O JBr Talks Especial CASACOR 2026 segue percorrendo os ambientes da mostra para revelar não apenas o resultado dos projetos, mas também as histórias e escolhas por trás de cada espaço. No segundo episódio da série, o jornalista e colunista do Jornal de Brasília Marcelo Chaves recebe o arquiteto e urbanista Lucas Nascimento para uma conversa dentro do Living Podcast, ambiente assinado pelo profissional.
Com 110 metros quadrados, o espaço nasceu de uma provocação: criar um estúdio de gravação que não tivesse aparência de estúdio. A proposta levou Lucas a pensar em um ambiente capaz de assumir diferentes funções e, ao mesmo tempo, proporcionar uma experiência sensorial ao visitante.
“Quando eu recebi o convite, a missão de desenvolver o projeto para o estúdio de gravação, eu tinha essa provocação de que o estúdio não tivesse exatamente cara de estúdio”, explica Lucas.
A partir daí, o arquiteto transformou o Living Podcast em uma espécie de encontro entre as sete belas artes. Pintura, escultura, teatro, cinema, música e literatura aparecem incorporados à arquitetura e ajudam a construir a narrativa do projeto.
Para Lucas, essa relação parte da própria maneira como enxerga a profissão. “Eu defendo que a arquitetura, enquanto uma das sete belas artes, é parte do meio, é o caminho, é o processo que abarca todas as outras irmãs”, afirma.
A experiência também conversa diretamente com o tema da CASACOR Brasília 2026, “Mente e Coração”. Mais do que um espaço visualmente marcante, o Living Podcast foi projetado para despertar sensações. “Ainda que a mente fique, de certa forma, enlaçada nesse visual, nessa plástica, nessa cena, é no coração, é no toque, é no gesto, é na sensação que se tem no ambiente e na peça que isso acontece”, destaca o arquiteto.
Entre o quente e o frio
No ambiente, estética e funcionalidade caminham juntas. As cortinas de veludo e o carpete remetem aos grandes teatros e cinemas, mas também cumprem uma função prática no isolamento acústico exigido por um estúdio de gravação.
Do outro lado dessa composição está uma bancada de aço escovado de 4,5 metros, tratada pelo arquiteto como uma das protagonistas do espaço. O material cria um contraste proposital com a textura e o acolhimento do veludo e do carpete.
“Eu queria brincar com opostos. Da mesma forma que brinquei na iluminação com cheios e vazios, com o inox eu queria brincar com quente e frio”, conta. Segundo Lucas, a bancada funciona como “a joia da coroa” do projeto.
Essa mistura se estende ao mobiliário e aos objetos escolhidos para ocupar o Living Podcast. Peças contemporâneas dividem espaço com itens de acervo e referências clássicas. O critério, segundo o arquiteto, vai além da estética: cada elemento precisa carregar significado.
“Precisa contar uma história, precisa ter densidade histórica para que seja escolhida”, resume.
A literatura aparece justamente por meio dessas narrativas. Já a música, na visão do arquiteto, funciona de maneira mais sutil. “A música, eu costumo dizer que funciona como sal em uma comida. Ela faz a diferença, dá aquele toque, mas de forma sutil”, compara.
O conjunto ainda reúne obras de arte de grandes dimensões e esculturas que reforçam a proposta de transformar a passagem pelo espaço em uma experiência de contemplação. Algumas das obras expostas chegam a Brasília pela primeira vez.
Arquitetura para despertar memórias
Em sua estreia na CASACOR Brasília, Lucas Nascimento também vive um momento de reposicionamento profissional. Durante a conversa, ele conta que passou a buscar uma relação mais livre e prazerosa com a própria criação.
“Eu quero me divertir com o processo, eu quero estar feliz com o que eu esteja fazendo. Então, sem sombra de dúvidas, isso foi uma premissa para o desenvolvimento desse projeto”, afirma.
Essa liberdade não elimina, porém, a importância da memória. Para Lucas, projetar significa construir narrativas capazes de acompanhar a vida das pessoas. “Na maioria das vezes, quando se projeta uma casa, por exemplo, nós estamos construindo um cenário de uma vida”, observa.
A relação entre arquitetura e memória também aparece na própria escolha da CASACOR Brasília de ocupar novamente a Casa do Candango. Para o arquiteto, devolver movimento a locais marcantes da história da capital ajuda a cidade a se reapropriar de espaços que já tiveram papel importante em sua trajetória.
“Ter a oportunidade de fazer parte de uma mostra que traz de volta à vida um espaço tão importante, emblemático como esse, é muito especial”, diz.
Questionado por Marcelo Chaves sobre outro endereço brasiliense que gostaria de ver revitalizado, Lucas apontou a antiga Academia de Tênis de Brasília, citando a história e a dimensão do complexo como elementos que poderiam render uma nova ocupação ligada à arquitetura e ao design.
A conversa ainda passa pela trajetória do escritório de Lucas. Um dos trabalhos destacados pelo arquiteto é o projeto da Clínica Brunet, no Lago Sul, que ajudou a abrir novas portas para a atuação no segmento de saúde. Atualmente, segundo ele, cerca de 80% dos projetos desenvolvidos pelo escritório estão ligados à área hospitalar, entre clínicas, consultórios e centros especializados.
Para encerrar o episódio, Marcelo Chaves lançou um desafio: se o Living Podcast pudesse ser traduzido em uma música, qual seria? Lucas escolheu “Killing Me Softly”, associando a canção e sua intérprete à potência, ao drama e à capacidade de ruptura que também procura imprimir em seu trabalho.
A série continua nas próximas semanas, com Marcelo Chaves recebendo novos profissionais, ou melhor, sendo recebido, em diferentes espaços da CASACOR Brasília 2026.