Master? Ela não tem incidência no próprio partido?
E como o senhor fará?
Quero uma relação de respeito, prestando contas, sem “toma lá, dá cá”, chantagens ou faca no pescoço. Os deputados participarão da gestão apoiando as boas políticas e direcionando recursos para as prioridades. A população não quer deputados subordinados ao governador, nem governador subordinado a deputados. É isso o que a Constituição determina.
O senhor aprovou o PPCub aprovado pelo governo Ibaneis. Esse é o plano ideal?
O Ibaneis vetou diversos artigos justamente porque recomendávamos. O PPCUB é uma lei distrital, não uma lei do Iphan ou federal. Quem propõe o PPCub é o GDF. A Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Seduh) consultou o Iphan três vezes antes de enviar o projeto. Os técnicos do Iphan — servidores concursados, arquitetos e urbanistas — se posicionaram conforme a lei do patrimônio cultural e o tombamento de Brasília, recomendando inclusive que a Secretaria de Cultura do DF fosse consultada. Quando o GDF mandou o projeto para a Câmara foram inseridos diversos problemas no texto. Na redação final, solicitei que os técnicos do Iphan elaborassem um parecer sobre o texto aprovado pela Câmara. Recomendamos dezenas de vetos. O governador da época acolheu essas recomendações e vetou, por exemplo, o trecho que transferia áreas públicas de uso da população para a Terracap comercializar.
O senhor determinará uma revisão?
Defendo que ele passe por revisão, principalmente no sentido da preservação. Se é um plano para preservar, precisa definir metas, estratégias e pactuações. O PPCub virou apenas um conjunto de regramentos. Precisamos de um plano para cuidar da área tombada e desenvolver o DF como um todo. Não há como preservar o centro de Brasília se as outras regiões estiverem degradadas, como Ceilândia, Taguatinga, Planaltina ou a W3 Sul.
O eleitor não liga o tema com a esquerda. O que o senhor propõe?
Ainda bem que não somos iguais à direita na segurança pública, porque a direita fez a violência aumentar no DF. A situação atual é de aumento de feminicídios, latrocínios, roubos, furtos e crimes contra populações em situação de rua. A segurança pública no DF piorou. A estratégia de quem está no Palácio do Buriti é pegar o indicador de homicídios — o único que se manteve estável — e separá-lo dos demais tipos de morte e crimes que aumentaram, manipulando os dados. Precisamos de inteligência policial, fortalecimento, valorização dos agentes, equipamentos adequados, tecnologia e monitoramento de qualidade para intervenção imediata. Não adianta ter câmeras sem procedimento: se um celular for roubado, o reconhecimento facial deve permitir a ação rápida da polícia para recuperar o bem em minutos. Também precisamos de integração entre Polícia Civil, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e Detran.
E como motivar os agentes de segurança?
É essencial valorizar os policiais e bombeiros. O reajuste concedido pelo governo federal deixou os policiais penais de fora, porque o Ibaneis não os incluiu, mas eu os incluirei. Nossos policiais estão enfrentando depressão e endividamento por condições precárias de trabalho. Vamos cuidar das corporações para que cuidem da população, promovendo o combate firme ao crime organizado, ao tráfico e à grilagem.
Houve uma queda na qualidade da educação no DF. O que o senhor propõe?
Número um: valorizar quem está na escola — professores, secretários escolares, orientadores, psicólogos, merendeiras e vigilantes. Vamos melhorar salários e condições de trabalho, abrindo imediatamente a mesa de negociação com todas as carreiras da educação para colocar os vencimentos no topo, como já esteve no passado. Dois: investir na infraestrutura das escolas, garantindo bibliotecas, laboratórios e quadras esportivas cobertas. A principal proposta do meu programa é a expansão da escola em tempo integral com qualidade: matemática, línguas, ciências, artes, esportes e tecnologia, preparando o jovem para o mercado de trabalho com um projeto de vida.
O senhor manterá as escolas cívico-militares?
Esse modelo que estou propondo vai substituir gradualmente as escolas cívico-militares. A própria sociedade perceberá que o modelo atual é falido. Transformar escolas em unidades geridas por policiais e bombeiros não melhorou os indicadores do Ideb, pois falta projeto pedagógico. Não se promove paz na escola apenas intimidando, mas sim com apoio psicológico, pedagógico e oportunidades. O Batalhão Escolar será fortalecido para atuar na prevenção e proteger a comunidade escolar.
O presidente Lula ainda não aderiu à sua campanha. O senhor se sente abandonado?
O presidente Lula gravou vídeo comigo, está nas minhas redes e no meu programa de TV. Temos uma coligação apoiada por ele, com a minha candidatura ao governo, a deputada Erika Kokay e a senadora Leila Barros candidatas ao Senado, além de uma ampla nominata de deputados. Este é o time do Lula em Brasília, formado por PT, PV, PCdoB, Rede, PSOL e PDT. Estamos com Lula e ele está conosco. Ele virá a Brasília para um grande ato em setembro. Nossa prioridade máxima é reeleger o presidente Lula, governar o Distrito Federal e eleger duas senadoras alinhadas com as pautas do povo.
O senhor acredita que a imagem do PT se desgastou no DF?
A Celina fez recentemente uma declaração preconceituosa ao dizer que “o PT só ganha onde tem pobre”. Ora, a vida das pessoas melhora nos nossos governos porque a renda aumenta, o emprego chega e o acesso à universidade se amplia. Discriminar os mais pobres é lamentável, especialmente em uma cidade onde a desigualdade e a miséria cresceram na atual gestão. Lula está conosco e será reeleito.
Como melhorar a qualidade do transporte para o usuário?
O transporte público precisa de ônibus limpos, com ar-condicionado, e da universalização da frota elétrica. Precisamos ampliar linhas para locais desatendidos e estender horários — não é aceitável que o metrô na capital do país encerre a operação tão cedo, prejudicando os trabalhadores do turno da noite. Precisamos implementar um sistema estruturado de trilhos. Nosso programa prevê o VLT – Veículo Leve sobre Trilhos – e o trem de superfície, ligando grandes distâncias. Temos a proposta do trem do Entorno Sul e a implementação de projetos como o BRT Norte para atender regiões como o Arapoanga. Defendemos a integração do sistema de transporte entre o DF e a Região Integrada de Desenvolvimento (RIDE), unificando a gestão com o governo de Goiás. Além disso, propomos a implementação gradual da tarifa zero. Como o transporte público já é em grande parte custeado pelo GDF, é possível reorganizar as contas.
O DF tem sofrido com ataques ao Fundo Constitucional, como dar autonomia financeira à capital federal?
Mudando a nossa matriz econômica e posicionando Brasília como um polo de tecnologia e economia criativa, gerando empregos de qualidade e altos salários. Queremos atrair empresas e investimentos nas áreas de tecnologia governamental e inovação, integrando universidades, centros de pesquisa e o setor produtivo. Paralelamente, vamos fortalecer o turismo e a economia cultural para reduzir a dependência excessiva do setor público. Sobre o Fundo Constitucional, continuaremos a defendê-lo integralmente. O governo federal recompôs e aumentou os repasses do fundo a partir do crescimento da arrecadação. O recurso existe e aumentou; o que faltou por parte da atual gestão foi capacidade de aplicação para melhorar a saúde, a educação e a segurança da população.