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Estilo de Vida

Jovem arquiteta transforma estreia em manifesto de pertencimento

Recém-formada pela UnB, Maria Beatriz Carneiro assina o Limiar, espaço de 260 m² que une arte e arquitetura e marca também o nascimento de seu escritório

Isabele Mendes

16/09/2026 7h22

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Foto: Bruno Alpino/Jornal de Brasília

Pouco tempo atrás, Maria Beatriz Carneiro percorria a CASACOR Brasília como estudante de arquitetura, acompanhada das amigas e observando de perto os profissionais que assinavam os ambientes da mostra. Em 2026, o percurso ganhou outro significado. Recém-formada pela Universidade de Brasília (UnB), ela voltou ao evento não mais apenas como visitante, mas como uma das profissionais responsáveis por dar forma à edição deste ano. A jovem arquiteta assina o Limiar, galeria de arte de 260 m² distribuída em dois níveis e conectada por uma das principais rampas de circulação da mostra.

A trajetória e os bastidores desse primeiro grande projeto profissional foram tema de mais uma edição do JBr Talks, apresentado por Marcelo Chaves, diretamente da CASACOR Brasília. Durante a conversa, Maria Beatriz falou sobre o reconhecimento ainda no início da carreira, o processo criativo do ambiente e o desejo de construir uma arquitetura que faça as pessoas se sentirem parte dos espaços que habitam.

A chegada à CASACOR veio depois de Maria Beatriz conquistar o terceiro lugar em uma premiação para jovens profissionais. O resultado abriu caminho para o convite para integrar a mostra e colocou diante da recém-formada um desafio que, até então, parecia distante. “Quando eu recebi o convite, não conseguia acreditar”, contou. Para ela, a oportunidade também representava uma chance de apresentar o que havia aprendido durante a graduação e mostrar sua identidade profissional.

O momento ganhou ainda mais peso porque a participação na mostra coincide com o nascimento do Estúdio Talha, escritório criado pela arquiteta. O próprio nome traduz uma ideia que atravessa sua maneira de projetar: partir de algo que já possui potencial e moldá-lo a partir das histórias, memórias e necessidades de quem vai ocupar o lugar. Antes de pensar apenas na estética, ela diz buscar entender como o cliente deseja se sentir dentro daquele ambiente.

Um lugar para parar e olhar

Na CASACOR, esse princípio aparece no Limiar. Embora esteja instalado justamente em uma área de passagem obrigatória para quem percorre outros ambientes da mostra, o projeto propõe o contrário da pressa. Ao conhecer o espaço pela primeira vez, Maria Beatriz conta que uma palavra surgiu ainda no processo inicial de criação: contemplação.

A partir dela, o percurso foi desenhado para que as obras possam ser percebidas sob diferentes perspectivas. Conforme o visitante sobe pela rampa ou muda de posição, também muda o enquadramento da galeria. “Em cada ângulo você consegue observar a obra de um ambiente diferente, com um olhar diferente”, explicou. A localização, segundo ela, tornou-se parte importante da proposta justamente porque todos que seguem pelo circuito passam pelo local.

Arte e arquitetura, portanto, não deveriam disputar atenção. A intenção foi fazer com que uma completasse a outra. Com a estrutura arquitetônica já definida, a curadoria das obras foi pensada levando em consideração paredes, ângulos e o campo de visão de quem atravessa o espaço. A proposta era estabelecer uma integração entre o que está exposto e o ambiente que recebe as peças.

A iluminação foi outro desafio. Era a primeira vez que Maria Beatriz projetava uma galeria, o que exigiu aprendizado específico sobre como a luz poderia valorizar cada obra sem comprometer a atmosfera pretendida para o conjunto. Na entrevista a Marcelo Chaves, ela reconheceu que o processo exigiu estudo e destacou o suporte recebido de parceiros durante a execução.

Entre o bruto e o acolhedor

Os contrastes também ajudam a contar a história do Limiar. O concreto aparente, de caráter mais bruto, divide espaço com a madeira e com um mobiliário pensado para trazer acolhimento. A oposição entre os materiais não é acidental. Maria Beatriz explica que gosta de trabalhar justamente com essa tensão e buscou levá-la também aos móveis.

“Eu queria que fosse um espaço convidativo para vocês se sentarem e conversarem”, afirmou. O mobiliário inclui peças de Jader Almeida, além da participação de parceiros que, segundo a arquiteta, acreditaram na proposta ainda em um momento muito inicial de sua trajetória.

Mais do que uma escolha estética, o conforto está relacionado à ideia de pertencimento que Maria Beatriz pretende carregar para os próximos projetos. Ao falar sobre seu método de trabalho, ela contou que prefere começar pela conversa. Quer saber o que o cliente sente, quais são suas referências e, principalmente, como deseja viver naquele lugar.

A estreia também colocou a jovem profissional lado a lado com nomes mais experientes da arquitetura e do design. Em vez de enxergar essa diferença de trajetória como uma desvantagem, Maria Beatriz vê a CASACOR como uma extensão do próprio processo de formação. “Estou aqui com profissionais incríveis no mercado, que estão me ensinando muito. Estou aprendendo muito”, disse.

A experiência ganha uma camada afetiva porque a mostra já fazia parte de sua vida antes mesmo da formação. Maria Beatriz contou que costumava visitar as edições enquanto ainda estudava arquitetura. Na época, caminhava pelos ambientes, observava os projetos e conversava com profissionais. O que parecia uma referência para o futuro acabou chegando mais cedo do que imaginava.

A própria arquiteta admite que não esperava ocupar esse lugar tão rapidamente. Ao relembrar o período da premiação, contou que cerca de 50 projetos estavam na disputa e que a família teve papel importante para que ela decidisse tentar. A insegurança, segundo Maria Beatriz, fazia parte daquele momento de transição entre a universidade e o mercado de trabalho.

Se a CASACOR representa o primeiro grande passo, Maria Beatriz já sabe ao menos qual direção pretende seguir. Questionada por Marcelo Chaves sobre a profissional que gostaria de ser daqui a dez anos, não falou primeiro em tamanho de escritório, número de projetos ou reconhecimento. Falou em proximidade.

“Eu quero ser uma arquiteta acessível às pessoas”, resumiu. A intenção é manter com os clientes uma relação aberta, na qual eles também se sintam participantes do processo criativo. “Quero ouvir realmente todas as demandas que eles sentem”, completou. 

O Limiar acaba funcionando também como uma espécie de retrato do momento vivido pela própria arquiteta. Maria Beatriz está justamente nesse espaço intermediário sugerido pelo nome do projeto: deixou a universidade há pouco e começa agora a construir sua identidade no mercado. Na CASACOR, o primeiro passo já veio acompanhado de um endereço de destaque.

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